PENSAMENTO
E RELAÇÃO
Eliane Colchete
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O estruturalismo e seu "pós", como desdobramentos da teoria do
inconsciente, investiram a filosofia de um modo que ainda está por ser
equacionado na história das ideias. Esse investimento converge na ultrapassagem
consciente que os estruturalismos tencionaram realizar, do cenário
fenomenológico-hermenêutico que vinha se prolongando desde Heidegger e Sartre.
Esse cenário já encontrava-se porém num novo contexto, quando o
pós-estruturalismo veio expressar por sua emergência a importância que o
pensamento estrutural já havia obtido desde os anos cinquenta.
Esse novo contexto é o da New Left como atualização da teoria
crítica vinda de Benjamin, Adorno e Hokheimer, e psicologia humanista de
Maslow, Laing e Cooper, Carl Rogers, Rollo May e outros. O que na filosofia
expressou um novo eticismo, com a ética sendo elevada à categoria de filosofia
primeira conforme Levinas, logo redobrada pelo discurso da
"comunidade de comunicação" entre Habermas e Apel. Inversamente ao
que se poderia supor pela rubrica da politização dos conteúdos de ciência que
costuma ser atribuído a new left, porém, esse eticismo foi contrário ao
político em termos de sociedade organizada, visando formas de anarquismo como
"ação direta", atuação sobre o "mundo da vida" ao invés de
sobre o "sistêmico" legal, etc..
O pós-estruturalismo de Derrida expressa-se como a defesa
heideggeriana contra o eticismo, especialmente o de Levinas, o que cria
uma situação bastante paradoxal na história das ideias. Pois o estruturalismo,
se revela alguma confluência com Heidegger, não é de fato uma
hermenêutica nem preconiza qualquer preponderância da "compreensão"
(Verstehen). Inversamente, entre Lévi-Strauss, Lacan e
Althusser, o inceptor da corrente é Strauss, mas o fio condutor é o
da teoria do inconsciente, lacaniano. Porém o paradoxo tem longas raízes.
O neokantismo na transição ao século XX foi o trampolim do qual
emerge a hermenêutica "compreensiva", mas pode-se falar de um novo
novo kantismo quando se trata do investimento filosófico do
pós-estruturalismo. Investimento que é algo irredutível à tangência
apenas operacional, por assim expressar, da filosofia pelo estruturalismo
ortodoxo, entre os três maiores referenciais que consideramos. Pois, cada
um deles está renovando uma área científica precisa, respectivamente
a antropologia (etnologia), a psicanálise e o marxismo. Enquanto o
pós-estruturalismo desenvolveu os aportes
problemáticos, teórico-puros, enunciáveis na junção da teoria do
inconsciente e metodologia estrutural com a ontologia e epistemologia.
Nessa junção é que podemos falar de um novo novo kantismo, como o
deleuziano, enquanto Foucault e Derrida o confluem com o que
resta por pensar da questão Heideggeriana do Ser como Existência
(Dasein). O que resultou são produções independentes umas das
outras, é certo, porém conservando um princípio em comum em Kant.
Neste blog, defendo a concepção contrária às duas tendência neokantianas.
Ao contrário da primeira, o pós-estruturalismo operou a partir de uma crítica
das limitações de Kant como um filósofo da "razão" sem a gênese,
introduzindo uma filosofia da consciência que não se relacionava à problemática
da constituição do objeto a partir do desejo. As ambiguidades resultantes dessa
ausência já foram muito comentadas e fizeram estragos até mesmo pelo
pronunciamento de críticas oriundas da própria tendência hermenêutica.
Visando assim sanar uma aporia de fato insolúvel, como a
conservação da universalidade da consciência porém convergindo com a
psicanálise sem no entanto haver a explicitação do nexo desse novo contexto com
a base neokantiana inicial.
Mas a verdadeira ruptura relativamente ao limite da filosofia da consciência,
que acontece só com o pós-estruturalismo vindo já do que enunciava o rise
estrutural, tornou-se por sua vez refreada pelo seu investimento
ontológico desdobrado a partir do criticismo kantiano.
Um quarto pilar do pensamento estrutural, Piaget,
está assim abstraído pelos outros na tendência como um todo.
Ao contrário de uma soldagem forçada ao criticismo kantiano, Piaget
realmente demonstrou o quanto o pensamento estrutural é
uma ruptura relativamente a ele como a toda tradição
filosófica que acreditava poder dispensar-se da experiência. Piaget,
nesse sentido, é um avanço considerável porque até aí a
tendência que investira contrariamente à ontologia fora da
experiência, havia se estagnado no obstáculo do associacionismo - não
apenas a associação de ideias, mas a concepção do pensamento por
imagens, que foi refutada pela psicologia de inícios do século junto com
o assim designado atomismo lógico.
Piaget reinveste a experiência, porém evitando os dois obstáculos. Assim ele é
o único que refuta Kant frontalmente - não apenas limitando-se a considerar que
Kant apresentou a forma da estrutura porém não a gênese. Piaget mostrou assim,
por observação de crianças em vários países, que ao contrário do que Kant
dissera, o número não é a priori, é capacidade ulterior à aquisição da
noção de qualidade. Além disso, mostrou bem que o inatismo do a priori não
resolve a questão do inconsciente cognitivo, que articula possibilidades de
desenvolvimento inatas com a experiência da criança em seu meio ambiente, ou
seja, o que é inato não é primeiro, mas se desenvolve com o tempo, e não é
espontâneo, dependendo de ser ativado - se não houver experiência ambiental
possível, não há ativação correspondente.
Não obstante, as forças que impulsionaram o retorno pós-estrutural da
ontologia, atuaram em todo campo estrutural. Piaget terminou por reinserir-se
numa reserva ao sensismo e à descoberta experimental
que converge com sua homologia ocidentalista entre história das
ideias e desenvolvimento subjetivo das estruturas cognitivas.
As mencionadas forças são assim identificadas. Elas expressam
a oposição ocidentalista a que o pensamento, como a
cientificidade, não possa ser escalonado como numa progressão
formal intrínseca à história cultural europeia, de modo que a
história efetiva - qualquer que seja a especialidade - europeia, não
possa enunciar rupturas insanáveis na "tradição".
O contrário do que a ciência experimental enunciara de si mesma antes que se
consolidasse um percurso que começando com Kant e o pós-kantismo,
surpreende aqueles que consideram o positivismo a subversão dessa ordem
intelectualista do idealismo transcendental. Pois a lei dos três estágios, de
Comte, e o marxismo, expressam a consolidação, que atua entretanto como um
verdadeiro início, do a priori ocidentalista.
O
mérito de Piaget, quando ainda o motivara o enfrentamento das
resistências da faculdade de filosofia relativamente à sua iniciativa da
psicologia "experimental" - na verdade observacional -
parece-me permanecer nisso pelo que ele é confrontado pelas teorias
do objeto que podemos haurir do deleuziano Diferença e Repetição, assim
como do a priori do Ser que Derrida defendeu em A Escritura e a Diferença. Se
minha recusa dos dois neokantismos é uma recolocação da teoria do
objeto em termos de pensamento por relações, o que deveria nos
fazer repensar o termo "categorias" e o que ele representa
na história da filosofia, Piaget fornece elementos importantes na
sustentação dessa crítica.
Aqui, primeiro estarei desenvolvendo a demonstração da convergência do
pensamento pós-estrutural como um neokantismo, com Heidegger e Freud. Por esse
aspecto, estarei demonstrando que o pós-estruturalismo foi a inserção de Freud
na história da filosofia, não como um capítulo à parte, mas como integrante
transformacional na história dos conceitos. Após o que, espero retornar a
Piaget para num confronto com o pensamento categorial de Kant, efetivar as
críticas possíveis.
II
A filosofia pós-estrutural do Inconsciente
A colocação levisiana da ética como filosofia primeira é algo que devemos
certamente recusar. A crítica da ontologia que nela está implícita se torna
algo ambíguo. Mas nossa crítica não é defesa da ontologia. Apenas indaga sobre
como podemos conceber que a ontologia foi deslocada, se continua havendo a
prerrogativa de algo no Real na categoria de "primeiro", que em
filosofia, por definição, como "primeiro", supõe-se transcendental
à experiência?
O pensamento por relações que aqui consideramos não-categorial, seria
justamente contrário ao estatuto de algo ontologicamente "primeiro".
A filosofia de Levinas se coloca portanto nessa aporia inicial, de ao
mesmo tempo ser contra a ontologia tradicional mas afirmar algo
"primeiro".
A concepção de Levinas da ética como a priori do rosto, assim como do
"outro", tem a mesma forma do a priori da
ética "comunicativa" de Habermas ou Apel, ainda que não o mesmo
conteúdo. São ao mesmo tempo supostos transcendentais e existentes
concretamente, como realidades que sem a reflexão do a priori poderíamos julgar
empíricos, ao contrário do status puramente intelectivo que o transcendental
teve até aí, entre Kant, seu inventor, os pós-kantianos de Fichte a Hegel, e
Heidegger. Respectivamente os elementos da Razão, o Eu e o Ser.
Na ética recente que se propôs como filosofia primeira,
a reflexão desloca a apreensão empírica do concreto, o rosto ou
a comunicação, e os pensa como constituindo os sujeitos de sua
experiência. Vemos que a concretude dependia, pois, do situamento dos
sujeitos como, inversamente, prévios à experiência do rosto de outrem
ou da situação do diálogo. Porém isso só é assim para uma apreensão imediata.
Na história da filosofia, ainda está por se pensar as
implicações desse deslocamento do transcendental à reflexão
fazendo-se bem recente ou até ainda atualmente. Até aqui,
na filosofia, a concepção do sujeito, que na apreensão ingênua
é o referencial da experiência do rosto ou da situação dialógica,
estava subsumida ao transcendental intelectivo, não sendo necessariamente um
dado imediato.
Pode ser que Heidegger tenha tido o papel histórico de tornar possível o salto
do transcendental a uma concretude que Hegel mesmo, a quem costuma-se associar
os termos de "transcendental concreto", não podia antecipar. A
hegeliana intersubjetividade, agência dos sujeitos em algo como
a cultura histórica, realmente não é algo subsumível, ainda que ingenuamente,
a um dado da experiência que podemos apontar com o dedo, ao contrário de um
rosto ou da constatação de que aquelas duas pessoas ali estão dialogando.
Podemos concordar ou não com a transposição desses dados da experiência a um
papel constitutivo dos sujeitos, e podemos também questionar a ambiguidade pela
qual desse modo a noção comum ou solipsista de subjetividade está sendo
criticada, porém sendo a mesma que resulta da operação transcendental. O
sujeito afetado pelo outro, que se constitui como eu nessa pressão do
rosto sobre si, o sujeito que se estabiliza como posição numa teia de
argumentação entretecida pelas regras do discurso, na verdade são, ou vieram a
ser, sujeitos, e não devemos admitir sua solvência, digamos, na
estrutura como no próprio discurso. Assim Habermas ("Pensamento
pós-metafísico") critica Italo Calvino, salientando que a sua construção
da consciência do leitor é um pressuposto fantasioso, já que ela pré-existe, o
leitor é sujeito, se é leitor.
Mas a objeção pela qual se o sujeito pré-existe, então ele tem uma realidade em
si, no mínimo de mesmo estatuto ontológico que sua relação com o outro,
rosto ou diálogo, ou então prévia a ela, uma vez que sendo relação só podemos
pensa-la se os sujeitos como termos da relação existem empírica e
previamente, não é aceita por Habermas. O sujeito "solipsista", que
existe em si como o Eu prévio em qualquer experiência, é suposto tão
falacioso quanto sua redução a epifenômeno estrutural-discursivo ao menos
enquanto o sujeito da experiência da leitura.
A afirmação real desse sujeito, filosófica ou empírica, quando chega a ser
feita, é simplesmente negada por Habermas que a reduz ao
"solipsismo". A suposição de que ela é feita ou pode ser
feita se tematiza como o correlato da pior alienação, a causa de todas as
dominações derrelictivas que demarcam a história da hediondez - assim
como, numa tendência ilegalista conspícua a que essa posição pode se unir,
a causa da emergência do Estado, reduzido conceitualmente ao "sistêmico
capitalista" já articulado pelo "cientificismo
objetivista".
Nesse ponto em que a teoria da ética primeira se desdobra num política
anticapitalista desse modo definida, Apel e Habermas
diferem. Habermas se articulou com a new left ou teoria
crítica, que confundiu singularmente ciência e interesse, teoria e prática, e
encontrou na efervescência dos sixties um ambiente mais que oportuno.
Mais tarde, quando o ativismo arrefeceu, nos anos oitenta, a mesma
confusão, sob a alcunha do "modo de vida" do "sujeito concreto" serviu
a propósitos dirigistas de movimentos sociais, como os de Seyla Benhabib
no feminismo. Aqui a independência dos sujeitos, e já como sujeitos
políticos, é não só negada, como agressivamente antagonizada por ser reduzida
a abstração dos papeis sociais confundidos por Benhabib como a
"concretude" da pessoa ela mesma. Essa crítica jamais suspeita do
nexo entre a redução ao papel social e a ideologia, supondo ingenuamente que a
ideologia é apenas conteúdos distorcidos de papeis sociais que naturalmente
seriam sãos enquanto totalizantes da subjetividade.
Mas Benhabib não dá suas razões a propósito de como é possível saber a natureza
das pessoas, ao invés do script imaginário do papel - afinal, ninguém vive o
papel, mas somente situações complexas. Ela se limita quanto a isso a seguir
Carol Gilligan, pensando que está seguindo Habermas, no pressuposto de que
todos são mentes narrativas - além disso ser falacioso, porque
se nossas mentes fossem narrativas, elas não poderiam apreender o que são,
já que a afirmação de que a mente é narrativa não é narrativa, o que isso
explica em termos de nossas opções, direitos e deveres conscientes nunca fica
esclarecido.
Apel criticou a imediatez do "interesse", ressalvando
a autonomia do teórico contra a new left, numa atitude que mesmo
feita ainda nos sixties, na transição aos anos dois mil tornou-se
corrente. Expressa por exemplo como crítica do dirigismo como a que fez Jane
Flex quanto ao feminismo, encaminhando-se a alguma definição do cenário
pós-moderno.
Stanley Aronowitz, num artigo de 1989 ("pós-modernismo e
política") enganou-se quanto a Habermas como a um crítico do discurso
enquanto instância permeada pelo interesse, como se o escopo da ética
comunicativa fosse depurá-lo em prol de um pressuposto racional puro.
Essa não é a posição habermasiana, mas sim que a lógica da
argumentação, pressupondo entretanto o engajamento não-sistêmico
dos sujeitos num "mundo da vida" (como homens ou mulheres, vitalmente
interessados em algo, etc.), se não for distorcida por procedimentos
falaciosos irá necessariamente implicar o resultado de uma posição de
reciprocidade dos sujeitos que é a mesma que os constitui enquanto
sujeitos da argumentação. Não deixa de ser um a priori racional,
porém aqui a razão são as regras da argumentação, totalizadas na
meta-regra que posiciona pragmaticamente os sujeitos, que não podem ser
pensados, e nem pensam, à parte do seu interesse, ainda que
confrontando-se com outros num meio argumentativo.
Levinas difere bastante dessa condução do que designamos aqui a
priori concreto mas não igual a Hegel, a uma estabilização meta-teórica
racional por via discursiva. Ainda que se tenha impressão de que ele
prolonga os aspectos mais rudes da new left, vemos que enquanto a ética
comunicativa parte de um heideggerianismo inicial, Levinas já começa rompendo
com ele assim como com Sartre, ainda que possamos duvidar de que só por isso
chega a algo que destoe da linha "humanista".
À concepção levisiana do "sujeito anárquico" vai
se acrescentar um ativismo suposto como "interrupção do
político". O "político" sendo a ordem da legalidade
democrática do Estado, julgada impessoal - conforme a
tradição vinda de Weber e do pós-positivismo, baseada na antropologia
da "gemeinshaft" (comunidade) primitiva como o inverso da
geselshaft (sociedade) estatal civilizada. A interrupção tem assim um aspecto
religioso, tradicional comunitário, e Levinas nisso se aproxima de Gadamer. É
importante tornar a enfatizar o risco político - na acepção das metas sociais -
envolvido nessa posição comum à new left. Pois o que é julgado
"impessoal" é justamente a premissa do sujeito privado como
referencial das garantias civis.
A noção contrária a esse referencial como vimos é a de "pessoa"
porém restrita ao que se designa sujeito "encarnado"
ou "concreto", comum à New left e a esses ativismos de tendência
ilegalista não obstante francamente conservadora. A noção tem na tradição
sociológica weberiana sua origem, posto que na noção antropológica
de comunidade primitiva de inícios do século XX - ora ultrapassada -
o sujeito não tinha consciência de si nem direitos como indivíduo,
mas se confundia inteiramente com seu papel comunitário que era
via de regra um papel orgânico num sistema de parentesco que se
julgava integrar todas as demais funções, econômicas ou culturais.
A comunidade originária tribal assim paternalisticamente definida, se
preservava modernamente na família - como nas políticas de grupo derivadas
da new left, em condições tais como etnia, gênero sexual, limites etários,
etc. As funções mesmas não generalizáveis além de sua delimitação
instrumental, supondo-se que concretizadas, cada comunidade
as dotaria de significado simbólico próprio, inscritos como visão de
mundo totalizante no sistema de sua língua.
Hoje tal antropologia já está superada, mas devemos notar que o que a
sancionava era uma base dicotômica do primitivo e civilizado
(moderno-ocidental) que funcionou variamente instrumentando todos os paradigmas
sucessivos da modernidade, e é por isso, por essa superação da dicotomia mesma,
que creio ser afirmável a pós-modernidade sem conceitos dúbios como de
transição ou liquidação de valores. Essa afirmação é recente e desborda os
quadros do que podemos designar a primeira teoria em torno do pós-moderno,
que coalesceu desde o final dos anos setenta, singularmente confusa,
contraditória, sem um referencial preciso, cujos limites poderíamos situar em
princípios dos anos dois mil.
Porém a situação não deixa de permanecer confusa. O acirramento do
conflito social decorrente da geopolítica norte/sul, mostra-se
um ambiente propício para a confluência de intervenções do
capitalismo na cultura que, ao contrário do que pressupõe o discurso da
new left, a prefere, ainda que ao preço do comprometimento das
instituições de ciências com paradigmas antropológicos superados.
O
motivo é o comum acordo, firmado como pacto da
globalização, entre direita do capitalismo multinacional e esquerdas
organicistas, contra o pensamento esclarecido da legalidade constituída em
torno da premissa do respeito à privacidade, construtiva da
democracia.
Na antropologia atual não temos dificuldade em conciliar a premissa
democrática-legal com a necessidade que ela põe, de já estar
havendo a auto-consciência dos sujeitos, uma vez que não acreditamos
no coletivismo primitivo como a priori social de idades históricas que
reproduzem as idades psíquicas demonstradas como tais na psicologia.
Ao contrário, é inerente aos fatos da globalização que no cenário da
ilegitimidade geral que se instaurou pelo referido pacto, seja mais comum
a inversão dos termos pela qual, se entre ambos, o primitivo e a criança,
sociologia e psicologia, a segunda não tenha sido deslocada ao
contrário da primeira, pelo contrário se assista a inconsequência de
afirmações de que a criança tudo pode enquanto a "tradição" e o
coletivo sempre são como são.
Uma outra
distorção se verifica, pela qual sendo o alvo do pacto o antagonismo
comum contra o pensamento democrático-legal (cisão de público e privado),
já não é isso o que se diz. Mas sim que o inimigo - que embora o seja, não
se diz também "comum" entre direita e tais esquerdas de coletivos
setorizados - é o pós-estruturalismo. Ora porque ele
é o único ilegalismo já que o coletivo pode ser explorado
demagogicamente como "tradição", ora, inversamente, porque ele é o
único conservador. Quanto ao confronto expresso Levinas/Derrida,
creio ser portanto algo instrutivo para os quadros atuais.
Algo
insólito aí é que Derrida não questionou a
princípio, a ambiguidade de algo como, ao mesmo tempo,
filosofia primeira e não ontologia. Ele aceitou os termos
levisianos da ontologia como apenas postulação explícita do Ser,
condensada na filosofia de Heidegger ao modo de súmula de todo pensamento
ontológico possível. É nesse ponto que Derrida abandona o decalque que vinha
fazendo da filosofia de Levinas, de modo que não se discernia bem se era uma
crítica ou uma exposição concertada ao seu correlato, tornando-se, ao invés, um
ardoroso defensor da parte contrária, a filosofia de Heidegger. É bem longa a
redação do elogio derridiano ao Ser heideggeriano, composta com pompa e estilo.
Creio ser necessário nos determos aqui, em proveito do nosso tema do pensamento
por relações. Tanto em prol de um ataque ao mérito da questão mesma da
ontologia, quanto ao de um exame desse texto tão sintomático.
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Heidegger pode ser estabelecido como um pensador que se relacionou
profundamente com o que designamos aqui parâmetro funcionalista. Este, enquanto
o cenário da metade inicial do século XX orientado pelo meta-relato da
gemeinschaft primitiva, somente em oposição a que se viabilizava qualquer
estimativa acerca da geselshaft ou sociedade industrial. Isso é afirmável
explicitamente pela referência elogiosa de Heidegger a Heisemberg, em Tempo e
Ser.
Ainda que seja muito mal traduzido aqui por "A parte e o todo",
o título da autobiografia de Heisemberg, a expressão convém como o
melhor resumo da filosofia por trás da metodologia das ciências funcionalistas.
A totalidade subsume as partes, como exemplarmente na escola psicológica
da Gestalt. Percebemos campos totais, e só a partir deles logramos
discernir algo analiticamente. Um cotejo deste livro de Heisemberg com o
"Psicologia da Forma" de Paul Guilhaume, resulta num acordo
raramente atingido no campo das ciências.
O Ser que Heidegger colocou como o foco a partir do qual a humanidade
pensa ordinariamente, e se torna pensante ontologicamente na Grécia, é o
enunciado da totalidade. Um campo de significação é o que se presentifica como
o a priori do que o "ser" pode atribuir na proposição. A
presença espectral desse todo desqualifica a presença de qualquer das
atribuições que se verificam, entretanto só elas efetivamente, nele,
enquanto algo que tivesse um sentido na imediatez em que se dá à experiência
mesma da atribuição.
O termo "estrutura" pode traduzir Gestalt, a totalidade,
tanto quanto Forma, porém significando apenas o todo em si, não
"articulação dos elementos" como no que se designa estruturalismo, a
metodologia oposta ao parâmetro funcional.
O funcionalismo nas humanities (ciências humanas), emergindo entre
a antropologia social que inaugurava a pesquisa in loco, e a sociologia,
operou desde sempre por uma metáfora biologista. O todo como organismo, as
partes como suas funções. Heidegger logrou desfazer essa fraqueza e constituir
uma linguagem conceitual que expressava o pensamento original do funcionalismo,
pensamento oriundo do modo como se interpretavam humanisticamente as
descobertas do novo meio da pesquisa. O esclarecimento do termo que grifei vem
a seguir.
Não sabemos se a antropologia social ou a sociologia tem a precedência na
formulação metodológica das ciências funcionalistas, há defensores
de ambas nesse status. Mas quando se constitui uma
linguagem já em nível de pressupostos metódicos, isto é
filosóficos, vemos que esse desenvolvimento da ciência à
filosofia pode ter ocorrido porque os resultados da
pesquisa apresentavam uma consistência possivelmente antropológica na
acepção filosófica do termo. Isto é, mais abrangente e universal,
como uma interpretação da natureza do Homem, do que a ciência da
"antropologia social" poderia ambicionar para si. Sendo
esta apenas um conjunto de conhecimentos restrito ao seu objeto, a
saber, os costumes, linguagem e funcionamento de sociedades definidas
espacio-temporalmente e as origens prováveis ou comprováveis deles.
A decalagem entre ambas, antropologia filosófica e
científica-"social", já é uma questão que envolve a posição metodológica
- isto é, a questão do método enquanto científica. Dentro do parâmetro
funcional, a decalagem é oportuna e consequente, como divisão do trabalho
do pensamento relativamente ao fenômeno humano. O parâmetro de fato subordina a
ciência à filosofia, porém de um modo que permite que esta seja uma crítica da
ciência tão radical que atinja a própria tradição filosófica na medida em que
no passado possa ter servido à sedimentação de um conceito de ciência que
subvertesse a hierarquia. A ciência sancionada é apenas a nova ciência
subordinada, e "quem" sanciona é uma nova filosofia
"hermenêutica", suposta adequada à nova ciência.
Além disso, é porque essa ciência é nova, é porque ela descobriu algo
no trabalho empírico, ele mesmo procedimento novo, que permite a própria
subordinação. O descoberto assim, pode ser designado pelo rótulo
"pós-positivismo" porque desacreditava a previsão do funcionamento
das sociedades com base na classificação do progresso técnico, o que constituiu
a crença científica do período anterior, como o de Morgan a Engels, e qualquer
referencial estudado da mesma
época.
Na crença da ciência "positivista", orientada pelo
meta-relato da evolução darwinista, pré-mendeliana e por
isso aplicável (erroneamente) à ciência social, há uma
constante da raça como princípio adaptativo a certo meio geográfico, o que
sancionava o racismo como atribuição de um limite biológico determinante
da mentalidade étnica. Só a "raça" branca adaptara-se pela
inteligência e por isso desenvolvera-se industrial-cientificamente, em
sociedades de regimes constitucionais-legais que refletiam a mentalidade
não-primitiva, não-sádico-despótico-instintiva, mas sim, inversamente,
humanista. Negros e índios adaptaram-se pela força bruta, em
ambiente tropical rude, que a isso somente induziram, razão pela qual não
desenvolviam inteligência. A dominação imperialista do mundo pelo ocidente
estava assim justificada, porque seria a dominação da inteligência que
eliminaria progressivamente as raças brutas, não cientificizáveis, assim como
eliminaria também os miscigenados, esses sem cultura porque sem raça - ver
sobre isso Os Sertões, de Euclides da Cunha, o melhor documento do
positivismo brasileiro.
A crença científica positivista tem sido interpretada como em Rumney e
Maier, uma tentativa de legitimação do imperialismo nascente. Essa é a
interpretação corrente entre os sociólogos, que cunharam a expressão
"darwinismo social" para essa crença que no oitocentos era porém
praticada como certeza científica. Funcionava então, como vimos, a
justificativa pela qual o domínio das economias das nações recentemente
descolonizadas na América, pela Inglaterra, era do interesse da humanidade
inteira, assim como, pouco depois, a entrada das demais potências
europeias na corrida neocolonial. Não que no positivismo
se acreditasse que as raças não-brancas iriam assim desenvolver-se
inteligentemente, mas sim que seriam progressivamente eliminadas pelo domínio
territorial dos brancos ou miscigenação com os brancos, esta miscigenação
ocorrendo ao longo de gerações sucessivas de minoração do fator não-branco por
políticas raciais concertadas. Porém como vimos, a miscigenação em si era
abominada como degeneração - uma contradição que explica apenas as políticas de
importação de trabalhadores brancos em países como Brasil, a fim de
"melhorar a raça" por incorporação étnica local.
Hoje em dia, o anarquismo tem tido a consequência nefasta, por apropriar-se de
lutas antirracistas e feministas, de não ser a crítica desse
conceito. Mas apenas a inversão dele, de modo que a inteligência fica
sendo abominada, e a brutalidade supostamente atribuída à força de negros
e índios "puros" como o que deve ser valorizado dos
"sujeitos concretos".
O imperialismo positivista correspondeu em geral, como no Brasil, não à
República substitutiva do Império senão como um novo meio de perpetuação das
mesmas relações de produção, com o agravante da importação étnica. Isto é, a
atração dos trabalhadores europeus com a finalidade de "branquear"
por casamentos, a população local, e não integração da população negra, índia
ou miscigenada sem tal objetivo, nos novos mercados urbanizados.
Política racial republicana que tinha por colorário o desprezo e a
repressão dos elementos assim considerados não-integráveis à urbanização e
"progresso" industrial - ambiguamente não podendo ser feita de fato,
com o mercado dominado pela indústria inglesa cujos interesses eram atendidos
antes pelos fornecedores agrícolas de matérias primas baratas.
Essa dominação explica o próprio Império pré-republicano, subvencionado
pela mesma Inglaterra que assim susteve o movimento da independência local
que era progressista mas nacionalista, isto é, integrando a
heterogeneidade étnica segundo parâmetros iluministas ou romanticistas,
inclusive socialistas, em todo caso pré-positivistas. Os
intelectuais desse período anterior foram interpretados pelos
positivistas em termos de "mestiço moral" ( preguiçoso, sensual,
primitivo bruto, etc.), expressão corrente para todo desvio relativo ao
ideário tradicional consagrado na segunda metade do oitocentos, pelo exército e
intelectualidade em geral. Devemos lembrar que nossa bandeira ostenta
o dístico de Augusto Comte, o pai do "positivismo"
("ordem e progresso").
Onde a mesma política inglesa de supressão do curso nacionalista da
independência ainda no período pré-positivista não obteve resultado,
como no Paraguai de Solano Lopes, o desenvolvimento interno foi obtido, mas
sustado a posteriori pela guerra - ver sobre a documentação da intervenção
governamental-diplomática inglesa, a pedido da classe industrial-comercial
inglesa, Leon Pommer ("Paraguai: nossa guerra contra esse soldado").
Uma "guerra da secessão" que eliminasse a plantation em prol do
desenvolvimento do mercado interno, como feita nos USA, tornou-se desde aí o
horizonte das políticas nacionais americano-latinas ou pós-coloniais em
geral, mas também o foco da repressão internacional imperialista, ao
contrário dos USA. Quanto a estes, após as duas guerras mundiais se tornaram o
principal promotor da mesma repressão.
Vemos assim que as mudanças do paradigma humanístico não alteraram o curso
bruto da história da dominação imperialista, porém, sim, os meios pelos quais a
história exibe segmentações internas como mudanças nas políticas adotadas como
formas de penetração "capitalística".
O trabalho de campo pós-positivista exibiu seus resultados
surpreendentes como um trunfo da pesquisa empírica, antes não cogitada, porém
de fato hoje nós podemos ver que pressupostos teóricos foram quase que
imediatamente envolvidos na interpretação dos dados. Os
quais atuavam como modificações de premissas herdadas do período anterior,
à luz dos novos conhecimentos adquiridos, ao invés de serem
ideias realmente novas relacionadas apenas a eles enquanto descobertas
puramente empíricas.
Aqui o papel da renovação sociológica ocorrendo na mesma época é importante,
entre Weber, Dukheim, Simmel, Tönnies e outros, o que induz à ambivalência das
origens. Ela focalizava não mais uma definição da ordem social concebida como
já dada, mas as ações de sentido de que resultavam os tecidos de
interações de papeis em termos de "sociedades". A sociologia passou a
ser definida, desde aí, não como "ciência da sociedade" ou da
"ordem social", mas sim preferencialmente como "ciência das
relações sociais".
Além disso, atuava um terceiro fator, relativo às próprias condições da nova
metodologia, a pesquisa de campo. Ela atendia a necessidades geopolíticas
conspícuas, servindo de referencial informativo às políticas dos
governos europeus envolvidos com a operação neocolonialista, de anexação
pura e simples das economias e territórios nacionais ou tribais
afro-asiáticos. É compreensível que o que possa ter sido testemunhado em
termos de mudança, heterogeneidade ou conflitos internos a essas sociedades
fosse simplesmente homogeneizado para que elas parecessem conceituáveis
como unidades domináveis. Além disso, elas já estavam predispostas, pelo
parâmetro anterior que não foi desafiado nesse ponto capital, como todas
igualmente não-desenvolvidas (posto que não-industrializadas).
Assim a necessidade inconsciente da homogeneização e caracterização unívoca
como primitivas podia ser servida não obstante tratarem-se de sociedades
irredutíveis umas às outras e ter sido essa irredutibilidade a grande
descoberta da própria pesquisa de campo. Tornou-se portanto igualmente
útil à causa da homogeneização o fato do que se descobrira de tão
novo ser justamente essa irredutibilidade, não escalonável numa linha
cujos pontos expressariam a intercessão antes julgada necessária de
estágio técnico e instituições sociais (tipos de família, ritual,
mentalidade e artes). O que resultou, já o vimos, foi o conceito de cada
sociedade como totalidade social absolutamente homogênea e se conflito, isto é,
meio de certas ações interagentes, e não de outras ações quaisquer, porém
tendendo a um limite comum às demais sociedades como meios de outras ações
"civilizadas". Nesse limite dos tipos de ação possíveis,
consistindo os status primitivo ou civilizado.
Esse mesmo limite e conceito de totalidade de ações possíveis estava orientando
a psicologia, clivada entre a criança e o adulto. O status de totalidade
civilizada, com ações exclusivas (racionais) tornou-se pois homólogo ao diagnóstico
médico de um adulto normal capaz das ações interagentes esperáveis em seu
campo social. O oposto do adulto/civilizado
(moderno-ocidental/industrial) não é a pura negatividade da falta de
razão, mas sim um tipo de intelecção imaginária, mito-poética e infantil do
mundo. Não é o imprevisível da des-razão qualquer, mas o
sintomático de um definido estágio pré-lógico da intelecção.
Assim o que não há de modo algum é a ausência da totalidade. Apenas, antes
da completude racional, a totalidade é cindida pelas funções que
perdeu na neurose ou psicose, ou que ainda não desenvolveu, na infância ou na
sociedade primitiva. Totalidade menor, sem um certo número
de capacidades, porém um todo consequente da própria limitação
da qual se seguem tipos de ação catalogadas pela ciência, classificadas e
esperáveis como sintomas de modos de um ser potencial e/ou
atualmente em evolução.
A ambiguidade entre a Gestalt como leis invariáveis da percepção,
indiferentes às prerrogativas unilaterais do percebedor e do dado, e a evolução
psíquica, não é um obstáculo à auto-compreensão evolutiva da psicologia, como
se pode verificar em Wallon. Os conceitos de sub-conscientes ou, como em Freud,
de inconsciente, doravante pretenderam definir as instâncias que vão sendo
acrescidas ao longo da formação infantil. É sinônimo da personalidade
infantil, do passado ("arcaico") psíquico. O
resultado evolutivo em termos da normalidade do adulto é o ego, a
capacidade de autoconsciência como individualidade ao mesmo tempo interagente
com os demais também apreendidos como indivíduos em
si.
A razão pela qual neurose e psicose ocorrem é mais simples explicar, pelo
tratamento indevido, inadaptação ou deficiência cerebral, dos quais
se segue o retorno do "arcaico" - isso que define algo como
monstruoso ou atemorizante - do que o motivo pelo qual teria de haver
sociedades inteiras de mutilados psíquicos ou primitivos. Esse problema nunca
se apresentou como tal no pós-positivismo funcionalista, uma vez que a
existência mesma da ciência ocidental era a resposta, se ela pudesse ter
um história própria que singularizasse num todo a trajetória da
razão. Vemos aqui um exemplo de modificação "humanística", pela
cultura, do que antes era explicado pelo racismo "positivista"
em termos só de técnica.
Essa trajetória, já o vimos, já não podendo ser apenas o resultado do
progresso técno-racial, era agora reinterpretada como totalidade da
história de cada "raça". E a história era o que se permitia
desenvolver desde o todo intrínseco da "tradição", a
cultura como "visão de mundo" da sociedade considerada. Assim na
Europa a tradição, como história intrínseca ou cultura de toda sociedade
na mesmidade do mito, se tornara História na acepção do desenvolvimento
possível, ruptura do mito na entrada da civilização, esta em que já só subsiste
o devir Histórico-progressivo, não a mesmidade do
mito.
Na Europa, a trajetória cultural era singular porém, relativamente a todas as
tradições limitadas pelo mito. Era a que que se
desenvolvia desde que do pensar mítico, ordinário de todo homem, na
Grécia antiga a humanidade saltou ao pensar ontológico
("filosófico"), a autonomia do saber como algo a ser
definido como ação determinada, e questionado em suas possibilidades
relativamente às suas
pretensões.
Em Heidegger, que partiu como todos dessa singularidade grega, a
totalidade vai ser tratada no campo maior do Homem enquanto ser pensante.
Só a partir dessa empreitada heideggeriana supera-se a ambiguidade da
explicação funcionalista, ao mesmo tempo um biologismo organicista e uma recusa
do positivismo pela conquista da autonomia nas humanities histórico-culturais
("tradicionais"). O percurso dessa autonomia científico-humanística
desde então estará relacionado ao "existencialismo" como
horizonte privilegiado de sua integração. Do outro lado ficará o
"neopositivismo", adaptando o cientificismo técno-industrial ao
novo ambiente mendeliano e relativístico. O círculo de Viena, o neopositivismo,
se expressará porém, justamente, em termos de "visão de mundo
científica".
A totalidade, em Heidegger, é deslocada como termo pelo Dasein ou
existência, a possibilidade do pensamento enquanto a declinação do Ser, a
atribuições de significados possíveis num campo de
experiências dotados da validez da cultura como do mito, e não a
princípio da ciência. Pelo contrário, a esta é preciso ainda explicar no bojo
da trajetória europeia, em termos de como, desde um horizonte de tradição
mítica, nesse caso o epos homérico, pôde veio a coalescer a ontologia como a
reflexão, explicitada na linguagem do conceito filosófico, da atribuição
ontológica - de algo "como" algo, de uma atribuição de algo Ser.
O que quer que tenha sido tão singular a essa tradição grega que o
houvesse unicamente permitido, o que se possibilitou foi o vislumbre do
estatuto do problemático, do questionável e do dubitável, ao contrário de
qualquer saber positivo específico que o mito pudesse ter sedimentado. Foi
quando surgiu a pergunta sobre a validez da atribuição de algo Ser, quando o
pensamento cuidou daquilo que não é como do fracasso a atribuição de algo Ser,
quando, pois, o mito mesmo foi como que colocado entre parêntesis quanto à
solidez de sua crença, que o caráter do ser pensante se tornou ele mesmo
o substrato do pensável. Ora, Heidegger vê nesse hiato escavado pela
dúvida, como pela hesitação diante de muitos caminhos, para uma Grécia lançada
ao expansionismo marítimo comercial, uma filosofia primeira que não é a
"prima philosophia" na acepção consagrada desde o nascimento da
metafísica, uns trezentos anos depois da origem.
Aquela filosofia originária, sendo também primeira na acepção cronológica
do termo, na interpretação de Heidegger apenas reproduz fielmente o enunciado
antropológico-filosófico do funcionalismo. O "Ser" não é como
na mutação metafísica efetivada desde Platão pupilo de Sócrates, um
enunciado de certitude invariável quanto à substância do atributo, de modo
que possa ser inteiramente descartado como episteme (ciência) da
multiplicidade variável da doxa (opinião). Mas, pelo contrário, se
ele encerra algo invariável como a totalidade ou estrutura da
"referência", pela qual sempre algo é atribuível, a substância é
apenas a possibilidade do Ser na cultura como o limite da clareira
(lichtung) para além do qual ocorre a sua ocultação ou
obscurecimento (dichtung), limite somente além do qual se vislumbraria outro
foco, outra cultura. O obscurecimento não é nada além dessa alteridade
inantecipável. Uma língua é um limite, a visão de mundo pela qual algo
pode vir a "ser".
Nisso podemos conjectuar sobre os motivos desse ambiente pós-positivista
não ter sido expressamente neohegeliano, mas sim neokantiano, não obstante
ter sido Hegel, ao inverso de Kant, o pensador
da irredutibilidade cultural. O Brasil traduz essa
curiosidade, já que o hegelianismo aqui foi introduzido como
pós-positivismo, na Escola do Recife de Tobias Barreto, para
quem "espécie humana" é palavra vazia, conceito
abstrato fora da circunscrição de uma cultura histórica determinada.
Tobias antecede assim o "modernismo", este a tradução brasileira
do funcionalismo.
O motivo do neokantismo ter sido a expressão inicial do funcionalismo na
Europa de inícios do século XX, é que já não seria possível uma
derivação dialética do processo histórico-evolutivo, como
passagem direta de um tipo a outro de sociedade, seguindo-se uma linha
contínua de aproximação ao "progresso" do Estado
constituído. A totalidade social, independente do limite dicotômico de
primitivo e civilizado, não é recuperável numa linha ascendente também por
esse lado do puramente cultural. Já a transposição do transcendental
kantiano a um universo simbólico próprio, como filosofia das formas
simbólicas, adapta-se ao requisito da
totalidade.
Mas
se Heidegger, como o existencialismo, é a afirmação original
filosófico-metódica do pós-positivismo, superando assim o interregno
transitório servido apenas, como em Weber, pelo biologismo da função
embutido no neokantismo, podemos constatar uma sua primeira ambiguidade
metódica, traduzindo o problema real do funcionalismo.
Pelo exposto da filosofia heideggeriana até aqui, deveríamos poder
deduzir que se o primitivo pudesse refletir sobre si mesmo enquanto ser que
"pensa" ainda que na limitação do mito, logo, que atribui segundo uma
invariância determinados significados a determinados fenômenos, ele se tornaria
um "pré-socrático" grego. Porém a totalidade do Dasein só é
atribuível a uma cultura antes dela se tornar autoconsciente.
A ambiguidade é expressa pelo modo como Heidegger trata os primeiros filósofos,
habitualmente designados pré-socráticos, ora como portando uma filosofia de
todo independente da metafísica futura, de modo que esta surge como aberração e
mutante nesse sentido genético; ora como o que porta os germens desse futuro,
de modo que ele emerge como o corolário previsível de uma
História do Ser, um novo lance necessário de sua ocultação. Esse
segundo modo é coerente com o fato de que Heidegger não traduz de modo
algum a multiplicidade do atribuível em termos de doxa. Como vimos, ele a
interpreta em termos de Dasein, modos de existência como
ordens categoriais embora relativas a um entorno sócio-cultural
determinado.
A oposição que podemos resgatar de um exame do pensamento heideggeriano
entre doxa heterogênea e Dasein unívoco, é inteiramente
coerente não com o pensamento pré-socrático, mas sim com a oposição
platônica de doxa e episteme. A História do Ser conforme Heidegger,
vai explicitar justamente como a filosofia desemboca na ciência
moderna, autonomizada relativamente a si. O ponto da mutação é a tradução cartesiana,
fundando a modernidade, da objetividade como
função da subjetividade - subsumindo, pois, a esta na informação da
coisa dominada na oposição a si, nada mais restando de qualquer
independência do Ser relativamente ao ser invariável da coisa atribuível como
tal na ciência.
A
ambiguidade pode também ser vista nisso pelo que deveríamos supor, na via
da originareidade do filosofar pré-socrático, que ela expressa o ser relativo
da cultura. Ao mesmo tempo absoluto, Dasein totalizante, mas
limitado, relativo só a si mesmo, não abrangendo invariância ontológica como
universal metafísico. Ela expressa a cultura pré-científica, já
o vimos. Então quando se trata dessa cultura pré-grega, a estrutura da
referência deveria restar intacta, ainda que insabida. A atribuição se
seguiria como a coerência da totalidade do mito, de modo inteiramente análogo à
atribuição que se segue da totalidade da ciência na modernidade. Porém não é o
que acontece. Assim como Malinowski, Heidegger, em Ser e Tempo, postula
a magia como estrutura referencial da sociedade primitiva (não-grega), em
termos de uma estrutura de referencia ainda incompleta.
É o que Ogden e Richard ("The meaning of the
meaning") ilustram com seu famoso triângulo, em que as duas bases
interligadas por linha pontilhada situam o termo e o objeto, mas
ambos ligados por linha cheia à ponta do triângulo onde está situada a
referência. Expressando assim que com um termo nós não visamos
diretamente um objeto, mas sim que localizamos o objeto conforme o ato
de referenciar de que se trata. O significado não precisa ser
explicado além desse ato, além da "referência", pois não é uma
relação invariante da palavra com a coisa nem algo portado pela coisa.
Já a magia, como Malinowski mesmo apresenta num artigo registrado no citado
livro de Ogden e Richards, é a estrutura incompleta da mente
primitiva. É estrutura incompleta do pensamento arcaico, que ainda
não apresenta a ponta do triângulo. Sendo apenas capaz de estabelecer ligações
entre o termo e o objeto, não compreende que o nome não é a coisa ou a pessoa e
por isso imagina que pode manipular a estas se está de posse daquele.
Malinowski se esmera em demonstrar que isso não impede a sociedade ou a língua
primitiva de ser tremendamente impactante na sua simplicidade descritiva da
vividez dos fenômenos - como na expressão "navegamos/ canoa à
frente" para informar que "nossa canoa estava à frente das
outras naquela ocasião". Porém ela não é uma língua capaz de se elevar do
cotidiano à reflexão, e não há qualquer interesse intelectual manifesto
por um primitivo. A conversa dele se limita a impressões da
rotina e ao "disse-me-disse", conforme Malinowski.
Ora, em Heidegger, quando se trata da mutação metafísica naquele ponto da
História do Ser em que a mutação alcança a plenitude do que possibilita, a
autonomia da ciência, o lugar comum da filosofia heideggeriana é que a ilusão
da referência como significado atinge o máximo de sua potência.
A ilusão do universal que recalca a pluralidade das culturas como ordens
existenciais possíveis, atinge nesse ponto um caráter irreversível porque
a ciência não é um círculo, uma petição de princípio demonstrável como a
filosofia clássica, mas sim o mundo irrefutável da técnica, do que
funciona no cotidiano de toda uma sociedade que já não é apenas a
circunscrição de si mesma, mas sim o epicentro de um
processo planetário como "ocidentalização".
Continua porém sendo contornável a ilusão metafísica de um para-além da
cultura, pela redução ontológico-referencial da atribuição. Também na
ciência se trata de uma possibilidade do Ser. Se ela parece o contrário da
ontologia, se ela é a mera posição da cópula que enuncia uma ligação
puramente fenomênica, não assumindo qualquer responsabilidade além do
suposto visto e visível, e até mesmo não indo além do manifesto como
suposição, a possibilidade mesma dessa "emancipação" continua
impensada na ciência, porém é a priori enquanto tal. Um a priori do
Ser, uma possibilidade transcendental.
A maior ambiguidade incide aqui, a meu ver, porém, posto que aquilo que se está
negando na ciência é justamente que se trata de uma implicação totalizante
do Ser - além do uso gramatical da cópula, que traduz uma relação constatável,
porém nada além disso que se dirigisse à totalidade dos fenômenos.
Se o próprio neopositivismo expressou uma "visão de mundo"
científica, ele pode ser considerado como uma época histórica da epistemologia
que de fato não resume toda concepção de ciência possível. Em todo caso, a
contradição do neopositivismo é justamente ir além do limite do fazer da
ciência e dirigir-se à totalidade como o exigiria Heidegger, e como ele
também procedendo a partir de uma crítica cabal da metafísica. Não afirmando o
transcendental, porém sim a universalidade do objetivável, a crítica
neopositivista da metafísica reside em que nesta a universalidade foi sempre
mitificada como o avesso da experiência. A visão de mundo científica não
estabelece, pois, um mundo da significação, mas uma pluralidade de significados
constatados como recorrência de leis fenomênicas.
Independente da oposição de neopositivismo e existencialismo, o que estou
considerando como a crítica mais aguda ao Ser heideggeriano, é que ele se
dirige à ciência como totalizante e transcendental "aí", porém de
fato ela não é um "modo de ser" nem o pressupõe
na heterogeneidade das atribuições que constitui. Não há uma ciência da
ciência, a epistemologia mesmo, não sendo uma teoria da ciência
determinada, mas quaisquer que possam existir, é um ramo da filosofia. A
própria concepção neopositivista de ciência unificada pelo método, é
apenas uma epistemologia entre as demais possíveis.
Piaget, por exemplo, que se opõe ao existencialismo tanto quanto ao
neopositivismo, conserva a defesa do universal puramente objetivo da ciência,
que não predetermina porém os limites do que pode ou não ser científico. Se
existe um Ser também como ontologia da ciência, essa predeterminação teria que
ser necessária. E é por isso que, como vimos, o funcionalismo estabelece uma
hierarquia.
Ora, na Grécia antiga a denegação do Ser nesse status da totalidade foi
enunciada por Górgias no tratado do não-ser, assim como, por outro lado,
questionada na epoké cética de Pirro de Elis a Sexto Empírico. O
ponto importante da questão é nosso pensamento possível, e estes autores
antecipam o que a ciência moderna permite questionar em termos da necessidade
do pensamento atributivo enquanto a idealidade a priori do objeto.
Retornaremos agora à defesa de Heidegger por Derrida, quanto ao Ser enquanto
esse a priori transcendental ideal.
===========
Derrida, como Deleuze, operou a introdução do tempo na Teoria do Inconsciente,
a partir, respectivamente, de uma releitura de Freud que assimilaria o que
ele pensou mas sem aquilatar as consequências de todo, ou de uma
transformação da teoria freudiana do inconsciente energético-libidinal.
Tratou-se assim em todo caso com o pós-estruturalismo, da integração
da psicanálise na filosofia por um meio irredutível à simples leitura
desta como sintoma integrado na história da cultura. Irredutível
pois ao que já vinha fazendo Lacan.
Em ambos, Derrida e Deleuze, em comum é o fato da integração da teoria do
inconsciente na problemática filosófica, se fazer por meio da questão da
temporalidade. Também comum a eles é a genealogia em que podemos
inscrever a origem dessa problemática em sua forma contemporânea
específica, a temática do eterno retorno nietzschiano.
Em Derrida, tratando-se de releitura crítica de Freud, explicita-se
a relação da extemporaneidade do passado puro como noção implícita na
descoberta freudiana do recalque falhado (retorno do recalcado) como de um
efeito retardado ("nachträg") determinante do
funcionamento psíquico. A conexão filosófica se constitui, entre
o "Da Gramatologia" e "A Escritura e
a Diferença", com a crítica de Heidegger da
"presença". Entre Freud e Heidegger, Derrida instala o
desdobramento de sua própria teoria da escritura, esclarecendo Freud por
meio da crítica heideggeriana, em "Ser e Tempo", a qualquer
caráter de gênese que se pudesse atribuir ao presente, e ao tempo como
sucessividade simples.
Em Deleuze, especialmente em Diferença e Repetição, há aí - entre
Freud e Heidegger - antes uma oposição, inversamente a Derrida.
De modo que a relação apropriada à questão do tempo aberta pela
economia do nachsträg, que em Deleuze é explicitamente conduzida até
a origem em Nietzsche, de que em Derrida há apenas indícios, é com
Bérgson.
De fato, a meu ver Heidegger não supõe que a temporalidade, do mesmo modo
estruturalmente constitutiva da presença e sempre falseada como tal pela
metafísica do presente, seja "inadmissível para
a consciência", conforme a expressão de Derrida (Gramatologia,
São Paulo, USP/Perspectiva, 1973, p. 82).
Aqui Derrida está expondo o que seria a contradição de Saussure entre a
definição primeira da língua em função da fala, de modo que a
escrita é derivada e perniciosa para a compreensão da langue, e o ponto
em no mesmo Curso de Linguística Geral, a articulação como a faculdade
constitutiva da langue passa ao primeiro plano. E a articulação é entre a
redução da cadeia falada em sílabas, e a das cadeias das significações em
unidades significativas.
O aparelho vocal, a linguagem falada, deixa de ser "natural ao
homem", e o que se define desse modo agora é "a faculdade de
constituir uma língua, isto é, um sistema de signos" cuja diferença
corresponde à das ideias. Traduzindo este segundo Saussure, diverso do primeiro
puramente oral no mesmo Curso, Derrida define a articulação portando sobre
a diferença da cadeia gráfica-visual-espacial e a cadeia fônica-temporal, e ao
mesmo tempo sendo a própria diferença, que assim é a qualidade de uma experiência
psíquica temporalizadora. A fala é passiva, o tempo é o rastro de um passado
puro, cujo correlato não é um presente que preexiste por si, mas a ordem da
leitura da cadeia gráfica espacial. Essa temporalidade não fenomenológica é
então associada à nachträglich de que fala Freud.
Em
Ser e Tempo (Rio de Janeiro, Vozes, 1988) , Heidegger logo no início se opõe a
Bérgson, julgando-o comum a toda metafísica do "tempo vulgar", porque
para Bérgson uma crítica do conceito vulgar definiria a este como
espaço, o que o tempo real não seria. Heidegger situa, ao invés, o conceito
vulgar de tempo como o referencial construtivo das oposições: de tempo e
espaço; e de tempo e eternidade. Nesta segunda forma, a oposição se torna a
base da ontologia como metafísica, na medida que ela situa na temporalidade
todo o poder ser dos entes, e, acima deles somente, na eternidade, o sentido
como ideia ou ser em si. (p. 46)
Heidegger opera aqui uma interpretação notável, mostrando que se, por uma
precipitação ordinária, é que os entes foram situados metafisicamente no tempo,
por oposição ao ser eterno, então o tempo é o fator que delimitou, mesmo que
fora de si, a compreensão vulgar do ser como eternidade. A interpretação porém
deve transcender-se por uma concepção positiva acerca do modo pelo qual a
temporalidade é constitutiva na ontologia do eterno, e não apenas
privativamente, ao modo do externo a si.
Além disso, a concepção não-metafísica do tempo que se trata de estabelecer
como conveniente ao sentido da presença (Dasein) já não deve ser designada do
mesmo modo que na metafísica. Esta designa o caráter "temporal" dos
entes; à presença será adequado o termo "determinação temporária"
(Temporale), e, ao invés de Temporalidade (Zeitlichkeit), na determinação
temporária prometendo-se a "resposta concreta à questão sobre o sentido do
ser". (p. 47)
Assim sendo, Heidegger não seria o condutor apropriado para a integração
almejada de teoria do inconsciente e filosofia do tempo, e em se tratando dela,
Deleuze pareceria mais certo. Porém, Ser e Tempo realmente define a tarefa como
um todo, reestabelecendo os prolegômenos pós-kantianos a qualquer metafísica
futura. Qualquer que seja a resposta à questão - que só se poderia conceder
após minucioso exame dos constituintes da própria pergunta - é esta
sobre o sentido do Ser, e quanto a si mesma, como "investigação
ontológica concreta" ela deve "começar dentro do horizonte
liberado pelo tempo, com uma investigação sobre o sentido do
ser".
Temos assim um círculo manifesto - a resposta (o sentido do ser) só
esclarece a princípio o que deve iniciar o exame (com o sentido do
ser). Mas de fato o sentido da resposta deverá ser a depuração relativamente ao
desvirtuamento do sentido que subjaz à possibilidade mesma de se estar ainda
precisando perguntar. O exame pelo qual se começa é o da ontologia tradicional,
para discernir nela o desvirtuamento "metafísico" que impede até hoje
alcançar a verdadeira ontologia, a revelação do sentido concreto.
Ora, se Derrida optou por Heidegger, como pela instância enunciadora da
questão, vimos que ele conserva a oposição tempo/espaço como essencial para que
a diferença se conceitue como articulação em termos de "síntese
temporalizadora, permitindo às diferenças aparecer numa cadeia de
significações". (Gramatologia, p. 81) O conceito de articulação, contudo,
também pode ser lido como o que seleciona os elementos em caráter opositivo. Em
Derrida, essa reversibilidade é a base do pensamento, que se realiza como máquina.
É Freud, então, que para pensar a atividade inconsciente da seleção de traços
mnésicos, vai servir a Derrida para explicar a operação maquínica constitutiva
do tempo puro ou passado absoluto, o próprio inconsciente.
Em Heidegger também se pode considerar que é a interdependência de tempo e
espaço que pertence ao modo de ser próprio da presença, liberta do
desvirtuamento da ontologia tradicional. Mas assim como Freud, ele de fato não
pensa em termos de máquina. Freud se expressa em termos de instinto,
enquanto Heidegger pensa o comportamento da presença enquanto
existencial, modo de existência.
O espaço conforme Heidegger é a arrumação que a presença faz para si,
direcionando-se, o tempo assinala a irrupção da decisão em que alguém
se define numa história a partir da angústia como consciência da finitude
própria do "ser para a morte".
Aqui a finitude, o tempo como finitude a partir porém de um passado
absoluto como proveniência orientadora da presença, mantem com Derrida em comum
apenas a noção de que numa decisão do que é apaga-se a possibilidade dos
alternativos poder-ser, a presença se determina. Assim também
Derrida interpreta a seleção do traço mnésico inconsciente freudiano, a
partir do qual apaga-se a possibilidade da recepção de dados
perceptivos que não encontram "facilitação" (bahnung) na mente.
Mas o tempo heideggeriano da finitude
não é a
descoberta do não-intencional, do inanimado, determinante entretanto no
interior de si mesmo, como em Derrida é a concepção da máquina, o sistema de
signos (escritura), nesse caso aplicando-se também porque na decisão o conteúdo
decidido é de fato exterior ao ser da preseça, lhe é
preexistente, já inscrito como possibilidade da história/texto.
E Derrida expressa a irredutibilidade, afirmando que suas aproximações de
Freud e Heidegger na realidade os ultrapassa nesse rumo da "escrita
psíquica" como releitura do "inconsciente" freudiano
mas na terminologia da articulação ou "diferência". Esta não os
ultrapassa sem fundi-los num só enunciado, o diferir do retardo
presentificador da presença para quem o presente resta post-scriptum,
efeito do retardo ou retorno do recalcado, codicilo. Mas assim as bases
para pensar a articulação diferidora, são para Derrida, ainda, estes
dois pensadores que estabeleceram em seu ofício de disruptores ou críticos
da metafísica.
Resta saber porque, conforme Derrida, eles teriam ficado ainda presos nos
limites metafísicos da oposição fundamental homem/máquina. A resposta de
Derrida para essa pergunta é o que a meu ver compromete todo o seu
procedimento.
Se considerarmos o exemplo princeps do nachträg na démarche freudiana, a
irredutibilidade do pensamento psicanalítico à concepção maquínica ou mesmo
puramente escritural fica evidente, assim como já o notamos em Heidegger.
Trata-se da análise do "homem dos lobos".
O rapaz que está em terapia com Freud, lembra-se de um sonho que
tivera na infância, e que então muito o impressionara, o sonho com os
lobos. A terapia o conduz depois a uma lembrança ainda mais
antiga. Por volta de um ano e meio o bebê testemunhou o coito
dos pais, que não cuidavam de que um bebezinho pudesse apreender
de qualquer modo o que via. Ora, o pai possuía a mãe deitada de
bruços - o que induziu à interpretação posterior da criança, do coito
como penetração anal.
Mais tarde, quando o menino já bem crescido iniciou sua
pesquisa sexual - quando a criança começa a se interessar sobre como os
bebês nascem, assim como sobre o sentido do seu sexo - o
enfrentamento da descoberta usual de que o sexo da mãe não é igual ao do
pai (a mãe é "castrada", isto é, tem vagina), foi impedido na mente
dele por uma série de circunstâncias repressivas presentes. As quais não
teriam, porém, tido a força que tiveram na detenção do processo psíquico do
menino, não fosse sua mente poder apoiar na lembrança da cena do coito dos pais
a resistência à aquiescer com a verdade descoberta da penetração genital.
O menino, assim, ficou fixado neuroticamente na fase "anal" ao invés
da maturidade "genital", ou seja, na fase em que as crianças pensam
que os bebês nascem pelo ânus, e que a relação sexual é anal, assim como a
excitação que elas sentem é anal, ligada a comportamentos autoritários,
sádicos, que não admitem diferenças senão como o transgressivo.
Poder-se-ia objetar que conforme a interpretação de Freud,
a cena do coito dos pais foi ou se tornou determinante não porque
algo x foi visto, mas sim porque o menino se identificou com a mãe, desejando
como ela ser possuído pelo pai. Assim, quando se tratou dele se conformar ao
papel sexual masculino, o desejo retornou como pressão insuportável do dilema
pelo qual conformar-se ao papel seria conformar-se à lei do desejo (presente),
mas seu desejo - articulado no "passado" puro, na cena -
implicaria ser como a mãe, e, assim, ser castrado.
Mesmo essa objeção, porém, teria que equacionar o fato de que o dilema só
ocorre porque a situação presente da pesquisa sexual do menino não foi
favorecida pelas relações familiares, com a criada, a irmã, o pai, etc. A
"repetição" - o tema propriamente filosófico aqui - não é originária
como causalidade psíquica. O determinante não é único, é a conjunção dos
fatores num devir factual, ao menos conforme o que nos apresenta
Freud, ainda que conjugado aos determinantes psíquicos. O conteúdo
da cena devia ser recalcado, pertencendo propriamente ao sistema
ics (inconsciente) e não ao sistema cs (consciência). A diferença é
entre objetos produzidos e situados nos sistemas, não entre
instâncias do tempo.
O próprio Freud situa os objetos inconsciente fora da temporalidade, e,
assim, o retorno do recalcado é sintoma, algo anômalo - simulacro de
lembrança do que não foi feito para lembrar - o que ameaça
o funcionamento psíquico, não o que faculta que funcione. A cura
está na terapia que transforma o simulacro numa interpretação coerente,
reconstituindo-se a lembrança, porém, como sabemos, não porque o saber é o
preponderante, mas porque nesse processo há a transferência - o reviver do
afeto inconsciente com o analista, para desse modo voltar a ser corretamente
"recalcado" (esquecido).
Vemos então que a relação do passado com o presente, em termos de "só
depois" como característica do efeito de retardo do recalque,
conquanto um dos fatores determinantes no que ocorre, não parece que na mente
de Freud instaurou-se como descontinuidade absoluta do tempo em si. Lacan,
seguindo Freud, minimizou a importância das "fases" (oral, anal)
até a maturação genital, para colocar como determinante do inconsciente a
destinação de si como inacessível ao sistema consciente - o que define-se como
a própria maturidade psíquica, após a "castração" da mãe.
Aqui o importante é o motivo freudiano da puberdade como o locus em que a
castração vai afinal produzir seus frutos em termos de assunção atuante do
papel sexual masculino ou feminino. Pela razão evidente de que é só quando
realmente pode ocorrer atividade sexual "genital". Lacan interpreta
filosoficamente Freud no sentido da objetividade científica como o que decorre
em termos de capacidade psíquica do status "genital". Assim, desde o
início a mente está orientada para este resultado, ainda que ela não tivesse
antes os fatores necessários.
Para Derrida, o diferimento do tempo, interpretado como a descoberta
freudiana, mais se ilustra pelo intervalo da castração à puberdade, o
cerne sendo o efeito de retardo do recalque. Ora, a própria
noção derridiana de um "passado" puro depende da sucessividade
temporal que pretende estar refutando como à mera aparência explicável
como efeito e não causa.
Para Freud é nítido que a cena primária não se erige como
de um outro-tempo, um passado que tivesse uma qualificação por si
mesmo, mas sim de um outro-conteúdo, o qual destinava-se a ser recalcado,
e cujo retorno só ocorre como recurso num vir a ser presente desesperador,
intensamente vivido e de modo algum "codicilo". Ou seja, Freud situou
a vida psíquica em seu presente. É por isso que ele definiu o
inconsciente em caráter intemporal, não apenas para expressar que não se trata
aí de um tempo sucessivo relativamente ao presente vivo.
Assim como Heidegger, e é significativo que ambos tenham uma origem comum na
transição ao século XX, Freud não parece lidar com algo de cujo
alcance ele mesmo não se aperceba, numa decalagem completa "entre a
intuição e o conceito" conforme pensa Derrida (A escritura e a
diferença, São Paulo, Usp/Perspectiva, 2011, p. 315). Não diz o que não quis
jamais dizer. Pelo contrário, está radicalmente interessado em mostrar porque
não se pode reduzir a mente ao mecanicismo - ainda que para ambos a ameaça seja
a redução behaviorista e empirista do comportamento à adaptação ao
meio, em todo caso a algo de externo.
Há mais alguém a quem Derrida tratou do mesmo modo que a ambos, Freud
e Heidegger - Rousseau. Para Derrida, a resposta à indagação sobre porque
estes pensadores enunciam a "escritura" maquínica, mas não a
conceituam, e, pelo contrário, enunciam apenas que estão fugindo dela
como à hipótese degenerativa, é a episteme, a forma mesma da ciência, a
princípio "filosofia", em que se orientaram ainda. Ora, o problema
dessa metafísica, de que eles foram os críticos ou os disruptores porém
não radicalmente o bastante, não é um desvio acidental, para Derrida.
A metafísica, a seu ver, como todo fenômeno psicossocial, é o efeito
estrutural de um tipo de escritura. Nesse caso, a escrita fonética.
Especialmente Rousseau e Freud até mesmo o explicitaram, ao situar a escrita
fonética nos antípodas do caráter "originário", o que em Heidegger
recobre o sentido de "existencial", e localizar na pictografia e nos
hieróglifos a metáfora da escrita da alma, como do sonho. Com a condição
de se produzirem como uma gramática do sonhador, não preexistente, ainda
que relacionada à sua linguagem corrente.
Porém para Derrida, eles o fazem não para descerrar a originareidade
transferida, da alma para o sistema simbólico, e localizar neste, na
sua variação possível, a razão dos efeitos diferenciais que
descrevem: a liberdade originária e a coação despótica do privilégio
(Rousseau); a importância primordial dos sonhos como da afetividade
sexuada e a ilusão da consciência lógica
autossuficiente (Freud). Como vimos, para Derrida eles falam
sem querer dizer o que de fato dizem. Porque são pensadores, não podem trair o
objeto, ainda que não divisem os próprios limites do meio-linguagem que os
constitui.
Mas assim temos uma contradição derridiana notável, entre duas premissas
estruturais: a) a escrita fonética é a única científica, na medida em que é a
única que permite a ilusão logocêntrica que se atualiza na origem (platônica)
da filosofia, como ilusão da independência do significado relativamente à
operação significante, assim como da voz à escrita; b) a diferência é a
escrita em geral, ontológica, e sem diferença relativamente aos sistemas de
escrita, fonéticos ou não, notacionais ou meramente grafismos, que são apenas
variações suas.
Nessa contradição, pois, há e não há uma diferença essencial que nomeia a
escrita fonética. Em todo caso, esta define a evolução
psíquica da qual emergiu a episteme, e somente da qual poderia ela
emergir. Mas assim a episteme-ciência é a ilusão, poder-se-ia
replicar, e Derrida completa a obra anti-metafísica iniciada em Rousseau,
conforme o próprio Derrida parece compreender. Porém ele mesmo está afirmando
que essa ilusão é a condição de possibilidade do descerramento da realidade.
Similarmente a Heidegger, que procede a questão do ser como pergunta que só
pode ter vindo a ser porque houve o desvirtuamento da metafísica como uma
primeira resposta, colocada pela própria metafísica como a vez primeira dessa
pergunta, na Grécia e em nenhuma outra parte. A pergunta se faz num
presente como clamor da cura da cegueira procedida da metafísica, porém a cura
só se torna viável pelo esclarecimento da presença para si mesma como
proveniência da pergunta, e não como falta de coisas ou como necessidade de
novos recursos técnicos.
Derrida situa, pois, a escritura, nesse lugar que Heidegger concedera à
presença como dissimulação, como o que pode ser desvirtuado e impropriamente
autodeterminado pela vulgaridade como pela metafísica. Mas o
que subjaz a ambos, sendo a noção de uma mutação fundamental na história
que ao mesmo tempo é a doença e a cura conceituada porém como algo mais do que
apenas a reparação de um estado perturbado. Como a consecução de uma evolução
em curso, tal que a doença já não conserva o mesmo sentido de contrariedade ao
ser. As consequências da projeção perturbadora
dessa premissa na teoria do inconsciente freudiano requerem uma
aproximação minuciosa, que deve nos informar sobre o que, na teoria, a tornaria
meramente possível.
============
A
meu ver, é plenamente afirmável que a lógica psicanalítica é a duplicidade do
primitivo e do civilizado. Entre ambos, aquilo que Freud nomeia
"recalque" parece uma descoberta sem precedentes apenas quando se
considera a história da psicologia sem relacioná-la ao intertexto da história
das ciências com que se relaciona.
Freud mesmo orientou o descarte, reclamando na autobiografia que seu conceito
analítico nada devia a leituras filosóficas, e que, por outro lado, nas
ciências sociais fora ele o iniciador de um método, aquele que se sistematizou
através de Roheim. Contudo essa asserção pode ser contestada.
Não seria razoável pensar que Freud fosse ignorante do primeiro conceito de
inconsciente, o romântico, em que os fenômenos de desdobramento de
personalidade, hipnotismo e formas de relacionamento afetivo singulares foram
tematizados, os mesmos fenômenos pelos quais a psicopatologia nascente se
interessava agora como seu objeto. Entre ambos, o romanticismo e o
nascimento da psicopatologia, houve o corte abrupto do positivismo que temporariamente
suspendeu o interesse propriamente psicológico da problemática da morbidez
psíquica.
Mas sobretudo, podemos notar que Freud não era tão ignorante quanto quis fazer
parecer, quando ele afirma
em "O Inconsciente", que "o inconsciente
pode ser comparado a uma população aborígine da psique". Freud
testemunha aí sua dívida para com a antropologia da qual ele se utilizou
para modelar a sua convicção formal de que "no ser humano existem
formações psíquicas herdadas", de modo que onde o processo individual
não conta com instrução direta da experiência, preenche a lacuna com esquemas
filogenéticos preexistentes na história da espécie. A repetição
filogenética na ontogênese, como se sabe, é uma hipótese biológica
conduzida no estudo da embriologia (o desenvolvimento do feto como réplica
da evolução animal). Em "O homem dos
lobos" Freud desenvolve também essa ideia.
Os
esquemas filogenéticos do inconsciente freudiano, porém, não sendo
biológicos e sim psíquicos enquanto culturais, só podem ser fornecidos
para conhecimento clínico pela antropologia, está claro, ainda que em tese o
conhecimento clínico do inconsciente pudesse esclarecer a razão profunda do que
é assim recenseado na cultura. Em "Psicologia das massas", Freud
se expressa como se a relação com os pais fosse atualização e revivescência da
relação originária com o líder da horda primitiva - suposta realidade
antropológica. Este conceito que ele expressamente hauriu de
Darwin, e que aplicou como a base do raciocínio que desenvolve em Totem e Tabu,
texto que de resto não poderia ter sido produzido sem o concurso da ampla
informação antropológica que ele mesmo registra.
A tese da explicação psicanalítica da cultura obviamente pressupõe algo mais do
que apenas a entrada de dados empíricos sem ordenação intrínseca, vindos da
ciência social e do darwinismo. Supõe a articulação meta-teórica da ciência
social europeia, como cisão do primitivo e do civilizado, assim como da
restrição radical das capacidades coletivo-instintivas e ego-lógicas.
Da qual
se segue a premissa de que é tarefa da ciência localizar o referencial da
ruptura e defini-lo em termos de fator determinante do
"desenvolvimento"
(psicossocial).
A origem dessa articulação meta-teórica é a "teoria política" de
Locke a Rousseau, que surgiu devido à descoberta das Américas,
"teoria" da qual procede a noção de "primitivo".
Vemos que o que "articula"
a oposição é o desejo europeu de se auto-delimitar como realidade
evoluída. Porém até Darwin, o primitivo americano era pensado como ser
individual pré-social ou, no romantismo, socializado mas como
indivíduo e primitivamente não consciente da politização (legalidade como
cisão público-privado). Desde Darwin e o positivismo, assume-se pelo contrário
que a origem é o primitivo coletivo, sem consciência de si individualizada. O
horizonte de visibilidade se deslocou nesse ínterim da América, primeiro às
questões do mito "indo-europeu" (ariano), mas logo
depois à África do neocolonialismo. E realmente a sociedade
tribal americana mais simples primeiro descoberta exibe
ausência de hierarquia, ao contrário da africana mais simples invadida
depois pelo neocolonialismo. Se ao invés da primeira descoberta ter sido a das
Américas, fosse a da África, a Europa não teria pensamento político liberal na
forma existente. E o que vemos como o nexo da antropologia com o nascimento da
psicopatologia no neocolonialismo, não está pois liberalmente orientado.
A articulação meta-teórica desde o início , na "teoria política" de
Locke a Roussea, se instaura imbricado à problemática política da legitimação
do regime desenvolvido conforme à natureza humana, numa Europa que
está se transformando sócio-economicamente devido a suas relações
expansionistas com o terceiro mundo dominado pelo capitalismo.
O esquema que exige a definição do cenário histórico e fator determinante da
ruptura para com a condição suposta primitiva, ruptura que inicia a
trajetória da civilização até o presente da ciência inteiramente legitimadora
do regime político-legal, abrange pois a trajetória como o interregno de
um desvio da condição de autenticidade originária. Até a legitimação
científica de um regime que restaura a autenticidade porém na consciência do sistema
social e não apenas na espontaneidade primitiva incapaz de evitar o
desvio.
A ruptura foi ao mesmo tempo necessária e insuficiente, determinada
pela natureza da saúde plena a que deve conduzir mas incapaz de aceder a
ele por princípio, e, pelo contrário, falseando a sua essência,
etc. A articulação meta-teórica tem o caráter de um sintoma, a meu ver.
Derrida o exemplifica - denuncia-a nos outros mas não escapa a ele, por si.
Mesmo que fosse apenas pela entrada dos dados empíricos, quanto a Freud já se
poderia questionar sua asserção de nada dever às ciências humanas. A
psicanálise não seria o que é sem o conhecimentos dos dados assim como
ordenados pela articulação. Por exemplo, também em O Inconsciente, o
"animismo primitivo" é a cena em que Freud declara estar
decodificando "os processos anímicos em si como inconscientes." Mas
assim podemos notar que a hipótese de trabalho mesma é importada da ciência
social, qual seja, a existência da divisão primitivo-civilizado, definida de modo
que a ausência da autoconsciência individualizada do primeiro modo funciona
como a chave da assimilação dele ao sistema inconsciente por Freud. E, por
extensão, à fase do desenvolvimento psíquico em que é este o sistema que
predomina na experiência, o que é o caso na infância.
Freud não foi o único. Toda a psicopatologia nascente, e por longo tempo,
procedeu a partir da mesma hipótese sócio-evolutiva, apenas tratando de outro
modo a natureza da fase pré-egológica, relativamente à libido freudiana e sua
história, do Édipo e da "castração".
Derrida
começa sua leitura de Freud, em "A escritura e a diferença"
("Freud e a cena da escritura"), inversamente à nossa demonstração,
aceitando que a psicanálise dificilmente "se deixa conter" no limite
"logocêntrico" em que supõe ele estarem contidos as ciências
humanas, e, especialmente, a linguística. A questão de Derrida aí é a
sua conhecida crítica ao modelo fônico da língua, aquele que ficou
consagrado como o do primeiro Saussure não obstante a contradição que
acima consideramos, e que seria para Derrida definidora da
"clausura" como que ideológica do discurso da ciência
presa à ilusão metafísica do "Homem".
A originalidade de Freud, Derrida vai situar, pois, no fato da
psicanálise utilizar em sua relação com a linguagem não o fonologismo, mas o
modelo gráfico, ao pensar o inconsciente em termos de código funcionando à
maneira das escritas assim chamadas não-lineares, metonimizadas na
hieroglífica. Derrida institui aí, porém, apenas o manejo de uma metáfora.
Ele reconhece que Freud utiliza metáforas, mas não pensa que elas sejam figuras
para expressar algo conhecido como "escritura" ou
"grafia", e sim porque não tinha Freud recurso algum para
designar essa escrita pura, cujo conceito não se subssume ao secundário serviço
da palavra oral.
Assim, para Derrida, a metáfora em Freud subverte a representação conceitual da
língua, a psicanálise expõem-se como operação da grafia metafórica que
ela mesma situa na originareidade do inconsciente que cria assim como seu
objeto, ao invés de expor algo que já antes fosse representável no mundo.
Vemos que de fato há aqui, ao contrário do suposto por
Derrida, uma cumplicidade freudiana da escrita gráfica com o pressuposto
antropológico de sua irredutibilidade dicotômica e fundamental à escrita
fonética representativa da palavra consciente. O pensamento derridiano
procede o mesmo gesto que consiste no retrocesso ao primitivo como ao
originário que parte não da psicanálise mas antes, da antropologia, com os
mesmo efeito da maior ambiguidade quanto ao uso dos qualificativos de
"antes" e "depois".
A seguir trata-se, em Derrida, posteriormente à Freud, de postular para essa
originareidade pressuposta como diferença, a redefinição da linguagem. Ele
concebe, pois, que Freud começou por fazer o mesmo, mas seguindo a hipótese de
um progresso da consciência até a liberação da língua coberta pela linguística
fonológica. Enquanto que o próprio Derrida retornaria nessa via, mas
em sentido oposto, para interrogar a descoberta freudiana do recalque em termos
heideggerianos da presença, e, assim, ao invés de princípio de progresso, ver
nele o da dissimulação do originário na forma da anterioridade.
A necessidade do progresso, bom ou mau, não se explica a si mesma, mas
interrompe a indagação necessária sobre o que é ele. O modelo da
consciência, a imediatez da presença, já não é filosoficamente suficiente, e,
ao invés, o inconsciente a explica, desconstruindo-a. Mas ela continua a
ser o que deve ser, " a exclusão onto-teológica do traço" que se
prefigura como "repressão histórica desde Platão".
Aqui o referencial é a teoria freudiana da "facilitação", como
vimos. Derrida vai acompanhar, nesse texto, os textos freudianos que foram
se sucedendo na produção dessse conceito de traço mnésico na
origem inconsciente. Porém o contexto é o que na "Farmácia
de Platão", Derrida considerou a cena primordial do logocentrismo, a
expulsão no Fedro platônico, da escritura inventada pelo deus Teuth, pelo rei a
que ele a presenteara, como algo perigoso, ameaçador da memória viva.
Na sequência dos textos examinados, em que sucedem-se metáforas do
traço, Freud chega à metáfora expressa da "escritura
psíquica" - o termo a que definitivamente adere Derrida. Porém para
Freud essa é apenas isso, metáfora. Porque, e nesse trecho ele chega a separar
o "sistema" e o psíquico, o que realmente forma para si
uma memória é este, não aquele por meio do qual entretanto a memória é formada
como sistema de traços semiótico-mnésicos. Ou seja, Freud repete a cena da
"Farmácia", o gesto do logocentrismo primordial: "o seu gesto é
então muito platônico. Só a escritura da alma, dizia o Fedro, só o traço
psíquico tem o poder de reproduzir e de se representar a si próprio
espontaneamente." Como também: "Freud continua portanto a opor, como
Platão, a escritura hipomnésica à escritura 'en te psiqué', ela própria tecida
de traços, recordações empíricas de uma verdade presente fora do tempo"
presente (p. 333).
Mas como estamos constatando, Derrida tira desse gesto, ou
dos membros sobre que ele se faz, o principal de sua própria
teoria redefinidora da linguagem. O texto situa, pois, antes de flagrar a
metafísica freudiana, o ponto em que a psicanálise perfura o discurso
metafísico-científico, destruindo a confiança com a qual "desde Platão e
Aristóteles não se tem deixado de ilustrar por meio de imagens gráficas as
relações da razão e da experiência, da percepção e da memória", de modo
que "o gesto esboçado por Freud... abre um novo tipo de questão sobre a
metaforicidde, a escritura e o espaçamento em geral". (p. 293). A
partir daqui, o exame da subsequência dos textos de Freud sobre a noção de
traço mnésico se torna o referencial da teoria do inconsciente temporalizado
assim como da nova filosofia do tempo que se trataria de constituir.
============
Derrida está plenamente consciente de que Freud tinha sua própria concepção do
papel formativo do recalque na cultura. A qual, recursivamente, é apenas o
enunciado da necessidade de uma dicotomia que a nós hoje resulta
inexistente.
São
três as rupturas fundamentais de uma ciência social pós-moderna: a) Não cremos
já que todas as sociedades não-moderno-ocidentais sejam homogeneizáveis num só
status; b) as instâncias ditas modernas, tomadas singularmente,
não são plenamente desconhecidas em todas as sociedades
"antes", independente da questão da ciência, que também devia ser
tratada na origem "moderna" (experimental) pelo
descerramento da visibilidade não-silogística dos trópicos; c) já
não se verifica que antes do despotismo imperial de tipo egípcio, só havia
sociedades "simples", de modo que para haver democracia
civilizada foi preciso primeiro uma organização social
despótica patriarcal proto-civilizadora, pois o Sumer mesopotâmio
(pré-acádico) se descobriu recentemente como mais antiga
organização urbanístico-palaciana conhecida, porém já podendo ser
interpretada como democrática e feminilizada (com mulheres e homens cultos
ocupando altos cargos decisórios).
Mesmo
antes dessa transformação pós-moderna existir, quando se acreditava ainda
que o percurso dialético do despotismo era requisito da evolução liberal,
notamos como o discurso do "primitivo" era ambíguo. Para Freud,
como salientei, não há a ambiguidade do "originário" antropológico,
ele é apenas o "anterior" ao presente da ciência. Não obstante,
ele é o formativo, o que o percurso individual da criança ao adulto
reproduz.
Derrida, que já vimos desdefinir a sua crítica da anterioridade
antropológica, se a sua desconstrução deixa intacta a necessidade como tal da
ciência na defasagem à anterioridade, volta agora a desdefinir sua consciência
da limitação logocêntrica de Freud. Aduz que, se este não pressentiu no
recalque a "consequência do logocentrismo", o "discurso
freudiano" de fato "não se confunde com" o traço mnésico
hereditário". Ao contrário dessa asserção, vimos que a sobreposição de
ontogênese e filogênese é essencial a Freud, aplicada na homologia dos
processos formativos individual e cultural.
Nessa homologia, a psicanálise não existe fora da utilização dos esquemas
importados da antropologia como os que descrevem os fatos da cultura, em termos
de atuação do inconsciente. O vai e vem pelo qual ela, então, retrocede para
explicar a causa do esquema pelo Édipo e a "castração", não anula a
dependência da sua concepção do ato a ele. Por exemplo, quando Melanie Klein
observa que alguns bebês mordem o seio da mãe quando estão sendo amamentadas,
ela define o ato como "canibalismo", e, depois, dá o canibalismo
cultural por explicado pelo mesmo motivo que impele a criança em sua
relação ambivalente com o seio. Pois relação de amor, ódio, inveja e culpa, até
à necessidade de reparação,na pressão das pulsões de morte
e
eróticas, que Klein atribui constantes desde o nascimento.
Não
se trata de compreender o que a criança faz independente da informação cultural
do canibalismo como o que o primitivo faz. Automaticamente, o canibalismo
funciona como item classificatório do que é feito "anteriormente", em
relação a outros modos de comportamento alimentar.
Em todo caso, Derrida manifestamente contradiz a frase que inicia
propriamente o texto, num trecho introdutório. Nessa introdução, ainda que
tenha considerado acessório o conceito de traço hereditário, reconhece na
psicanálise as "cumplicidades metafísicas e das ciências designadas
humanas." (p. 291) Mas não pela antropologia do primitivo, ou seja, o que
é especificamente ciências humanas. Fala apenas dos "conceitos de
presença, de percepção, de realidade, etc". Em todo caso, quanto ao
texto mesmo, sobre Freud, pretende, ao invés, focalizar o que não se prendeu a
tais limites, o que instaurou "um novo tipo de questão", como vimos.
Ao contrário da introdução, onde Derrida protestara não se limitar a Freud
e Heidegger, aqui já os situa como seus predecessores, desde que possam
esclarecer-se mutuamente.
Ou seja, se o conceito de anterioridade da escritura não-linear foi
criticado, o de originareidade permaneceu. Ora, assim, o originário
se opõe a derivado; por outro lado, repetindo o que salientei, o referencial
simbólico da descoberta da ciência quanto ao originário, ao invés de ser o
mesmo da escrita em geral, não abrange a escrita fonética. Mas assim,
quanto a esta, é o único meio da ciência.
============
O exame derridiano dos textos em que Freud, ao longo de décadas, enunciou
esboços sucessivos de sua teoria dos traços mnésicos, independente da questão
da suplência filogenética, começa com o "Projeto", em que Freud se
expressava ainda em termos de tipos de neurônios. Depois referencia a Carta 32
(1986). Faz uso intermitente da Traumdeutung ("a interpretação dos
sonhos") , uma alusão a "O eu e o id", e afinal se centra
na "Nota sobre o bloco mágico" em que Freud fez uso de um aparelho em
voga no mercado da época, que ilustraria a atividade de retenção de traços
perceptivos.
O problema de Freud é o mesmo em todo esse interregno. Como encontrar um
referencial na experiência cotidiana, que exemplificasse as duas operações da
mente: ao mesmo tempo que reter traços memoráveis, oferecer uma superfície
sempre limpa capaz de absorver novas impressões. O aparelhinho designado
"bloco mágico" é o único que Freud realmente constata
suprir a exigência e é por meio da "Nota" que hoje podemos
reconstituir o funcionamento do produto. Mas as tentativas anteriores
são prenhes de exemplos que Derrida utiliza para expressar os
processos de pensamento de Freud, tal que pudéssemos entender o limite que
o impede de liberar a escrita autônoma - como propriamente o que, para
ele, ela é em termos de "escrita psíquica" puramente mnésica.
Ora, Freud de fato expressa sempre, segundo constatei em seus
escritos mais conhecidos, a oposição fundamental dos conteúdos do
inconsciente e da consciência, tal que, quanto àqueles, se trata de
"instintos" (trieb). Os traços não são puramente sistêmico-escriturais
de fato, para ele, porque o que organizam são a matéria interior da vida
psíquica, o conteúdo pulsional - as necessidades e atos fisiológicos
do bebê enquanto expressos psiquicamente - ainda que o que sirva de traço sejam
os motivos da experiência pulsional inserida num meio, inserindo assim
elementos perceptivos, isto é, exteriores.
Além disso, Freud admite algo que Derrida não menciona, uma
faixa morta, sem estruturas receptivas de espécie alguma, entre
o que Freud pensava ser a frente perceptiva e o
fundo psíquico. O destino dos dados perceptivos vindos de fora
deviam ser naturalmente a faixa morta que assim os impediria de entrar na
interioridade ou fundo psíquico. Morreriam na faixa, não teriam receptividade
alguma na psique. Porém a organização do fundo reteria motivos pulsionais, como
vimos, que progressivamente interligando-se entre si, constituiriam como que
circuitos receptivos e desse modo permitiriam esquemas de
"facilitação" de alguns dados perceptivos. Encontrando os dados
perceptivos, circuitos ou traços receptivos, forma-se uma
"percepção" com sentido. A tese de Freud é que a percepção não se
realiza no aparelho perceptivo, mas no "traço" inconsciente. O que
vem do aparelho perceptivo é eliminado ou investido no "traço". Em
compensação, se a percepção não se realiza pelo que vem do aparelho, e
inversamente investir diretamente o traço, ocorre alucinação. Essa concepção
freudiana é complicada, algo ambígua a meu ver, prejudicada pela ideia ao
que parece indefensável hoje, da faixa morta. A necessidade dela na época
deveu-se a que se acreditava que o aparelho perceptivo só poderia funcionar se
entre um percepto e outro houvesse um esvaziamento total do aparelho, de modo
que ele estivesse sempre limpo e só assim podendo receber um novo percepto.
Por outro lado, quando se trata da linguagem do sonho, para Freud a chave sendo
a relação do material com o pensamento do sonho, subjacente, quanto a este
trata-se de algo articulado por relações lógicas, recuperáveis como expressões
por meio de conjunções (ou... ou...; então; se; etc.)
Aqui não há contradição com o fato do inconsciente permanecer uma vida
primitiva, não ego-logicamente consciente. Pois o que se negou desde Locke e
Rousseau, é que a vida primitiva e natural fosse algo inteiramente desordenado
e inadaptado. Porém a questão, além da ação, é a objetividade na duplicidade do
objeto fantasiado, imaginário, ou pelo contrário, racionalmente pensado,
relacionável à realidade intersubjetivamente situada e à
cientificidade. O inconsciente é a vida da fantasia, porém as fantasias são os
primeiros esboços das operações realizáveis. As fantasias também não são
desordenadas, mas obedecem a esquemas do desejo (libido).
Para Derrida, seguindo as tentativas de Freud nos textos mencionados, não
diretamente referenciando o texto de Freud que trata da faixa morta,
muito menos se lembrando que aquilo que Freud está tratando por psíquico
propriamente são os instintos vitais, aquilo que importa é a derrogação da
escrita fonética pela escritura geral do inconsciente assim como do sonho. A
escritura pura, que cria a própria palavra. Assim o sintomático em Derrida, a
meu ver. Almejando desdefinir a fronteira de sonho e esquizofrenia, para
ele o indemonstrável - não obstante as assunções de que se o demonstrou - é a
fronteira entre a fantasia e a realidade na originareidade do sentido, a
escritura. A máquina deverá, no limite, alienar a fronteira do
inconsciente e consciente, mas para isso ela deve percorrer por
inteiro a fronteira como a ciência, e derroga-la como à escrita
(fonética) na qual se faz e por meio da qual ela pensa.
O sintoma se expressa, pois, na ambiguidade da concepção derridiana
da letra do inconsciente, como do sonho em Freud. Ora a letra é
a liberação, a autenticidade, mas como agente de repressão à voz: "A
escritura geral do sonho supera a escrita fonética e volta a pôr a palavra
no seu lugar. Como nos hieróglifos ou nas charadas, a voz é
cercada." (p. 319/20). Ora, pelo contrário, a voz é o agente da repressão:
"Na regressão formal do sonho, a espacialização da encenação não
surpreende as palavras. Aliás, não poderia mesmo ter sucesso se a palavra não
fosse desde sempre trabalhada no seu corpo pela marca da sua inscrição ou da
sua aptidão cênica, pela sua Darstellbarkeit e todas as formas do seu
espaçamento. Este só pode ter sido recalcado pela palavra dita viva ou
vigilante, pela consciência, pela lógica, pela história da linguagem,
etc."
E mesmo aí, quando se trata só da voz repressiva, em vez da reprimida, vemos
que ela reprime ao mesmo tempo que não precisa reprimir, nem o pode
propriamente. Porque antes de existir a voz, antes dela poder ser esse
"espaço 'exterior' onde a "temporalização" que "supõe a possibilidade
simbólica e toda síntese simbólica" pode vir a "cair", a
"cadeia fônica pura, na medida em que implica diferenças, não é ela mesma
uma continuidade ou uma fluidez do tempo. A diferença é a articulação do espaço
e do tempo. A cadeia fônica ou a cadeia de escrita fonética são sempre já
distendidas por esse mínimo de espaçamento essencial no qual poderão esboçar-se
o trabalho do sonho e toda regressão formal em geral. " (p. 321).
Frase que repete, literalmente, a Gramatologia, onde se institui
como "brisura", a irredutibilidade do fônico-temporal e do
gráfico-espacial ("A diferença é a articulação", p. 80). Por
onde se introduz, junto com a redefinição da "diferência", o
tema do "espaçamento".
Derrida
procede, pois, em A Escritura e a Diferença, como se por meio de Freud
pudéssemos inverter o paradigma metafísico milenar que desde
Aristóteles coloca a voz na interioridade mais
profunda, como expressão das paixões da alma, modelo de todo
"logocentrismo" até o da linguística presente. Paradigma que
Derrida estuda minuciosamente na Gramatologia, centrando-se nas consequências
paradoxais da filosofia de Rousseau, e onde vimos se
instituir este outro, o paradigma da "escritura". Porém há
assim, já na Escritura e a Diferença, subjacente, uma repressão da voz
desejada pelo próprio Derrida, cujo procedimento margeia a
psicanálise só até o ponto em que ela se converte na fronteira do normal e
do patológico.
Porém como Derrida pode julgar estar realmente compreendendo Freud, se é ao
menos pensável que este não criou uma teoria do inconsciente à parte dessa
oposição? E sim daquela, entre primitivo e civilizado?
Derrida,
portanto, não elide a oposição do interior e do exterior, se ele se contenta
com invertê-la. O que essa oposição expressa, tal que pudéssemos relacioná-la
com a premissa metateórica, a cisão do primitivo e do civilizado, do
não-linear e da linearidade, que liga todo empreendimento teórico da
determinação do sentido?
Retornando
ao exame dos textos de Freud por Derrida, quanto à consecução de um
pensamento da "escritura em geral", vemos que também há uma repetição
de A Escritura e a Diferença, relativamente à Gramatologia. É o
locus da "estampa", que vemos repetir-se em Freud e
Rousseau.
=============
Acima
notamos em "A escritura e a diferença", a contradição derridiana
da voz, reprimida pelo inconsciente no sonho e repressora desse
mesmo inconsciente na vigília. Verificamos que a contradição
apenas desdobra a da escrita, entre o status da máxima generalidade gráfica de
toda escritura, e a restrição da única científica, a fonética, duplo da
voz. Nesse desdobramento já houve uma ponte, entre aquele título e o
Da Gramatologia. Agora, um exame mais minucioso da teoria da
escritura geral que perfaz a Gramatologia amplia a contradição, envolvendo
a base da construção teórica.
Continuando
nosso exame do trecho da Gramatologia sobre "A Brisura" (p. 80),
objetivando esclarecer esse envolvimento, vemos que nele Derrida afirma que a
escritura ou cadeia gráfica é a estrutura em geral, a langue como sistema de
signos, o sentido primário que recobre aquilo que Freud designava o processo
primário, inconsciente. A homologia do sentido derridiano e do processo
freudiano, que só vai ser explorada em A escritura e a diferença, decorre da
vedação à consciência que a psicanálise conceitua, dos processos primários. O
que Derrida está operando na Gramatologia é, pois, uma posição
específica na teoria da linguagem, contrariamente à da intencionalidade
fenomenológica, o que vai ter a repercussão polêmica que o seu "Limited
Inc." registra, como resposta aos ataques provenientes dos defensores da
intencionalidade, representados por John Searle.
Na atualidade, a polêmica entre as duas posições prossegue no
âmbito do que vem sendo designado "filosofia da mente". A polêmica
encontrou inesperada amplitude na revolução informática. Trata-se da
questão de se os computadores pensam, a qual vem sendo imbricada à da natureza
da linguagem. Marcelo Dascal ("Pragmática e filosofia da mente I, o
pensamento na linguagem". Curitiba, UFPR, 2011), sintetizou com muita
clareza o estado da questão, redefinindo a controvérsia nas posições exemplares
de Searle e Fodor, este defendendo o que estamos constando já ter sido a posição
derridiana.
Searle, para quem a linguagem depende da intencionalidade, não crê que os
computadores pensem. De fato, mais recentemente isso vem sendo negado não
apenas por parte dos que poderíamos designar intencionalistas, mas por
matemáticos como Alain Connes, neurocientistas como Changeaux , e até por
ciberneticistas especialistas em informática, como Heinz Von
Forster, diretor do Biological Computer Laboratory, de
Illinois. Especialmente Changeaux é um objetivista radical em ética, o que
demonstra a neutralidade teórica em princípio, da via negativa quanto ao
computador substitutivo da mente humana para quaisquer performances. Ela não
depende de um comprometimento teórico para com a fenomenologia.
Connes e Changeaux criticaram a redução da mente a
computador devido à existência do nível a que
designaram "complexidade", inerente ao cérebro humano. O
computador não atinge esse nível em que ocorre o que se designa vulgarmente
criação. Forster nega também que se possa designar
"memória" à armazenagem digital da informação, uma vez
que a memória implica reformulação constante e interpretação. A seu ver, como
registrou em entrevista a Pessis-Pasternack ("Do caos à inteligência
artificial"), é imensamente perigoso subestimar a autonomia e
complexidade da mente humana, relativamente à simplicidade mecânica dos
computadores.
Creio
que na "filosofia da mente" assim como tem sido desenvolvida a
questão, há uma lacuna a propósito do inconsciente afetivo - a qual não
seria explicável apenas pela obsolescência já sabida de constitutivos do
"aparelho psíquico" freudiano. Como estamos constatando, a
teoria do inconsciente obteve prosseguimento na filosofia em âmbito
pós-estrutural, o que estamos estudando aqui a partir da conjunção
Freud-Heidegger, operada por Derrida. Mas também está presente na assunção de
que processos cognitivos dependem de períodos de incubação, em que o
inconsciente está atuando na resolução dos problemas e criação, sem que a
consciência perceba.
A defesa da independência do sistema de signos como da escrita
maquínica, relativamente à intencionalidade tanto como ao trieb
freudiano, não implica necessariamente a posição do computador
pensante, se é o caso de manter a concepção do inconsciente desejante.
Pelo contrário, implicaria a necessidade de se re-endereçar a
questão a partir da instância da criação da própria linguagem, uma vez que,
como observamos, a consequência da radicalização dos princípios freudianos
no pós-estruturalismo é que já não há uma linguagem universal, mas a
"diferência" como traçado de estratégias semióticas relativas ao
desejo, e, quanto a este, sua imbricação ao mundo ambiente e social lhe é
constitutivo.
Assim o não haver da linguagem universal a priori, mesmo que haja
linguagem universal nas ciências, também não impede o efeito de comunicação
"intersubjetiva", mas sim o redefine como não a causa em si ou
pensável por si independente da singularidade das pessoas. As deficiências
desse campo teórico estamos recenseando na atualidade, porém a posição
específica do sistema da língua como não um reducionismo
computacional precisa ser equacionada por ser uma via importante na
condução da problemática.
Se o computador é incorpóreo, consequentemente a-histórico, então ele não
produz o inconsciente-linguagem, o que implica que o programa do
computador, o código, não é por si só 'langue". Para um
confronto entre código e langue, ver Baudrillard, "O sistema dos
objetos".
Contudo, devemos lembrar que a problemática ainda está
prosseguindo, e os continuadores do pós-estruturalismo deverão
assumir a questão informática na sua especificidade, futuramente -
não tenho tido informação a propósito até agora. Seja como for, a
atualização deverá envolver a crítica às defasagens até agora apresentadas.
Uma sobreposição de Derrida e Fodor, em todo caso, pelo que vimos não é
totalmente válida, ao menos além do ponto em que para ambos a noção de
intencionalidade é "misteriosa", como Dascal colocou a
propósito da polêmica Fodor-Searle. E também em que é afirmável, como a
seu ver, que "símbolos são capazes de circular na nossa mente, realizando
tarefas úteis para nós, antes que sejam finalmente investidos de - isto é,
que lhes sejam atribuídas - propriedades intencionais".
A pergunta sobre até que ponto isso é válido, teria é claro uma resposta
relativa à posição teórica, porém Dascal apoia a convicção de que "a
investigação da intencionalidade sempre pode ser adiada", ao
contrário dela dever ser considerada uma característica imediata de qualquer
processo cognitivo" como na fenomenologia se propõe (grifo meu).
Isso porque sendo o interesse de Dascal os aspectos da linguagem que
designa "psicopragmáticos", relativo aos usos mentais da língua,
diversos dos sóciopragmáticos como usos comunicativos, ele considera que
"é possível investigar os aspectos psicopragmáticos da manipulação
simbólica".
A
posição básica, portanto, em que podemos reunir Fodor e Derrida
utilizando o estudo de Dascal a propósito do primeiro, está na
independência do sistema de signos enquanto capaz de por si só construir
esquemas de interpretação e referência. Quanto à questão em que essa
posição se coloca, creio bastante ponderada a avaliação de Dascal
sobre que "para além do problema ontológico que subjaz a esta
polêmica" é possível considera-la "independentemente de se
chegar a uma resposta definitiva ou não à questão a respeito da capacidade de
sistemas de manipulação de símbolos serem capazes, por si mesmos, de serem
dotados de intencionalidade", de modo que esta poderia ser considerada um
efeito da circulação do próprio sistema, ou ao menos, como vimos, algo
posterior.
É importante notar que Dascal está desenvolvendo em seu livro um acoplamento
da teoria sistêmica à pragmática em termos de linguística do uso, e,
assim, expressamente refutando que se possa perpetuar uma abordagem apenas
funcionalista. ( o trecho que visamos é o 1.5 da introdução, sob o título
"Linguagem-em-uso: espelho da mente").
Mas
tornando à trajetória da teoria do inconsciente, vimos que a posição
original psicanalítica lida com os dois planos, do sistema e do uso, em
termos de processos primário ou inconsciente e secundário ou consciente.
O que Derrida e o pós-estruturalismo objetivaram foi um tipo de redução do
secundário ao primário, tal que pudessem eliminar o que tratam como ideologia
da natureza humana, residual, para Derrida, ao "logocentrismo"
ocidental como à metafísica. Ao invés da libido como um fenômeno psíquico na
acepção possivelmente recoberta pela terminologia do anímico,
tratar-se-ia de um fenômeno semiótico, inteiramente maquínico na acepção
de autônomo, como já salientamos. A pragmática é o âmbito explicitamente
considerado de inserção semiótica, porém numa ruptura relativa à psicologia
como a qualquer preconcepção humanista.
Ora, a contradição de base que visamos quanto a esse empreendimento
reducionista derridiano, se expressa nisso pelo que, na Gramatologia, a dualidade
básica se reinstitui. Não já entre processos primário e secundário, mas entre a
escritura ou cadeia gráfica-espacial, a estrutura, e a cadeia
fônica-temporal, onde fala e voz estão subsumindo a lógica e a possibilidade da
escrita fonética. O que está investido de autonomia maquínica e
determinante é obviamente a estrutura semiótica. Porém Derrida aduz,
ulteriormente, que é o passado puro, o produzido como recalcado - na
acepção que seria a do processo primário freudiano. Assim, como vimos,
Derrida propôs renomear esse passado/inconsciente, porque não
encadeado ao presente fenomenológico, designando-o Rastro. O fônico se torna
assim determinante, e bem especificamente, com relação ao presente
não-fenomenológico, redesignado o seu "post-scriptum" ou
"codicilo" - o que Freud teria descoberto no sintoma como Nachträglichkeit.
Assim
poderíamos indagar: por que a partição de primário e secundário, uma
vez transferida à relação com o tempo, abrange o fônico? A
contradição torna a portar sobre a voz. Por um lado, epifenômeno da
escritura, esta espacial. Por outro lado, rastro como passado puro,
transcendental ao presente epifenomênico. O espaço não ficando em qualquer
deles, além do seu viés como que fundante de "espaçamento" por
meio de que o signo submete, seccionando, a sonoridade livre
para a transformar em unidades mínimas operantes. Em Derrida a
contradição resulta em que o espaçamento resulta do mesmo modo
"temporalização". A articulação seria compreensível se não
houvesse a questão do que é originário - ora o espaçamento significante, ora o
Rastro fônico-temporal.
Podemos haurir algum esclarecimento da construção teórica da Gramatologia, na
cena freudiana da escritura assim como vista por Derrida no texto que viemos
considerando. O substrato de Saussure está apenas implícito. É
evidentemente o desenho do capítulo IV do CLG (Curso de Linguística
Geral), em que vemos dois segmentos de linhas onduladas, representando
dois fluxos horizontais ("a" e "b"), um sobre o
outro, representando respectivamente o pensamento puro e o som puro,
meramente abstratos. Ambos são verticalmente seccionados por linhas
que, assim, interligam pedaços deles, cada pedaço tornando-se um só feixe
vertical, a união de pensamento e som que perfaz uma unidade linguística como o
concretamente existente.
Dascal referenciou a discussão que ainda permanece a propósito da
tese da redução completa do pensamento à linguagem, exemplificando com a
posição negativa de Buyssens, defendendo este um tipo de inefabilidade
do ato individual relativamente à generalidade do sistema da língua. Uma
posição que creio dever ser mais habitualmente ligada ao "tratado do
não-ser", de Górgias, especialmente os comentários por ele aduzidos,
registrados por Sexto Empírico. Em todo caso, o estruturalismo
generalizou a visão oposta - sobre isso, tenho salientado o equívoco da crítica
atual que ecoando o de Aristóteles e Platão, interpreta a sofística como uma
logologia à Heidegger como expressamente em Barbara Cassin ("Ensaios
sofísticos"), mas também em Berti e outros.
Assim, portanto, podemos afirmar que Heidegger e o
estruturalismo concordam na tese da redução do pensamento à linguagem, que
na psicanálise pós-freudiana desde Lacan se traduz na tese da construção
do pensamento - como da capacidade de pensar - pela linguagem como
langue ou sistema de signos. O inconsciente, originariamente, é a cena em que a
articulação - a espaciação, a vertical que destaca pedaços funcionais - se faz
desde o início, como ato possível a partir de articulações sobre fluxos que são
os acontecimentos corpóreos (alimentação, gestos da mãe, excreções, movimentos,
etc.), dos quais vão se consolidar as faculdades de emissão vocal, fala,
andar, etc.
A abrangência da linguagem se torna assim totalizante - este o âmbito em que a
situou Heidegger. Qualquer estrutura está definida como
linguagem. Para Saussure, reduzindo-se à articulação de fluxos
conjugados, interceptados por um seccionamento articulatório. Ora, a
sexualidade sendo estruturada em Freud pelo a priori biológico da dualidade dos
gêneros, então o próprio mundo instintivo está reduzido ao desenvolvimento
necessário de um sistema - o "quaternário" (menino e menina
podendo primariamente desejar o progenitor do sexo oposto ou, inversamente,
se identificar com ele de modo a desejar o do seu). "Primariamente"
significa, pois, conteúdo a ser de modo saudável recalcado à consciência.
Vemos que Lacan é um predecessor necessário da operação derridiana da
"escritura em geral", a partir da qual não só a sexualidade como na
psicanálise clássica, mas qualquer envolvimento afetivo está dentro de uma
"história da vida" biológico-mental (evolução) que o
estrutura e em que é estruturado. Por este motivo, no pós-estruturalismo a
sexualidade edipiana perde preeminência para o esboço freudiano da teoria
dos traços mnésicos.
Vimos
que Derrida seguiu os sucessivos gestos desse esboço, até aportar na
expressão do que a seu ver aí está em jogo necessariamente desde
o princípio - o sistema da língua é uma escritura, revertendo-se o
modelo da fala que no entanto, é tão metafisicamente predominante que por mais
que se o faça nunca se o diz. Notamos porém que essa reversão da
voz ficou de fato problemática na letra derridiana. Como não poderia
deixar de ser, se o que Freud tinha em mente era na verdade o instinto, as
emoções e "fluxos" bem humanos que, como vimos, eram modeladas na sua
perspectiva pela informação antropológica do "primitivo".
Deleuze em Diferença e Repetição comprometeu-se menos quanto a isso, e é já
notável que ele tenha começado por uma crítica veemente de Freud, enunciando-se
como em ruptura, não apenas procedendo uma releitura - ainda que o que
aconteceu entre A Lógica do Sentido, kleiniano, Diferença e Repetição e O
Anti-Édipo não-psicanalíticos, não seja meu assunto aqui.
Em Diferença e Repetição, já pós-freudiano, ele conceitua
três sínteses temporalizantes independentes, passado puro bergsoniano,
presente do habitus humeano, e futuro como eterno retorno à
Nietzsche, ao invés da temporalização inconsciente pelo espaçamento
gráfico como Derrida; e, depois, o Anti-Édipo com Guattari converteu essas
sínteses em formas particulares da energia psíquica. O pulsional (libido), como
presente da ação manteve-se independente do "registro" (numen)
semiótico, a composição dos traços mnésicos numa cartografia do dever-ser.
E ambos independentes da subjetivação (voluptas) inerente ao trânsito da voz já
como fala, na comunicação.
O eterno retorno, quando se tratava da síntese do futuro, estava interpretado
como a teoria da cultura nietzschiana. O eterno retorno é o sistema de signos
de uma linguagem, estética, religiosa ou política, etc., ao invés de como se
interpreta tradicionalmente Nietzsche, simples repetição de fatos. Seja como
for, essa linguagem é a iterabilidade de si mesma, no sentido de Derrida
ou do "simbólico" lacaniano, a possibilidade sempre possível de
sua operação. É síntese do futuro a partir da sua sempiterna iterabilidade,
assim como da antecipação da realidade na linguagem.
Não obstante sua crítica anti-psicanalítica, Deleuze salientou em belas
páginas de literatura filosófica o quanto aí se imbricaria o instinto de morte
freudiano. Trata-se, na linguagem iterável, da abolição do que
podemos designar a primariedade semiótica "numênica." O
"eu" que se diz na linguagem é independente do inefável subjetivo,
porém instituindo-se que o abole, ao invés do individual ser uma
realidade pensável. E o passado puro da memória como traçado
semiótico do desejo próprio já é, na sua autonomia, a realidade sem
distinção de sujeito e objeto, isto é, de sujeito e signo. Não há um
"je" como instância psíquica, ainda que a indistinção implique algo
contraditoriamente uma realidade em si. Aqui a mudança relativamente a Freud é
a mesma que Derrida tencionou a partir da Gramatologia.
Essa subjetivação na síntese da Voluptas é sem sujeito intrínseco também
nesse outro sentido, pelo qual ela é o produto "maquínico" do
funcionamento inconsciente que porém para Deleuze define a transformação
consecutiva das três formas de energia uma na outra. Além
disso, ela não é epifenomenicamente o produzido como um
"eu" que se diz na linguagem exceto nas condições do capitalismo
edipiano. Autenticamente ela é a incorporação pelo inconsciente maquínico de
um devir cujo sentido é o de um "povo" ("sou" um
judeu, um negro, um tuareg, etc) - o que a despeito das intenções manifestas de
Deleuze e Guattari, os mantem bastante etnocêntricos, reduzindo o sentido
da população ao estereótipo a-histórico do "povo", subjetivamente
indiferenciado.
Para eles, contudo, a esquizofrenia que perpassa todos os "povos" e
nomes da história ao invés de se deixar formalizar pela memória de um socius já
definido (primitivo, bárbaro ou civilizado), é a realidade do inconsciente como
a capacidade da qual decorre todas as variações possíveis. Ao invés, os povos
reais estão presos na memória social que os condiciona a não mudar, como se
cada uma delas fosse a única ao invés de uma possibilidade do desejo esquizo -
isto é, totalizante gerativo das possibilidades várias. A própria
subjetivação voluptuosa é a produção de autocontemplações larvares a partir do
gozo vindo de ações particulares, intermediadas pela cartografia que as
codifica permitindo-as (ou, ao contrário, é a satisfação de as
reprimir).
Ao
seguir o movimento dos textos sucessivos de Freud a propósito dos traçado
da memória, Derrida opera a definição do "arquitraço" - a
base operatória do signo que se transforma na linguagem/estrutura do desejo. Paralelamente ele
estaria mostrando o limite interno do pensamento freudiano - o ápice
em que a intuição coincide com o conceito fica limitado à metáfora da
escritura. Mas assim é a construção metafórica, o modo como as metáforas vão se
sucedendo até alcançar esse gaguejo, esse simulacro de "escritura",
que interessa a Derrida seguir.
Já vimos porque. Não resta uma linguagem universal denotativa além desse
gaguejar, a metáfora não é como o que pensamos ao utilizar o termo
metafisicamente informado pela oposição à denotação inexistente. O que
Derrida está enunciando como "escritura" não é nada além dessa
figuração que, não obstante, é o transcendental do pensamento - e Derrida teria
mil razões para desdizer muitas "interpretações" a seu respeito, como
pensador avesso ao transcendental. Não obstante, todas as variações,
somente em que a linguagem pode consistir, são disseminadas do campo do
signo (significante), são variações da universalidade do sistema possível.
Assim, Derrida não pensa a interpretação de modo indeterminista.
O "sistema" pode sempre ser reencontrado, como um sistema de signos.
A fricção entre leitura e contexto é porém um dos aspectos mais difíceis dessa
questão que ele expôs melhor em "Limited Inc.".
Aqui devemos notar que ao contrário do que Eagleton anotou a propósito do
estruturalismo, as constantes operatórias do signo, a que se reduz a leitura
estruturalista em teoria literária por exemplo, não resulta em que é sempre a
mesma história que se deve reconstituir ao cabo da análise (o traçado de
oposições definidas). Pelo contrário, é sempre o mesmo sistema opositivo, mas
as histórias são sempre outras, o conteúdo sendo a "differance", a
inserção "secundária" em contextos reais (personagens, fatos,
símbolos, etc.). Cada um de nós teve sua própria infância.
===============
O primeiro texto de Freud a propósito dos traços mnésicos, examinado por
Derrida, não utiliza-se de qualquer metáfora. Freud pensa aí ser possível
estabelecer uma diferença funcional entre neurônios, tal que alguns se
destinariam à percepção e outros, propriamente psíquicos, à retenção
mnésica. O aproveitável para a enunciação do "arquitraço"
é o que Derrida selecionou como a noção de grades diferenciais que
retém uma excitação a partir de uma preferência
perfeitamente arbitrária, como uma sensação pura embora dotada
de propositividade.
Os neurônios receptivos - estou aqui simplificando ao máximo -
estabelecem um corte, "diastema" conforme a letra
derridiana, na continuidade perceptiva. Em Diferença e Repetição,
Deleuze institui o objeto virtual, que é porém doravante o único a
ser dotado de sentido, como "destacamento" que retém, do objeto
visível, um aspecto puramente afetivo, retenção que é a própria dotação
originária do sentido.
Derrida sublinha, a partir dessa convergência fundamental à sua concepção
do arquitraço, o que é especificamente freudiano. As preferenciais como
circuitos de traços, são construídas para evitar o mais possível o
dispêndio energético, o excesso de impressões vindas de fora, ou seja, do
aparelho perceptivo. Assim, já o vimos, Derrida não crê surpreendente a viragem
de "Para além do princípio do prazer" - vinte anos depois.
O instinto de morte já se inscreve na mente de Freud a partir
dessa reserva (Vorrat) frente à vida como multiplicidade da experiência ,
a essa verdadeira evitação da vida, paradoxalmente conceituada em geral
como essa mesma função originária (primária) da facilitação/evitação do
que ameaça o sistema como à conservação psíquica. A vida para Freud é uma
economia da morte para Derrida.
É interessante sublinhar o quanto a teoria dos traços mnésicos, assim
interpretada, é importante no cenário da teoria recente. Lyotard o expressa bem
em seu "Heidegger e os judeus" (Rio de Janeiro, Vozes, 1994). Nessa
ocasião, Lyotard está se pronunciando sobre o dossiê Farias, um documento que
havia sido publicado pelo chileno Vitor Farias, comprovando a ligação de
Heidegger com o nazismo. Porém Lyotard trata a questão a partir da teoria do
inconsciente, e é nisso que encontramos várias ressonâncias às questões que
estamos tratando. Vemos pois um documento importante da convergência
novo novo kantiana e psicanalítica do pós-estruturalismo.
Segundo
Lyotard, a teoria tem sido utilizada na antropologia recente, como em
Nicole Loraux e Cassin, para do mesmo modo que Deleuze interpretar a
cultura como "memória social", porém a partir geralmente de
textos/mitos que são selecionados como registro de personalidades que encarnam
valores. Por exemplo, por meio do gênero retórico do
"elogio" público, que era muito praticado na Grécia antiga,
estabeleciam-se valores de consenso político.
Esses valores, como traços diferenciais, tornam-se assim referenciais
seletivos do que pode circular na cultura, o que é coerente com eles,
independente do que de fato ocorre na heterogeneidade do presente real que
passa a poder ser reprimido, enquanto a construção dos traços
é recalcada para aparecerem eles como valores sempre atuais e vivamente
investidos na espontaneidade da experiência.
Assim Cassin estudou a economia do elogio, na Retórica antiga, entre
vários exemplos de estudos produzidos por essa escola - a qual venho criticando
por motivos similares ao que já mencionei quanto a Deleuze (a propósito vários
blogs meus, especialmente minha publicação pela editora Quártica do
"Filosofia, ceticismo, religião; com um estudo sobre Diógenes
Laércio"). Ou seja, trata-se de um etnocentrismo na medida em que relega a
heterogeneidade à modernidade (ou ao esquizo individual).
Especialmente meu blog recente sobre "teoria
moral" focaliza a deficiência dessa perspectiva em
Loraux ("Gregos, Bárbaros, estrangeiros", seleção de artigos com
B. Cassin e C. Pechanski). Lyotard sucintamente referencia o essencial,
porém não para criticar, bem pelo contrário. Se dispondo apenas da seletividade
de registros retóricos - definidos a meu ver como nada além de
ao mesmo tempo um partidarismo e uma demagogia, o que a retórica não
era porém - a polis até "pode e deve representar a guerra,
a stasis ..." mas "em um discurso (no sentido amplo pode
ser um monumento) que, pela só representação que faz delas, as 'supera'"
(p. 16).
Ou seja, por essa perspectiva que fica nítida no artigo de Loraux, só se
chega a ver que a retórica antiga, que sabemos ter sido um dos meios
instituídos da democracia na Polis, seria um instrumento que serviria
apenas para impedir de pensar a realidade propriamente política - a
heterogeneidade inerente à população. O que creio ter demonstrado errôneo,
do contrário não poderia ter havido um Heráclito ensinando que o conflito é
inerente a todas as coisas, ou o tratado do não-ser, de Górgias, mostrando que
aquilo que se fala não corresponde nem às coisas nem ao pensamento. A
polis não seria nada irredutível à oligarquia.
Cassin completa a dedução de Loraux, no livro citado, apresentando a
retórica como nada mais que um meio poético de agradar. Também como
exemplar do que deveria ser a política atual, de modo que
o "político" poderia assim emitir uma mensagem
que a cozinheira e o empresário entenderiam cada um a seu modo,
mas pensando ambos tratar-se da mesma coisa; a felicidade política
é atingir esse tipo de "consenso" - pelas virtudes dos conceitos
mal formados que cada um entende como quer.
O que ao contrário do que Cassin propõe em termos de boa retórica,
como todo mundo sabe seria apenas o produto da falácia já há muito classificada,
que consiste no uso de noções mal formadas como liberdade, pátria, dever, sem
definição do que significam no discurso do político, tal que as pessoas não
estão realmente julgando a probidade desse discurso. Pois os objetivos do
político não são declarados, sendo por esse procedimento, encobertos. Elas
estão apenas alienadas pela sedução da "música" verbal como de
promessas que fantasiam estarem sendo feitas aos seus desejos.
Se a retórica fosse só isso, como seus detratores oligarcas
diziam, ninguém que fosse honesto poderia defende-la. Ocorre que há
muitos motivos para duvidar de Platão, e mostrar que a Polis não era a
homogeneidade que se pretende que ela fosse como produto de uma vontade
retórica, por um lado, para, por outro, salientar que se isso não
correspondia à realidade, é que não há realidade além disso na história -
a natureza, melhor, a Referência, é inacessível fora da
cultura, porém "cultura" não significa nada que cheire à
apuração de algum simples fato. Do mesmo modo que pretendia Platão,
inversamente à veleidade dessa "escola" em estar revertendo a
metafísica por meio da "retórica", se qualquer leitor dos
Diálogos constata que a prova da verdade socrático-platônica é nada além
do mito, nem pode ser, a partir de sua anamnese e ideal como a
priori "moral" religioso-oligárquico dado como o regime a ser
instituído por algum déspota "sábio" - isto é, que sabe o
mito.
A dualidade operatória desse discurso da escola francesa de antropologia é
entre a retórica assim compreendida como arte da equivocidade e da ilusão,
e o princípio de identidade aristotélico. Se o princípio é
coercitivo, autoritário, elide a alteridade, etc., então só restaria a arte do
engano como meio do político. Vimos que essa não é a única forma de
se interpretar a retórica antiga, porém aqui é importante notar que
também não é esse "princípio" aristotélico que hoje
em dia define o campo da "referência", o qual se tornou
relacionável como vimos à questão do sistema da língua, mas também ao
contexto, uso, etc. Nem mesmo é ele que instruiu a crítica
(aporia) da metafísica em Sexto Empírico, por exemplo.
Pois, o princípio aristotélico reza que quem diz alguma coisa
"x", pensa alguma coisa "x" independente de ser verdadeiro
ou falso, mas assim Aristóteles não tem como lidar
com a possibilidade problematizada desde a sofística, a
saber, de se dizer um absurdo (paradoxo), portanto não se poder pensar o
que se está dizendo - tal é o caso da mentira, o que uma retórica cínica
induz a tomar por verdade, como Paris seduzindo Helena segundo
o Elogio de Helena, de Górgias.
Aqui é preciso notar o quanto é impróprio seguir Aristóteles e Platão na
interpretação de que Gorgias estava dizendo que todo o sentido se reduz à
sedução retórica da linguagem. Gorgias afirma aí que o logos é o mais
poderoso déspota, sim, porém devemos lembrar que o despotismo é o oposto da
democracia, e era só nesta que Górgias poderia atuar como retor e político.
Mas o mérito da polêmica entre sofistas e aristotélicos, reside
em que o paradoxo impensável torna-se para aqueles, o protótipo
dos fenômenos, posto que só nos são acessíveis por meio das nossas
limitações específicas, não em si mesmos. Essas limitações impedem que a recepção
dos sentidos seja uniforme - conforme testemunhos não desprezados das pessoas
que não concordam sobre algo percebido. A sofística, e depois o ceticismo da
suspensão do juízo (não o neoacadêmico), lidam basicamente com os fatos que
mostram a heterogeneidade dos fenômenos conforme condições diferentes de
recepção sensível. A limitação resulta em que cada um pode saber apenas o que
sente, não como o objeto que provoca a sensação realmente é.
Aristóteles pretendeu que pelo haver do correlato significado de um termo,
estava provando que a coisa é em si, e como Deus a
pensa, o que define esse termo. O que não constitui
prova alguma, porém isso não depõe contra a estrutura da referência. Como
ninguém duvida hoje, na linguagem a referência é o que estabelece o
elo entre termo e objeto, ao invés do pressuposto substancial da coisa. O
que está em questão é se a referência é intencional, ou semiótico-sistêmica,
etc.
É certo que a pioneira teoria nominalista foi introduzida por
Guilherme de Ockham como uma interpretação de Aristóteles,
na conhecida querela medieval dos universais - se para Aristóteles
eles estavam nas coisas, nos conceitos ou nos nomes. A meu ver
essa é uma questão subsequente ao contexto de escrita da Metafísica ou dos
livros contra a sofística, quando o que importava era refutar que não
houvesse o objeto substancial do pensamento, definido como a
identidade em
Deus.
Sexto, ainda na época helenística,vai pensar, quase um milênio depois de
Górgias, numa linguagem "pathos eautós",
que expressa apenas a "sensação própria", recusando,
pois, a opinião inclinável de um modo ou o outro pelas virtudes ou vícios
retóricos - pois ninguém convence outrem de que sente o que não sente
ou vice-versa. E, no limite, podendo haver linguagens científicas a partir
da coleção de constantes fenomênicas intersubjetivamente observadas,
conduzindo a um método, se bem que limitado à preservação da constância dos
testemunhos; enquanto Górgias, na Polis democrática, se atem em seu "tratado
do não-ser" ao problema da linguagem autotélica (o sistema da
língua não é comunicação); e, pelo "Elogio de Helena", por
outro lado, na retórica como meio do raciocínio capaz tanto de
fazer quanto de desfazer a mentira quando se trata do socialmente convencionado,
se engajado nisso ( a comunicação não é linguagem, e a
transcende pelo ético).
Não temos registro sobre se ou como Gorgias pensava a
relação entre as duas vias, do "tratado" e do
"Elogio". Ao contrário da retórica como psicagogia (ação sobre a
alma), de Pitágoras, não há menção na história de que Górgias acreditasse na
realidade anímica substancial. Sexto considerava a alma e o
corpo hipóteses tão indecidíveis quanto qualquer metafísica, e por isso
criticava a pretensão de haver uma ciência da música, que como a de Pitágoras,
ensinasse a obter efeitos anímicos determinados a partir de sons determinados -
uma vez que sempre se poderia demonstrar que os efeitos causados em uns não são
os mesmos que em outros.
Mas pelo que podemos observar dos documentos históricos,
a retórica politicamente orientada visava produzir leis de
coexistência da heterogeneidade populacional em nível público. A partir do
que um ramo da retórica se desenvolveu especialmente em torno do problema da
relação do público e do privado - o que vai constituir uma linha
paradoxal de Antifonte a Sexto, que começando pela instrumentação retórica
da democracia, chega ao tempo do império como pensamento crítico da retórica como
da validez da opinião, não frente ao mito e metafísica, mas à
experiência.
Que se trata na escola francesa do embargo da referência, como da
experiência, é o que o próprio Lyotard o diz, afirmando da história
efetiva, a que a mim interesse sobremodo como o que praticam por
exemplo David Halberstam, Claude Julien ou o próprio Farias, que "o
'foi assim que aconteceu' é impossível, salvo credulidade referencialista que
beira à imbecilidade". (p. 18)
E, mais adiante, "a história-ciência e a política da verdade menor não
podem fazer política, salvo se esquecer esse estatuto do referente cognitivo
que não se presta, absolutamente, a constituir uma frente e ao confronto, mas
apenas à reserva que o a-conhecer, a pesquisa, deve opor ao bem
conhecido, ao patrimônio e ao patriotismo. Lutar contra o esquecimento aqui, é
lutar para lembrar que se esquece desde o momento em que se crê, desde que se
conclui e se aceita algo". (p. 19)
Logo, não
havendo nada além da crença, não sabemos bem por que se escreve um livro como "Heidegger
e os judeus", em torno do fato de que Heidegger
"esqueceu" o "Esquecido" - isto é, não falou
jamais sobre os campos de extermínio nazistas, sendo os judeus o esquecido
da memória histórica europeia, ao ver de Lyotard. Pois, pela
lógica da reserva, pode-se continuar duvidando de que os campos
sequer existiram, ou tratar tal existência como caso de verdade
"menor".
Lyotard fornece talvez a melhor expressão de como a teoria freudiana dos traços
mnésicos foi importada no que poderíamos designar a base generalizada
do pós-estruturalismo - abstraindo para efeitos conceituais e
periodológicos as críticas derivadas de teorias originais, como de Deleuze e
Derrida. Lyotard tem ainda o mérito de mostrar sucintamente como de fato
trata-se, no que aqui estamos considerando como a absorção filosófica da
psicanálise, de uma base novo-novo-kantiana (ulterior à floração que
partiu de Dilthey). Além disso, é o próprio Heidegger que teria situado a "presença"
nesse mesmo nível do irrepresentável que é o do esquecimento freudiano.
Questionando
a terminologia da "memória", de Deleuze, Lyotard referencia o
que de fato Freud teria pensado em termos de um "imemorial" - "um
passado que não é passado, que não habita o presente, no sentido em que
lhe está faltando, lhe faltaria, se assinalaria presentemente mesmo com um
espectro, uma ausência, que não o habita tampouco enquanto bela e boa
realidade, que não constitui objeto de memória como algo que estivesse esquecido
e devesse ser lembrado (com o intuído de um 'bom fim', de um conhecimento
perfeito)". Para acompanhar a intuição de Freud, "basta
imaginar que uma excitação afeta o sistema [psíquico] enquanto ele não
tem nada para tratá-la." (p. 22)
Também contrariamente a Derrida, não vê nada de errado no fato disso se
tratar de uma "metapsicologia", pelo contrário, foi preciso
inventá-la precisamente, como não uma metáfora mas sim "uma metafísica
essa metafísica que se acha implícita em toda física moderna e que, sob o nome
de metapsicologia, Freud aplica à determinação dos estados da própria alma,
considerada a partir de então como sistema de forças" (p. 22). Aqui a
metafísica não está pois sendo criticada.
Prossegue
Lyotard, mostrando que a "Nachträglichkeit"freudiana afeta o
sistema psíquico com um golpe duplo, o primeiro sendo a
excitação que abala tão demais, tão de surpresa, que nem é registrada. A
força de excitação é superior à de impacto do sistema de modo que "essa
força não é aplicada para trabalhar na máquina do espírito". O
primeiro golpe, que afeta o espírito sem propriamente afetá-lo, é seguido pelo
segundo : "é a essência do acontecimento que está 'antes' daquilo que
há", um "antes do quod" que é também um "depois do
quid". (p. 26)
Esse segundo golpe é o ato de por numa diacronia, de temporalizar,
o primeiro evento não-diacrônico, de modo que "o
anterior [só] se liberta posteriormente a isso". Ou
como em Derrida, a propósito do texto inicial de Freud: "Pois a
repetição não sobrevém à primeira impressão, a sua possibilidade já ali
está, na resistência pela primeira vez oferecida pelos neurônios psíquicos."
(op. cit. p. 297)
Ou
novamente, como em Lyotard. Lembrança que não lembramos, de um afeto
que nunca sentimos, mas que produz efeitos palpáveis - como quando um
neurótico se põe em fuga apenas porque se decidiu a entrar numa loja e escolher
uma roupa, desencadeando-se a crise assim que se viu a si mesmo com a dita
peça na mão. Como se a fuga fosse o segundo golpe, de um primeiro que
é a excitação desse ver-se, e à roupa, que constitui o eco da cena do
recalque primitivo.
O tempo sem diacronia do afeto inconsciente, portanto, segundo Lyotar, essa
"hipótese maluca" frente à qual o próprio Freud deve
ter cambaleado - "puro nonsense, um afeto que não afeta uma
consciência... E como então Freud consigo mesmo... posso ser
levado pelo caminho dessa hipótese maluca, se não há nenhuma testemunha
disso"? (p. 23) - vai ressoar precisamente com o sublime que Kant
analisa na Crítica da faculdade do juízo.
Um choque que, na Gemith kantiana, tanto como no aparelho psíquico
freudiano, desafia a potência no entanto constitutiva do espírito segundo Kant,
a de sintetizar o diverso, e sua memória elementar". (p.
43). Não se pode representar o Absoluto. A gente aí "se
'afunda'".
Estes termos não implicam, porém, o que sugerem como alguma estesia. Lyotard
apela não só a Kant mas também a Adorno, para referenciar o que é inverso da
"'sensação, a aisthesis, enquanto matéria dada em forma, que dá ocasião
ao gosto, ao prazer estético", pois, em função do sublime de Kant e
Adorno "a aisthesis se esquece, se faz impossível, se furta à sua
representação (pela arte)."
É nesse ponto que Lyotard sintetiza o motivo do seu argumento - lembrando que
se trata de julgar algo momentoso nos anos oitenta, como vimos,
a publicação pelo chileno Farias, de um dossiê provando a ligação de
Heidegger com as políticas do governo nazista.
Ao contrário de Phillipe Lacoue-Labarthe a propósito, Lyotard não crê que
Heidegger tenha colaborado, e se calado, por motivos estéticos. Trata-se de
uma questão - a ser colocada de um certo modo: como é que Heidegger, o
pensador do esquecimento (do ser) em todo pensamento, arte ou
'representação' do mundo, pôde ignorar o pensamento dos judeus, este que para
Lyotard só pensa isto mesmo - na medida que os judeus tem uma relação
direta com a lei, não mediada a ordem do Deus mosaico por qualquer
religião natural ou estória mítico-explicativa, e, assim, a origem da
lei é necessariamente o esquecido, o impensável.
A resposta de Lyotard me parece ser, grosso modo - não sendo este
artigo um estudo especialmente dedicado ao seu livro - que Heidegger seguiu
Hegel ao invés de Kant, e que Hegel esquece (passivamente) os judeus
porque pensa (imperativamente) a homogeneidade ocidental à qual
eles, teimosamente, não querem se adequar: se embelezar, cosmopolitizar,
prussianizar, etc.
Ora, há problemas sérios com essa interpretação, os quais devemos
observar antes dos desdobramentos necessários dessa tese. Primeiro, ignora
o que Halberstam revelou dos judeus emergentes americanos, com exemplos
entre os proeminentes milionários do business de mídia. Eles é que
rejeitavam os judeus tradicionalistas pelo mesmíssimo motivo - sua persistência
nos costumes acarretava o que consideravam justa rejeição por
parte da sociedade desenvolvida, e, assim, provocava resistências a si
como emergentes. Eles próprios judeus, não empregavam (outros)
judeus (quaisquer) em suas redes de mídia.
Norbert Elias, cujos pais foram vítimas na Alemanha, livrando-se pessoalmente
por ter aceito fugir para a Inglaterra, revelou que os judeus alemães só muito
tarde se convenceram da situação real. Porque eram economicamente emergentes,
eles toleraram as perseguições raciais como algo normal, até que fosse tarde demais.
De fato, é difícil separar a convicção
"tradicionalista-racista" dos judeus e dos "arianos",
já que tal convicção na época do rise funcionalista era
difundida em praticamente todas as esquerdas e direitas, exceto pelo
referente racial a que cada um propriamente se ateve. Aquilo
contra que todos os tradicionalistas estavam, não obstante por motivos óbvios
não poderem formar um partido único, era o liberalismo que muitos judeus,
especialmente homens de negócios, personificavam. Ver por exemplo, nessa
mesma época, a classificação de Weber, do capitalismo
"aventureiro" (judeu) como incompatível com o
"protestante".
Como salientei acima, a posição que estou designando tradicionalista deriva
diretamente da antropologia do "primitivo" pós-positivista. Para a
qual o anarquismo é o autêntico ou primário, e o liberalismo o
"secundário".
Não basta, pois, afirmar como Arendt, citada em Lyotard, que os judeus são o
povo sui generis cuja origem tradicional não é uma positividade mítica, mas um
êxodo, e, errantes tão longo tempo, não podem assimilar-se sem
assimilarem também o anti-semitismo (p. 34). Há uma opção histórica sendo
feita nessa época, entre posições políticas constituídas em relação ao
capitalismo neocolonialista e ao suposto "Saber" que dele se
produziu. A posição de Arendt é expressiva do tradicionalismo de então. Não
lida com o presente histórico e a heterogeneidade, mas com um todo de
significação homogêneo, como fórmula do "povo" judeu, mesmo
que não restrita a obrigações religiosas.
Além disso, Heidegger não se calou tão completamente a propósito dos
acontecimentos da guerra. Ele mencionou, sim, os campos de extermínio - o
próprio Lyotard registra o que seria seu único pronunciamento a propósito, em
1949 - onde ele considera a mesma coisa as câmeras de gás, a mecanização
da agricultura e a redução do terceiro mundo à fome pelo
imperialismo. A raridade do pronunciamento foi simplesmente
assimilada a pronunciamento nenhum e continua o livro a tratar o silêncio
e o esquecimento sintomáticos.
Ora, Heidegger não ignorou de modo algum os judeus - tendo sido
amante de Hannah Arendt, a quem dispensou depois, quando ela se tornou
insistente por ter ele preferido continuar com a esposa germânica,
Elfried. Na altura do início do relacionamento com a jovem
discípula, esse casal já tinha dois filhos. Porém Heidegger
continuou se comunicando com Arendt, emigrada, através de
cartas, depois do rompimento.
Ele foi, também, acusado por autoridades nazistas de ser colaboracionista dos
judeus, e como pensador, de transportar o judaísmo para o pensamento
ocidental - ao que parece, o motivo pelo qual não continuou como
reitor do regime. J. P. Faye fez o registro dessa acusação, um
documento publicado por outro reitor da época, militar do regime. Faye
chega a deduzir que nada menos que todo o pensamento anti-metafísico de
Heidegger foi desenvolvido como decalque do discurso do coronel, com o objetivo
de provar compatibilidade ao regime.
Utiliza para demonstração a premissa de que as publicações de Heidegger nada
mencionam de anti-metafísico antes da acusação. Porém Ser e Tempo parece-me já
ser suficiente para questionar a dedução de Faye. Também Lyotard não
crê nessa tese (p. 76).
Além
disso, porém, Faye, do mesmo modo que Lyotard, nada menciona sobre o
relacionamento de Heidegger e Arendt em seu volumoso estudo. O registro do
relacionamento deles consta na biografia de Arendt por Julia Kristeva, onde,
contudo, não há referência ao caso levantado por Faye ou aos problemas de
Heidegger com o regime nazista. Também aqui não se coloca a questão de
como o regime havia lidado com o relacionamento Heidegger-Arendt.
Os estudiosos da filosofia de Heidegger não costumam equacionar qualquer desses
itens na assimilação histórico-filosófica de sua obra - exceto por vezes a
questão política de seu relacionamento com Husserl, embora sempre essa questão
no plano intelectual. A relação de Arendt e Heidegger nesse plano das
ideias tem sido tangenciada apenas no interesse de estudiosas feministas ou não
integrantes do cânon heideggeriano, como Kristeva e Cassin ("Ensaios
Sofísticos") - um paralelo dos comentários de ambas mostra notáveis
coincidências temáticas.
Talvez uma leitura da autobiografia de Werner Heisemberg favoreça a
minha hipótese de que Heidegger possa ter a princípio acreditado no
nazismo como "nacional socialismo", porém se logo caiu
na real - de fato, numa entrevista, designa os nazistas de
mentalmente indigentes - assim como os outros
alemães não-nazistas que permaneceram na Alemanha constatou não
poder haver resistência ao regime, salvo de suicidas.
Quanto
ao ambiente pós-guerra, se não há registro de crítica alguma a Nuremberg - o
que a meu ver é algo acertado, Nuremberg é necessário - é fato que a
própria Arendt condenou, nos Estados Unidos, o envio de um alemão
simplório da época do nazismo, funcionário sem importância política alguma que
havia sido capturado tardiamente, para ser julgado pelo governo
israelense. De fato há uma diferença entre julgarem-se o comando do regime e
pessoas simplórias que estavam apenas fazendo o que lhes era prescrito por uma
ditadura.
Lyotard parece ter subestimado a própria intuição de um parentesco
profundo de Heidegger e os judeus, em matéria de pensamento, porque não
perseguiu a hipótese até onde ela se tornaria fecunda, isto é, na história em que
visamos as relações de época, ao invés do mito. A meu ver, a
stimmung do pós-guerra foi menos o efeito de um recalque, uma
"anestesia" que induziu ao silêncio, do que a
consciência do dever já cumprido, com a consequente fé na sociedade
liberal que venceu a guerra contra o totalitarismo
nazista.
Tornando ao paralelismo do processo primário freudiano com o sublime kantiano,
para Lyotard trata-se de ver que neste as sínteses mais elementares
são constitutivas da diacronia. Aqui a conjugação dos fluxos, inversamente,
está do lado da imaginação sintética. É a representação que é temporalizadora,
mais como em Freud. Borda que vai desenrolando o tempo de um espaço
continuamente se recompondo na sucessividade do visível, borda, porém, que o
sublime "transpõe, quebra, estraçalha, e excede ou excisa".
Combinação de prazer e dor, como o tremor, etc.
Por que Lyotard não teria citado a Poética de Aristóteles, com sua misteriosa
noção do terror e do tremor provocados pela dramaturgia religiosa, como pela
ação mítica do deus ? Creio que seria o mais apropriado, e verdadeiramente
o referencial de sua interpretação. O que é coerente com a
psicanálise, que foi primeiro uma teoria da catarse.
Para Lyotard, porém, basta a menção aristotélica à "piedade"
para transformar a Poética numa extensão da retórica aristotélica.
Essa que pode ser recoberta pela insipidez da clássica e cristã. Ou seja, que,
ao contrário da inspiração kantiana do modernismo e vanguarda, não toca no
"coração" do ouvinte, lá onde não reside contudo algo que ele saiba,
mas sim somente o que ele sente e ressoa com o que o orador inspirado - o
profeta inflamado, o herege, o jansenista - logra evocar. Mais uma vez, a
retórica enquanto boa, é apaixonamento do ouvinte, não é pensável como
instrumento verdadeiramente político.
Quanto à estética da vanguarda, ela seria "escrita" no sentido de
Derrida, ao invés de literatura; não perseguindo nada de "estético",
isto é, não compondo com nenhuma sensação a induzir ou reconstituir. Aqui
"aisthesis" se opõe a "pathos" - como se este não fosse
"sensação", mas o conteúdo inominável da Nachträglichkeit. A
escrita como essa arte usa palavras e coisas mas não visando a representação
- o tradutível, diríamos conforme Derrida - e sim o pathos.
Mas assim, julgando que tudo isso deriva diretamente da teoria kantiana do
sublime, Lyotard anula a relação constitutiva da vanguarda com o
primitivismo pós-positivista da qual ela se compõe materialmente, como
da importação da arte afro-asiática na forma de quinquilharia, e na releitura
artaudiana e surrealista de Freud à luz da informação antropológica porém sem
reduzir o primitivo ao destino do recalcado - a raiz do anarquismo da
esquerda que atravessou todo o século XX, silenciando-se, sim, mas sobre a
proveniência "primitiva!. Ao invés, como em Lyotard a Europa se fecha
num processo intrínseco.
E o silêncio de Heidegger explica-se então porque ele não poderia
ter pensado, devido a esse processo, algo que não fosse o Ser e o
Volk (povo) na positividade do Ser, mas como no judaísmo, a lei como
o informe primário da voz de um Deus que não transcende a si mesmo.
Lyotard se opõe à interpretação lacoue-labarthiana de que o
extermínio expressou a essência do ocidente num devir estético que do
trágico-grego se consumou no burocrático-técnico - pois a
etnia não era de fato inimiga do regime, não há
explicação do porque o nazismo foi uma questão racial conforme Lyotard.
Nesse ponto, reiteramos que a posição de Lyotard não poderia ser mais estranha
à nossa. Pois o que estamos sublinhando é que nessa época tudo estava
subsumido ao "povo" como à raça na acepção pós-positivista
de totalidade da tradição. As tradições estavam efetivamente em oposição -
o que se tratava era de provar a superioridade relativamente às demais, e isso
num meio de generalizada concorrência entre os impérios neocoloniais. O
pensamento judeu dessa época tencionava mostrar que a lei judaica era
originária do ocidente, tanto quanto os indo-europeus queriam provar que sua
mentalidade era superior e que a origem da lei estava na Grécia, etc.
Se o silêncio de Heidegger não foi total, para Lyotard, a escandalosa
raridade do pronunciamento não anula a correção do diagnóstico heideggeriano de
que o que ocorreu foi um ser da técnica que passou a se ocupar loucamente
de tudo.
Para Lyotard, o horror nazista não é diretamente a essência do
ocidente. Apenas expressou a impossibilidade do ocidente pensar, sua
rejeição desse pensamento, uma liberdade que não seja devida ao ser, mas à
lei - sendo a lei, como vimos, o que os judeus pensam. E
Heidegger teria expresso justamente o pensamento ocidental do
ser - portanto, ele silenciou sobre o impensável.
Além disso, na concepção de Lyotard o Volk como conceito heideggeriano seria
pior do que o nazismo, pois um conceito, um sistema sempre
iterável, político populista - não a circunstância de um regime
factual, ainda que pudesse tê-lo expressado a seu tempo.
Por que teria Lyotard suposto que o nazismo não era igualmente doutrinário, que
não tinha conceituadores próprios? Aqui vemos que a conexão dos totalitarismos
da época com a antropologia pós-positivista e mais geralmente a metodologia do
todo que lhe convinha não foi realmente tangenciada na leitura
estrutural. Por outro lado, Lyotard e o campo estrutural não se apercebem de
que ao reduzir o socius originariamente a totalidade da
"memória" como virtual ou imemorial, eles não estão se distinguindo
do conceito heideggeriano. Em ambas as possibilidades trata-se de uma barreira
à história efetiva, e, consequentemente, à consideração da sociedade como
heterogeneidade ao invés de "povo" na acepção de tradição. Apenas
cada uma das vertentes está propondo a causa da homogeneidade
constitutiva/estrutural em outro lugar: o Dasein, ou significante/texto. O
partido, a guerra, os campos de concentração, nada disso para Lyotard é
tão concreto - tão ameaçador - quanto um conceito de filósofo...
Como vimos, porém Lyotard havia começado por assimilar o pensamento
heideggeriano e o dos judeus, como ambos visando o deslocamento da presença
relativamente à imediatez. Chega ao inverso por assimilar algo de
Labarthe, mas opondo-se a ele. Labarthe propõe a tese da
"cesura": o estético convertido em burocrático como
presentificação da forma pura da lei a partir
de Kant, que seria originariamente a lei pura (não
"mítica") dos próprios judeus. Mas para realizar a forma, o
ocidente recusaria a ver ainda personificada numa tradição secular. Ao
contrário, para Lyotard a lei hebraica é o Deus sempre vivo - que o
ocidente havia decretado superado, emancipando-se, livre da dívida do homem com
Deus.
Ora, de fato na Introdução à Metafísica, Heidegger analisa Heráclito como um
enunciador da lei, da ordem, naquilo em que se resolve terrenamente o ser da
Physis. A enunciação da ordem é ela mesma a instância de um lugar na
sociedade, fundando uma hierarquia que ao mesmo tempo ordena e tranquiliza, uma
vez que cada um só está pugnando por poder se estabelecer em seu próprio lugar
- o agricultor como agricultor, o artesão como artesão, etc. O filósofo
enuncia, pois, a lei do lugar, e assim ele se coloca superiormente,
se eleva ao nível da palavra fundadora. Eu não creio que o pensamento
social de Heráclito fosse tão homogêneo, porém aqui estamos tratando da
concepção heideggeriana do ser nessa relação com a questão da
lei.
Como vemos, Derrida, Labarthe ou Lyotard, nenhum deles relaciona a problemática
racial da segunda guerra com a origem de algo mais amplo, que não é
apenas a continuidade do nazismo, mas o comprometimento das esquerdas com o
anarquismo inevitavelmente autoritário, por abstrair a heterogeneidade e confundir o
Estado constitucional com o despotismo.
Sobrepõem-se uma série de mal-entendidos que seriam inexplicáveis vindos de
fontes tão eruditas, se não pudéssemos tratar do sintoma em termos de
auto-imagem do Ocidente, a partir da alteridade do primitivo a qual se recorre,
por outro lado, como fator disruptivo. O Estado é visto como despotismo
enquanto bárbaro e não articulado como na modernidade, porém a crítica da
modernidade é feita a todo Estado como despotismo. O contrário do despotismo da
lei é a espontaneidade suposta das massas, segregadas porém nas
tradições, mas a demonstração de que espontaneamente os
"grupos" não são instrumentação do desejo de domínio de uns sobre
outros é tão desconsiderada necessária que como para Foucault o próprio
banditismo do crime comum é essa espontaneidade que só o despotismo do Estado
reprime burguês reprime como ao proletário, etc. - ou seja, supondo Foucault
erroneamente que não havia repressão do crime comum antes da modernidade
burguesa por um lado, mas por outro, alhures, contraditoriamente
sustentando que a repressão era brutal antes da modernidade
mas com ela houve abrandamento das penas, o que a define.
A inversão pós-estrutural da psicanálise, isto é, do desenvolvimento
psíquico, de modo que ao invés de estar pesquisando como do
primário se desenvolvem as capacidades objetivas e políticas do
secundário, visa-se exclusivamente a originareidade do processo
primário, é apenas um efeito do mesmo sintoma. Expresso na retomada do
anarquismo de inícios de século, por outros meios. O verdadeiro
problema está no corte do primário e secundário em estrita homologia com o
primitivo (tradicional/instintivo/desejo/signo) e
civilizado(burocrático/moral/lógica/palavra), que implica a essencialização de
"povos", assim como do "ocidente" como o processo
intrínseco e único da cientificidade ao mesmo tempo lugar da alienação e da
realização.
Contradições notáveis se seguem, como a de Foucault que, além do que já
vimos, ao mesmo tempo supõe a modernidade como panopticum e como
neoliberalismo econômico que confunde ele com liberalismo político - sem que
Foucault notasse que são termos contrários como Stuart Hall demonstrou, e
quanto ao panopticum, que é algo que se choca com as leis constituídas da
modernidade, do contrário não teria havido o escândalo de Watergate.
Lyotard, portanto, não escapa a esse destino. A atualidade
pós-moderna, enquanto realidade geopolítica, especialmente no banditismo
generalizado que estamos combatendo na cena brasileira da globalização
- banditismo que atingiu o nível do governo - é decorrência
desse sintoma, sem dúvida, já que podemos provavelmente reconstituir o
nexo com orientações universitárias assustadoras de tão
despótico-anárquicas, tão sem relação qualquer com a consciência dos direitos
alheios - numa conexão total com um regime de mercado que podemos definir como
extorsão monetária e opressão do atendimento público.
Não há muitas razões pelas quais não deveríamos pensar que estamos num
panopticum ilegal contínuo, dentro de nossas casas. Os computadores, a que toda
escrita e documentação civil estão reduzidas, são obviamente intrusados por
desconhecidos que agem de modo dominador, sem qualquer controle,
censurando trabalhos, sabotando obras, quebrando os aparelhos,
etc. Não há polícia ou qualquer instância de proteção à
população contra a dominação info-midiática.
Para Lyotard, no recalque originário, o da sexualidade primária
seja lá como tenha sido sua apresentação no inconsciente de alguém (como
castração da mãe, sedução, incesto, rivalidade da criança com um dos
progenitores devido ao seu amor ao outro, etc.), em suma, "seja qual
for a cena invocada, na noite dos tempos..." essa cena não ocorreu,
não se localizou, "pois ela não é representável". (p. 29)
Repetindo, ainda assim ela é determinante, constitutiva, transcendental - num
sentido que a meu ver, porém, para Freud era bastante empírico como o de
uma personalidade, uma mania, um sintoma.
Breuler, aliás, no escrito publicado em parceria com Freud sobre a
Histeria, expressa-se precisamente desse modo: "Considero a histeria um
quadro clínico encontrado empiricamente, a partir da observação, exatamente
como a tuberculose pulmonar". A analogia das duas doenças prossegue
para demonstrar que ao contrário de uma unidade ideativa como se pensava
na época, a histeria na psicanálise estava sendo conceituada como um
conjunto de processos parciais, assim como havia sido demonstrado para a
tísica. A questão crucial passava a ser como, se a histeria abrange
também processos de natureza exclusivamente somática, eles são ativados
sem obviamente terem causas somaticamente localizadas. (Freud, S. Estudos sobre
histeria, 1893-1895, em coautoria com Josef Breuler, São Paulo, Companhia das
Letras, 2016, p. 264).
A oposição lyotardiana de aisthesis e pathos mostra bem como
Freud está sendo reinterpretado no campo estrutural. Por trás de uma sensação,
o que há originariamente é uma outra sensação que a recebe, qualifica ou
delimita - porém a essa outra proíbe-se o nome de "sensação", e se a
trata como o traço de um sistema dos sentidos em formação, que ao mesmo tempo
não é o sujeito das relações "secundárias", e é a realidade
unicamente subjetiva do sentido. Resumindo o que já vimso até
aqui, sistema é dos sentidos e desejante, porém deixa de ser sensível
nesse sentido de instintivo, porque é reduzido ao sistema de traços como de
signos. O sistema de signos passa assim a ser conceituado como
independente, puramente semiótico, a máquina.
Quanto a Derrida, sublinha ele que o primeiro texto de Freud a propósito até
teve que aceitar alguma referência ao tempo - porque seria preciso, como ele
enuncia já na Carta a Fliess, resolver a questão de que unidade originária
a origem neuronal procede, se ela não tem nenhuma qualidade em função
da qual a grade de diferenciação ocorre. Freud recorreu ao expediente da
periodicidade temporal, que explicaria o fluir da quantidade de excitação (Qn)
de um neurônio a outro. A hipótese interveniente de uma terceira classe de
neurônios havia sido levantada para abarcar a diferença entre percepção em si e
percepções conscientes, estas últimas que forneceriam as qualidades
(p. 301).
Porém o que nos retém aqui é mais oportunamente considerado a partir do exame
derridiano da segunda referência textual de Freud à sua concepção da formação
mnésica a partir de traços como fixação de circuitos de
excitações ligadas. Freud estava também se ocupando aí da questão da
alucinação.
É nesse segundo conjunto de referências, que reúne algo da Carta à
"interpretação dos sonhos", que emerge o tema
da "estampa" que, como assinalei, interliga o tratamento
derridiano de Freud em A Escritura e a diferença, ao de Rousseau na
Gramatologia. A estampa, antes que a metáfora expressa da escritura na
"Nota sobre o bloco mágico", é a insígnia do arquitraço que aqui se
constitui com a maior nitidez.
A princípio, trata-se da delimitação por Freud das
três "inscrições" que distribuem o acontecimento Inconsciente,
Pré-consciente e consciente. Freud está interessado em explicar como um
fenômeno inconsciente pode, por meio da terapia, chegar a ser interpretado, e,
assim, informado pelo analista à consciência do analisando. Como, em suma, o
inconsciente se expressa, se ele não tem meios de verbalização e é, por
definição, incompatível com algo consciente. É o pré-consciente que faz o papel
da verbalização, segundo Freud.
Para Freud, trata-se de salientar que entre as três instâncias não há relação
de tradução. Para Derrida há nisso uma captação da ontologia do tempo
"suplementar" - como relação entre o passado puro e uma revivescência
que só pode ser alucinatória-(verbal). Algo questionável, a meu ver, pois
Freud está lidando com os reflexos de um mesmo acontecimento em sistemas
irredutíveis.
Por exemplo, num casamento, os noivos vão ter sua noite de
núpcias, o escrivão vai lavrar a certidão e os convidados vão estar
cientes de que doravante na sociedade o sr. e a sra. fulanos são marido e
mulher, devendo ser inter-relacionados quando evocados. Os noivos nesse
meu exemplo seriam o inconsciente, o escrivão o pré-consciente e os convidados
a consciência. Todos os sistemas estão interligados, os noivos e o
escrivão estão do mesmo modo conscientes da mudança do seu status social,
o escrivão está sancionando isso mesmo na linguagem, etc., porém mantendo
a independência de cada um - saberem os convidados que há uma noite
de núpcias dos noivos, ou lembrarem-se estes que houve, não implica estar
atuando-a nesse momento, o inconsciente não se torna em si
consciente.
Não há a necessidade de se pensar o fator tempo nessa independência - o
casamento ocorre ao mesmo tempo para todas as três instâncias, mas não o
acontecimento ao que concerne o papel de cada uma. O
discernimento dos papeis está, por assim dizer, sem relação com o tempo da
ocorrência da cerimônia, que só pode ser reunido como uma única
instância naquele nível da consciência, em que se trata da
mudança do status social dos noivos (solteiros/casados).
Creio que é essa independência sistêmica que Freud cogitou ao estabelecer a
intemporalidade do inconsciente. Para Derrida, inversamente, Freud só teria
pensado o Ics intemporal pela utilização da terminologia vulgar do tempo.
Em todo caso, a questão para Freud envolvia não só evitar a analogia da
tradução, mas também a ideia de que, ao nos conscientizarmos de um
acontecimento inconsciente, como na análise, ocorre mudança de lugar de um
sistema para outro, do mesmo conteúdo psíquico. Ao invés dessa hipótesse, as
instâncias ou lugares elaboram o mesmo acontecimento, mas cada uma conforme seu
próprio modo de produção objetivo. Sobre isso Freud se expressa
claramente em "O eu e o id". O inconsciente não sobe, a
consciência não desce, apenas o pré-consciente verbaliza, e, assim, uma vez
interpretada a verbalização pelo analista ou por algum outro meio, a
consciência toma por seus próprios meios conhecimento do resíduo inconsciente.
A alucinação é explicada aí, pela possibilidade de que
ao verbalizar o resíduo inconsciente, o pré-consciente
não atinja a consciência, mas sim o elemento da percepção. Mesmo nesse caso não
há mudança da localização do resíduo.
Derrida transita desse argumento, à interpretação dos sonhos, onde
ele encontra no tratamento freudiano do tema, o seu próprio "modelo
de escritura" que define doravante em termos de "escrita
psíquica". De fato Freud já se refere aí à escrita. A "estampa"
é esse modelo, ela se constitui dos traços
puros que subjazem a uma forma - em porém não tendo por
correlato a unidade da ideia sentido platônico e sim a articulação nietzschiana
dos valores. A "estampa" é o clichê a partir do qual podemos
preencher de cores ou variações um desenho. Esse termo é Rousseau que, na
Gramatologia, permite a Derrida desenvolver. Agora poderemos retomá-lo com
alguma minúcia.
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Antes de introduzir a crítica derridiana de Rousseau, devemos localizar a
importância do pensamento deste. A tese de Rousseau enuncia o princípio
formal da cisão primitivo-civilizado que ganhará contornos metateóricos
definidos na emergência das ciências humanas a partir do Romantismo.
Ainda nessa forma prototípica, anterior ao século XIX, a cisão
não recobre estágios de formação evolutiva, mas sim como pioneiramente em
Locke, estados ou graus de ser.
É oportuno salientar que o modo como reúno Locke e Rousseau está
estabelecido pela importância basilar da cisão desses estados de natureza
primitiva e de sociedade civilizada, que neles constatamos. Ou seja,
porque a teoria política neles condensa a ciência social prototípica
com a antropologia social prototípica, com importantes textos que analisam
a "literatura de informação" dos trópicos então conhecida, os quais
são em seguida utilizados como âncoras na argumentação propriamente
política. Não porque Locke ou Rousseau teriam sido pioneiros na
própria enunciação da sociedade sem privilégio, como princípio democrático civil
de Estado.
Segundo Carpeaux, o pioneiro tratado da legitimidade civil contratualista é de
Johannes Althusios, (1603): "Os seus argumentos servem a oposição puritana
contra os Stuarts, aos independentistas de Cromwell, a Milton e, finalmente, a Algernon
Sidney, cujas ideias preparam a revolução de 1688". É conforme
Carpeaux somente "o ponto final" dessa trajetória
que encontra-se em Locke. (História da literatura ocidental, Rio de
Janeiro, Alhambra, 1985, v. IV, p.
843)
Irredutíveis
em Locke estes graus de ser natural e civilizado, tal que não poderiam ser
coordenados numa formação egológica superior - como,
inversamente, nas ciências humanas, da criança (moderno-ocidental) ao
adulto. A oposição, entre Locke e Rousseau, se nomeava entre estados
(primitivo) de natureza e (civilizado) de sociedade, somente nesta
constatando-se as capacidades intelectuais relativas à cultura. O estado
primitivo era porém de total liberdade do sujeito no seio da natureza a qual se
adaptava pelo trabalho e instintos. Era esse estado de igualdade que visaria o
liberalismo reconstituir, porém agora pelas leis que derrubariam os privilégios
de grupos cerceando a liberdade dos demais.
Quando emergem as ciências humanas, na contingência da independência das
colônias americanas, então o primitivo e o civilizado vão estabelecer apenas
fases no interior da evolução cultural do homem. Já não se pensa numa
humanidade puramente natural. Ainda assim, na exterioridade do
moderno-ocidental admite-se que a formação não se completa, o adulto não
ultrapassa as capacidades da criança moderno-ocidental, é um
"primitivo" - como vimos anteriormente. Porque além da
modernidade-ocidental não se faz ciência como a da modernidade-ocidental.
A diferença entre Locke e Rousseau é que aquele não produz uma teoria
propriamente psicossocial. A sequência em três fases porém é a mesma:
estado de natureza do bom selvagem, só com os frutos do seu trabalho; estado de
guerra pela superveniência da dominação sobre o trabalho alheio; estado de
sociedade pelo pacto social que institui a magistratura apta a
julgar sobre os litígios conforme leis instituídas para todos.
A ambiguidade também se repete, pela qual o estado social, por um lado, já se
atingiu na Europa cristã, uma vez que já não se está na contingência de, num
litígio, poder apelar somente a Deus. Ninguém desconhece a existência dos
tribunais que julgam acima de cada um dos litigantes. Por outro lado,
ainda não se atingiu, porque a monarquia não regulada por uma carta
constitucional pode ainda ser considerada um estado de guerra, uma instituição
de privilégios de status ao invés de igualdade da cidadania perante a lei, e
consequente garantia dos direitos do cidadão.
A ambiguidade se traduz, pois, na própria consistência da "teoria
política" prototípica das ciências humanas. Ela, como uma ciência ao invés
de um derivativo do discurso religioso, deve deslocar o referencial
demonstrativo do senso comum para o fenômeno conceituável relativamente ao
objeto. Ao invés do simples costume, como procedia Hobbes, Locke e Rousseau
utilizam a literatura de informação sobre o aborígine americano como
referencial demonstrado do estado primitivo.
O que a "teoria política" deve produzir a partir da elaboração
dos dados numa comparação consequente e demonstrada com o estado civilizado,
porém não é apenas a característica empírica do que se encontra nas Américas
contrastado à Europa do presente daqueles teóricos. Mas a previsão
cientificamente amparada do estado ideal da sociedade, coerente com a
natureza do homem. A sociedade se torna assim exclusivamente definida,
ultrapassando a definição por simples dado factual, porque a ciência é o efeito
máximo da cultura, a racionalidade em si.
A "teoria política", apenas pelo método comparativo, se
limitaria a descrever a distopia humana, da natureza à dominação do
privilégio - o homem nasce livre mas está posto à ferros, na
expressão de Rousseau. Ela teria expansão apenas até a "crítica
política". Mas como uma "ciência política", ela
circunscreve, desde aí, o pacto social redefinido, em função do
conhecimento da natureza, na sua essência não distorcida.
Voltando à questão da irredutibilidade de Rousseau a Locke, o ponto é a
explicação sobre o estado de guerra. Como ocorreu da natureza
poder ser alterada no seu contrário? Para Locke, conforme o
"Segundo Tratado sobre o Governo", a explicação crítica é a
degeneração de alguns indivíduos que passam a descurar do trabalho próprio para
apropriar-se do alheio, extorquindo ou escravizando o outro, por meios
premeditados ou pela força.
A concepção de Rousseau se expressa em textos desenvolvidos expressamente em
torno da questão das origens, como o "Discurso sobre a origem e os fundamentos
da desigualdade entre os homens" e o "Ensaio sobre a origem das
línguas". Ao invés da explicação individualista de Locke, produz uma
teoria psicossocial a partir do acontecimento do qual parte a distopia. O homem
se afastou da natureza, porém por causas naturais elas mesmas, a ocorrência de
catástrofes que precipitaram a necessidade de se unir aos outros. Assim que
começaram a se unir, surgiram os sentimentos comunitários, que são distorções
do sentimento originário da piedade, que em Rousseau, ao contrário de
Aristóteles, não é cumprimento de obrigação religiosa, mas sentimento de
compaixão pelos semelhantes.
Esse sentimento originário é um prolongamento sofisticado no homem, daquilo que
se encontra até entre animais, na visão de Rousseau. Mas os sentimentos
comunitários, ao contrário, são exclusivamente humanos. A partir
do acontecimento que obriga a se reunir coletivamente,
a compaixão se transforma em amor, que é uma preferência pessoal por
alguém, portanto a introdução da desigualdade. O amor provoca ciúmes nos
preteridos, a progressão vai ocasionar a inveja, a acumulação, a formação de
grupos desiguais e, afinal, da guerra resultante uma estabilização pela qual
alguns grupos se submetem àqueles que, dominando pela força ou pelas circunstâncias,
consolidam o estado de desigualdade na forma dos costumes e moralidade vigente.
Assim a origem é esquecida, e ensina-se, ao contrário, que desde sempre o
homem está destinado a obedecer a quem domina, a religião aí não
sendo o que deveria ser, a restauração da compaixão na origem,
mas simples fórmulas de conformidade ao privilégio.
O pacto social, a partir da conquista do conhecimento da origem real,
da nossa natureza própria, seria então a sociedade retificada e
legitimável. Paralelamente, Rousseau revolucionava em estética e
pedagogia, como áreas de aplicação de sua "teoria política". A arte
teria sido um dos instrumentos da educação distorcida pela falsa concepção da
natureza humana, e isso se traduziria pela progressão, que Rousseau pensava ser
demonstrável, do afastamento da arte em relação à expressão das emoções reais
do ser.
A educação tradicional, o instrumento da ideologia mesma do privilégio. O
pré-romantismo de Rousseau, tendo sido este estilo a pioneira
ruptura para com o classicismo enquanto produção estética, não foi,
portanto, contraditório com sua teoria distópica da arte, sua crítica
acerba da cultura ideológica. Mas a trajetória pessoal de Rousseau abarca
problemas de ordem psicológica bastante intrincados, relacionados à
sua complexa biografia. Mais tarde nos voltaremos ao
conhecido problema do contraste de posições suas em obras diversas.
Aqui sendo oportuno demarcar que da mania de perseguição, que
começou na época em que escrevia A Nova Heloísa, em 1856, portanto alguns
anos antes de ser efetivamente alvo de processos públicos e ataques
privados, ele aportou ao que parece a um aprofundamento da conversão
católica. Algo em conexão com o impulso de renegar as próprias obras, já
não se pensando como autor delas, sobre que escreve no "Prefácio de
Narciso ou O amante de si mesmo".
Em todo caso, a "teoria política" de Locke a
Rousseau trouxe - ou repôs - a importante questão da legitimidade da lei,
independente de sua simples vigência como a ordem do poderoso, de um detentor
de poder factual. Porém o Estado de direitos civis, contemporâneo, é definido
por uma crítica já na imanência das ciências humanas, bastante
consolidada na obra de Hegel, não sendo o mesmo que "pacto
social". Na formação do Estado contemporâneo. a noção de
nacionalidade já se estabilizou, assim como a redefinição, do homo natura
em homo storia.
A leitura de Derrida sobre Rousseau não visa minimamente resgatar o papel de
ruptura que cabe a Rousseau como pré-romântico e crítico de muito daquilo
que se associa de redutor ao espírito "Aufklaerung". O naturalismo é
comum ao século, porém o de Rousseau não é o do homem máquina de La Metrie ou
do universo-relógio de Voltaire, mas bem inversamente, o da alma que não se
conhece a si mesmo como no anti-cartesianismo de Malebranche.
Reinterpretado porém como, mais que uma deficiência, uma impossibilidade, já
que a alma não é o correlato do saber mas do sentir.
O decisivo anti-aristotelismo da transformação contemporânea, é a evolução em
biologia, coextensiva a ter se exaurido a capacidade explicativa do
"estado de natureza", na iminência da revolução histórica da
independência nas Américas. O decisivo na episteme contemporânea, pois,
não é só que nela a filosofia como metafísica deixou de instrumentar
necessariamente as disciplinas de pesquisa empírica, ora autonomizadas. Mas
sim que nela, com o evolucionismo, se está na necessidade de
pensar a ação imanente à natureza - o que desencadeia a cisão de ciências
humanas e naturais.
Uma cisão que é ao mesmo tempo uma formação do Real, pois, da ação natural é
possível postular, como numa ascendência, a essência cultural do homem, a ação
intelectual não se limitando mais à forma do raciocínio. Mas se tornando
inerente a toda performance de sentido humano.
O Romantismo é a ruptura radical para com o classicismo. O Romantismo visa como
cultura todas as manifestações simbólicas da vida, ao invés de como no
classicismo, a repetição de um cânon, um conjunto de regras como
um saber estabelecido.
Ora, o pensamento da ação imanente é algo tão contrastante com toda a tradição
"ocidental" - que se reúne justamente por esse contraste, da
metafísica grega à cristã - que uma pesquisa visando a sua assimilação
conceituada poderia surpreender, porque o que mais se produzem são meios
de se restaurar a idealidade transcendente. Ela transita ao interior do homem,
para gradualmente transformar a imagem da nova ciência, de uma ruptura empírica
de Galileu em diante, a uma continuidade sistemática relativamente ao
intelecto puramente ideativo cujo enunciado, entre as ciências humanas e a
epistemologia, vai ser tarefa sempre recomeçada.
Rousseau, ainda que como pré-romântico, pré-evolucionista, parece ter
antecipado essa estranha trajetória - que tanto mais progride quanto maior é o
peso das aquisições empíricas do conhecimento. Ele o fez criticamente, nos
interstícios desse pensamento sinuoso que foi a "teoria
política" clássica, como que escavando os vazios deixados
pela ambiguidade que ela construiu entre o fato e o valor.
Se o Romantismo assinala o acontecimento sem precedentes na cultura
conhecida, da emergência do Sujeito pensável, a trajetória de sua redução
ao intelecto sistemático-ideativo, sem contudo poder ser de todo anulado
enquanto o novo limiar da civilização (modernidade), estava do mesmo
modo apenas começando. Tanto a teoria política quanto as ciências humanas,
estão sobredeterminadas pelo desejo do Ocidente auto-reconhecer-se como um
estado de fato, uma "modernidade", uma revolução (científica), do
outro lado de si podendo estabelecer uma condição exterior. Por isso mesmo a
sua mudança histórico/evolutiva, a emergência do Eu pensável, nunca pode
evitar o paradoxo da anterioridade.
Rousseau não deixa de estar coordenado a este desejo, porém, naquilo em que ele
subsume o pensamento do Sujeito, não chega a cegar completamente o pensador.
Rousseau, embora na precedência do Sujeito pensável, ainda que como um
precursor desse pensar, é um dos raros que mantiveram o fio condutor da
autenticidade de si. Para Derrida, ao contrário, é essa característica que
compromete o projeto e a coerência do rousseauísmo.
Como vimos, não se trata nessa consideração de ignorar os limites históricos da
"teoria política", porém Derrida ignorou também a positividade do
pré-romantismo. A contradição de Rousseau começa pela própria enunciação de uma
natureza cuja subversão é a causa de todos os males, porém não sendo
possivelmente evitável a partir de si mesma, enquanto catastrófica numa linha
determinada de sua degeneração - ao Norte, a região dos rigores do
clima, o percurso da catástrofe; ao calor do Sul, pelo contrário,
tudo o que se segue da bondade natural e da abundância da terra.
A degeneração primeira, que da livre expressão sonora do sentimento puro
teve que se modular em linguagem regrada, pela necessidade de se compreender
mutualmente, ao Sul apenas originou o canto e as línguas apaixonadas no
gozo do ócio; enquanto ao Norte, os rigores do clima e da necessidade
produziram línguas bárbaras, rudes, laborantes, em total oposição ao
canto. Mas a progressão da regra fez o resto, em todos os lugares.
Tudo vai se convertendo na anulação do sentimento, em pura letra.
A cada vez que uma convenção escrita se apropria de uma
expressão viva, ela a perverte no contrário ao invés de
apenas registrar para reprodução ulterior. Quanto mais se multiplicam os
acentos gráficos, por exemplo, mais a fala está se tornando monótona,
disciplinada pelo artifício que condena a vivacidade pelo longo
hábito das etiquetas acadêmicas, que demarcam apenas posições de
poder.
Derrida incide aqui para mostrar que Rousseau constatou e
expressou o que estava todo o tempo negando como coerente ao dever-ser
autêntico. O arquitraço - o "grama" - como originário, se a
expressão é originária a partir da emoção. O arquitraço como suplemento, se a
própria expressão é o que deve ser convertido, no duplo movimento do progresso
e da degeneração, de um correlato da compaixão ao do amor e da associação.
Em suma, o arquitraço como o próprio veículo do desejo, e, sendo assim, como se
poderia ainda manter e estar mantendo todo o pensamento na oposição da
cultura à natureza - como da emoção à letra?
Segundo
Rousseau, a fala evoluiu com a escrita. A fala nasceu nesse
âmbito em que a compaixão ainda só se tornou, pela catástrofe, em amor. O
movimento de vareta com que uma mulher apaixonada uma vez delineou o rosto do
amado, instituiu a primeira escrita - que Rousseau julgava pictográfica, como
nas Américas então se encontrava. Suplemento perigoso, para Rousseau, por um
lado, o signo é inútil na imanência natural, tornando-se útil somente na queda,
no afastamento da natureza.
Se o perigo real é esse afastamento tomado em si mesmo - como hoje, na
era da ecopolítica já não duvidamos - se ele traduz uma alienação
real acontecendo, uma dominação concreta, etc., Derrida não acentua, nem
registra. Mas sim que Rousseau vai fazer do suplemento - como do perigoso
e da inutilidade - um outro de si mesmo, como retorno da origem, salvação, a
partir de se ter domado a independência do signo na mímesis das
paixões naturais.
Aqui, de fato, há uma lacuna inexplicável. Rousseau pensa todas as
crianças como seres que se não destinadas à educação tradicional, conservariam
as virtudes naturais - ao contrário da nossa psicologia, que só vê na formação
o percurso próprio da psique. Conforme Derrida, na Gramatologia: "O
conceito de infância para Rousseau sempre tem relação com o signo. A infância,
mais precisamente, é a não-relação com o signo enquanto tal". (op.
cit. p. 249)
Ora, lidando com esse estado infantil, Rousseau aconselha aos
mestres que não se limitem a lições, mas logo se tornem exemplos em suas
condutas. A criança imitará mais do que assimilará regulações instituídas por
palavras. Rousseau chama a atenção nesse ponto para o fato de que é verdade que
a criança estará imitando uma virtude de símio - posto que ela mesma não
realiza os sentimentos relacionados, estando numa idade em que o coração "nada
sente ainda" (p. 250). Por outro lado, para Rousseau ela sente, e
muito, apego ao que deseja. Assim, quando se trata de ensiná-la a ser liberal,
não é uma questão de fazer com que ela dê algum dinheiro que possua, pois a
criança não tem relação com o signo, e sim com a coisa. O dinheiro, que é
signo, para ela não tem valor em si. Ela provará que aprendeu a ser liberal se
consentir dar o seu doce, um seu brinquedo, objetos de um apego que é normal,
natural.
A criança sente e não sente, ela não provaria não ser avarenta ao dar dinheiro
ou precioso metal - uma criança que amasse o dinheiro seria inteiramente
perversa, ao ver de Rousseau - mas ao dar o que lhe é precioso por imitação do
mestre liberal, de fato ela não está sendo liberal, ou menos avarenta. Está
apenas, de novo, expressando seu apego, desta vez ao mestre a
quem deseja imitar. Como ato de falsa liberalidade, sem conteúdo
verdadeiro, só imitativo, esse é, no entanto, o relacionamento salvífico
do significante na "estrutura da imitação" - em que o
"uso perverso do significante é de alguma forma ao mesmo
tempo proibido e tolerado", conforme Derrida. (p. 249).
Porém não deveríamos considerar mais de perto o que implica
o não sentir da criança em Rousseau? De fato, aí o determinante é o
significado ausente e não o significante em excesso. O que a criança não
sente é o que ela só poderia sentir a partir da assimilação de uma convenção.
Assim Rousseau narra o castigo que sofreu quando rapazinho, porque se pôs a
falsificar moedas. Porém o que o mestre que o castigou não sabia era
que não as falsificava por desejo de lucro, mas sim porque ele - um
menino criado sem mãe - não tinha a menor ideia de que era errado copiá-las.
Se soubesse, para si mesmo não haveria nada de errado no
castigo, era uma possibilidade se fosse apanhado, assim como num ato desonesto.
O que Rousseau narra, portanto, é a circunstância de uma espécie de
honestidade igualmente sem conteúdo, apenas designável por oposição ao
que no trânsito da convenção seria definido como desonestidade. Um
estado de natureza e não, essencialmente, uma aversão ao signo.
Podemos manter que se trata, de qualquer modo, de uma
"não-relação"? Em todo caso, ele as copiava porque as achava belas. O
desenho é o motivo principal, enquanto uma revolução estética que
reconvertesse o signo, o meio de expressão, na sua origem,
o sentimento expressado. Como vemos pelo exemplo citado, a relação em
que o sentimento nasce não é unicamente com as coisas que não são já signos
como duplos de coisas. Se esse sentimento é ele mesmo estético - nesse
sentido tautológico de uma estesia - o signo em si mesmo, como o
desenho, é o transporte ideal.
O que Rousseau critica na regra, na letra como numa determinada utilização do
signo, é uma utilização de domínio sobre a estesia, como poder de
instituir que a proíbe ser expressa, a condena como algo de mal. É
portanto, um domínio "político" contra democrático, um poder de
ordenar a conduta de outrem, em proveito próprio e alienando-o.
A estesia é uma experiência própria, um pathos. Mas ao ver de Rousseau, assim,
o que há de natural nela é que nunca é parcial, destacável da continuidade da
experiência corrente de alguém. Se não fosse submetida à regra extrínseca, o
que se revelaria na estesia seria essa profunda coerência do comportamento
de um organismo integrado ao seu meio.
Ao que me parece, é esse o motivo pelo qual Rousseau chega a uma curiosa
observação, ao cabo da sua radical invectiva contra o aperfeiçoamento dos
artifícios de notação em música. Rousseau antecipa aí a arte modernista,
aventando a possibilidade de um pintor que apenas exibisse linhas e cores, mas
para conjura-la. Ele não realizaria uma arte, a seu ver, porque nós só
nos comovemos esteticamente com algo que faça sentido, uma verdadeira figura.
E no entanto, ao fazer essa crítica, Rousseau se torna um dos
precursores de uma vertente da vanguarda, porque o essencial nela não é a
relação com a figura, mas com o pathos.
Não é a regra da figuração o que interessa a Rousseau, mas - o que vai ser
sobremodo intensificado no Romantismo - o interesse subjetivo que possa
despertar a cena. Na vanguarda, o que permitiu o abstracionismo não foi,
certamente, a indiferença por esse interesse e a proposta do gozo
espontâneo do signo puro, mas sim a reordenação da psicologia, que
instalou no estado primitivo e infantil, como no inconsciente, a estesia
não já articulada na experiência. Mas sim elemento de sua articulação
possível - isso que Rousseau desconhecia, e que ainda assim ele de certo modo
visava.
Creio
que essa interpretação é possível se compreendermos a mímesis rousseauísta não
como a platônica ou aristotélica, de uma regra ou ideal, e sim como
a presentificação de um estado emotivo real.
Rousseau nega
a constância universal de impressões sensuais a ideias intelectivas, dogma
aufklaerung de Destutt de Tracy e Condillac como uma teoria da
"ideologia" que não é uma crítica nesse sentido que se conhece desde
Marx e que como coloquei aqui já está antecipada em Rousseau. Os
"ideólogos" iluministas fizeram apenas uma teoria explicativa,
sensualista, da origem das ideias. Como na estátua de Condillac, corolário do
homem máquina de La Metrie. A estátua, a partir da sensação mais simples como
o odor da rosa, vai adicionando sensações mais complexas, até chegar à
ideia da rosa. A ideia não é em si, pois, puramente
intelectual.
Para Rousseau o erro nessa teoria não é seu sensualismo
ou materialismo - ao inverso do que diz Derrida. (p. 253)
É, sim, ignorar a relatividade subjetiva, de modo que devemos,
conforme ele, observar que não são as mesmas ideias o derivado das mesmas
sensações, a partir da diferença dos receptores. Ainda que a seu ver sejam
as ideias, do mesmo modo, derivadas das sensações.
Derrida aqui erra enormemente, a meu ver, por confundir essa
relatividade enfatizada por Rousseau com uma ação do estímulo
sensível exclusiva "no sistema de uma cultura", de modo
que a teoria da arte seria ao mesmo tempo teoria dos costumes - uma
semiologia e uma etnologia. (252). A teoria da arte, inversamente, é
exclusivamente derivada do conhecimento da natureza. Assim se expressa
Rousseau, como cita o próprio Derrida: "Por que nossas músicas
mais tocantes não são mais que um vão ruído para o ouvido de um caraíba?"
É certo que Rousseau fala aí de um "império das sensações"
cujas causas são entretanto "morais", porém o corolário
da indagação citada é também uma indagação: "São seus nervos [do
caraíba] diferente dos nossos?" Se é claro que não são os nervos que
diferem, é certo que para Rousseau um caraíba é exemplar do estado de natureza
- ou do mais próximo dele que se possa constatar empiricamente. A
moralidade em Rousseau é a "dos sentimentos humanos" (p. 253)
- e eis o liame que ele quer preservar quando ataca a redução destes
não ao material que não se subentenda ao mesmo tempo universal.
Derrida também sublinha que "Rousseau não chega a considerar que os
próprios sintomas pertençam à cultura e que a picada de tarântula possa ter
aqui ou ali efeitos diferentes" - quando se trata do exemplo de
Rousseau, do conhecido costume de se fazer dançar alguém que foi
picado por esse animal, a fim de se livrar do veneno. Rousseau aduz
que ao contrário do que se diz para provar o poder físico e invariável de
certos sons, de fato não é a mesma música que se deve empregar para curar um
italiano ou um turco - num caso é preciso árias italianas e no outro árias
turcas. (p. 252)
Pensa Derrida, contudo, que mesmo assim "o princípio de uma tal
conclusão" - pela qual a própria picada tem diferentes efeitos -
"é claramente indicado em sua explicação". Ao contrário,
creio que o importante é o que Rousseau mesmo explica: "Cada um só é
afetado por acentos que lhes são familiares; seus nervos só se prestam
na medida em que seu espírito os dispõe a eles: é preciso que entenda a
língua que lhe é falada para que o que se lhe diz possa coloca-lo em
movimento. As cantatas de Bernier, segundo se diz, curaram de febre um
músico francês: elas teriam levado a febre um músico de qualquer outra nação."
(grifo meu).
É o espírito, pois, o importante na explicação rousseauísta, e não a nação
como mais tarde um Herder poderá considera-la, encetando a história na via
científica do processo conceituável, neste caso como história
nacional. Assim como vimos, o pacto social nunca chega a ser pensado como
nacionalidade que, ela mesma, inscreveria toda a diferença etnológica, de
nação a nação. Não chega à noção contemporânea de constituição - e
quanto a esta, como o que oficializa o pacto social, Rousseau a faz
depender de um estadista, um intelectual que a outorga, não pensa ele
na poliarquia dos poderes que define o Estado contemporâneo (executivo,
legislativo e judiciário).
A sobreposição do público e do privado, quando se trata contudo de pensar
o privado em seu direito próprio, antes de ser possível uma
teoria do sujeito, se repete em Rousseau mas já é constante na
Antiguidade, ali onde não se trata da metafísica platônica, como no
ceticismo e antes na Sofística. Por um lado, a questão são as diferenças na
qualidade espiritual da experiência, ao contrário da universalidade. Por outro
lado, contudo, antes do Sujeito pensável, a especificação das diferenças
não vai além de condições comuns, definidas elas próprias em sua
diferença. Se o vinho pode parecer amargo ou doce, é para um
homem doente ou um são. Se não temos certeza se vemos todos as mesmas
cores, ainda que estejam sob os mesmos nomes, a diferença pode ser entre
pessoas de olhos escuros ou de olhos claros, etc.
Derrida, que não considera essa questão histórica da emergência do Sujeito
pensável, registra apenas "como o valor da virtualidade introduz,
aqui ainda um elemento de transição e de confusão, de gradualidade e mexida no
rigor das distinções e no funcionamento dos conceitos - limites da animalidade,
de infância, de selvajeria etc." - o que lhe permite manter a
interpretação que vimos, mesmo seguindo-se aí a referência: "é decerto
preciso admitir que a 'impressão moral' por signos e sistema de diferenças se
anuncia desde sempre, embora confusamente, no animal. 'Percebe-se algo deste
efeito moral até nos animais'". (p. 253)
O que torna o sujeito pensável a partir das ciências humanas, e como o que
define a modernidade e a possibilidade destas, não parece dissociável
do movimento que começa a se expressar com o pré-romantismo
rousseauísta - essa escrita do Eu, autobiografia prospectiva da
experiência própria, que porém ainda não chega ao absoluto de um Eu além
da natureza e como somente o que a esta permite expressar-se, em
qualquer conceito, como ocorre só desde o Romantismo. Porém já não é o
pré-romantismo de Rousseau, uma natureza que predispõe totalmente na
universalidade, desde a sobrenatureza da idealidade em si ou como efeito
das conexões de nervos bem materiais. É uma natureza própria, singular, o
recorte da matéria por um temperamento, uma vida.
Derrida pensa, pois, que em Rousseau se trata de "metafísica" e
"ética espiritualista", como crítica do materialismo - o
que é inteiramente contrário à nossa interpretação dele como filósofo da
natureza humana, essa floração que só a "teoria política" produziu. E
o fez sob o impulso que vai resultar no sujeito pensável, assim que a natureza
tiver que ceder à cultura, quando se trata da alteridade do primitivo - na
contingência da independência, de sua ação na história.
O Sujeito se torna pensável como o pivô da pluralidade cultural - e isso
é o que Rousseu propriamente ainda não pensa, porque o que ele pensa na
raiz do espírito é a natureza bem material em que se molda o vivido singular.
E ele é o pensado, como sujeito. A modernidade começa, pois, como a conversão
do homem em sujeito "para si", não obstante ele ter sido sempre
sujeito "em si" - para utilizar as fórmulas hegelianas. A modernidade
não é então apenas atualidade. É o traçado da evolução política e psíquica na
história, a agência do Sujeito da história, o Ocidente - que enuncia a
subjetividade na ciência da história, assim como na legitimação do Estado
dos sujeitos privados, a população nacional. O sujeito é portanto, um ser
privado que ultrapassa a condição meramente individual, natural, e se torna
apto a engendrar a intersubjetividade na cultura histórica.
Nada disso é visível em Derrida, que dessa ruptura do classicismo à
contemporaneidade só retém, na Gramatologia, o esquema pelo qual Rousseau é o
avatar da condição leibniziana-clássica, que já lida com a escrita
não-linear não-ocidental, mas não a decifra nem pode, porque a reduz a
cálculo do mesmo modo que interpreta toda escrita. A decifração é desnecessária no
classicismo porque a ciência consiste apenas em saber para que serve o
signo.
E depois, quando o movimento de desterritorialização ocidentalizante
aporta ao segundo momento da informação da escrita no Ocidente, já se pode
decifrar mas não porque o logocentrismo do significado ideal teria
sido ultrapassado. E sim porque o não-linear pôde ser subsumido a ele, toda
escrita sendo rudimento da fonética como mais adequada à finalidade da
representação. A decifração é necessária na contemporaneidade porque a
ciência consiste em saber como o signo serve à finalidade
de cálculo expressivo para a qual se supõe que ele somente serve.
O problema com esse esquema é que ignora a decifração em ato, ao menos na
forma da tentativa sistemática como da escrita maia, desde os
primórdios da colonização jesuítica. Derrida se ateve, como o estruturante de
época, à relação de Leibniz com a escrita chinesa, o que se comprova
demasiado redutor. Além disso, há muitos pontos de contato de Rousseau com o
pensamento taoísta, e como se sabe, de fato houve na época uma intensa
influência da cultura chinesa na Europa - alguns atribuem a ela o estilo
Rococó.
Em todo caso, quanto a Rousseau visto por Derrida como a alma do
"preconceito chinês" do signo-cálculo leibniziano, portanto a
essência do ocidente de que seria impossível divisar parentesco conceitual com
o oriente da escritura, Derrida prossegue sua análise, desde esse ponto
em que se trata de uma metafísica e uma ética espiritualistas.
Se é assim, seria difícil, porém, afirmar que para Rousseau o signo é
suplemento, puro signo, que esse é seu pecado, e/ou, por outro
lado, o meio de sua regeneração via mímesis. Segundo Derrida, acontece que
a atenção ao significante, na patologia logocêntrica, tem por efeito
reduzi-lo. O suplemento ou letra em Rousseau não significa nada, é
substituição de uma carência, mas o significante, não, pelo que diz a
própria palavra, ele significa. É, portanto, ligado ao significante
ao invés do suplemento, que o pensamento rousseauísta não faz a
crítica radical do signo.
Como vimos acima, de fato não faz, mas não necessariamente porque, como
Derrida colocou, o significante imitativo devesse ser ao mesmo tempo proibido e
liberado. O deslocamento da mímesis é o que deveria importar sobremodo aqui, do
exterior ou ser para o interior, alma ou espírito que não está em disjunção com
o corpo, que é pathos e já não intelecto puro.
Ou seja, a mímesis
pré-romântica roussseauísta não imita a coisa ideada, o modelo ideal. O que ela
reproduz são situações vividas em que a paixão existe, sendo reconhecidas como
esse desencadeamento por alguém que as reconhece como vividos. O reconhecimento
aqui não é intelectivo, é passional. "O Gênio do Cristianismo", de
Chateaubriand, comparava assim as cenas de reconhecimento do herói, do poeta
grego e cristão. Ulisses volta, ele é o tipo exemplar, assim não é reconhecido
senão pelo servo, e a cena não é passional. Ele é o senhor, a
ser reverenciado à distância. Inversamente, José volta, sendo
reconhecido pelos irmãos na cena egípcia. Todo o contexto é
passional e familiar, segundo Chateaubriand. O leitor não
pode deixar de sentir a semelhança com sua própria família. Ali
estão os irmãos reunidos, o interior do lar, pessoas reais que se
relacionam sentimentalmente, as questões e os conflitos da
vida de todos nós que temos famílias oriundas da cultura cristã.
Para Derrida, a paixão - isso que importa ao deslocamento que visamos
- parece ser apenas o correlato de uma impressão determinada, em
Rousseau, a partir da imagem. Se a operação da arte, neste, não é
esgotada pelo signo, se não é essa a razão de sua crítica, mas sim, na arte,
"somos comovidos, 'excitados', pelo representado e não pelo
representante, pelo exprimido e não pela expressão, pelo dentro do que é
exposto e não pelo fora da exposição", conforme Derrida, este
limita assim à representação, à produção da imagem, o que ocorre. É
assim que ele introduz a "estampa" como o conceito-chave da
teoria da arte em Rousseau.
A "estampa" em Rousseau, é a "impressão
reprodutora dos traços", somente aquilo que pertence à obra
propriamente definida. Assim, "Se o belo nada perde em ser
reproduzido, se é reconhecido em seu signo, nesse signo do signo que é um
cópia, é porque na primeira vez de sua produção ele era já essência
reprodutiva. A estampa, que copia os modelos da arte, não deixa de ser o modelo
da arte". (p. 254)
Para
Derrida, aqui reside o sintoma da patologia rousseauísta, e se
Rousseau não o pode ver enquanto a contradição tão manifesta que
ele diz, não é por que a patologia lhe seja singular. Ela é o desejo
logocêntrico que se esgueira entre o sim e o não, que se faz coerência do
impossível.
Por toda
a estruturação da sua crítica da filosofia como da estética
academicista, Rousseau está negando à regra da imitação, ao traço como
técnica, qualquer caráter estético vital. Eles são o contrário da energia de
que a arte vive - as estéticas que se limitam a eles são ou já foram assassinas
da arte real, aquela que se perdeu na noite dos tempos enquanto a
civilização crescia. Porém, se a estampa é o imitado, se a energia é a
elaboração da mímesis, então isso que é a morte da arte se faz, pelo
contrário, agora, como a própria vida e modelo da arte: "O princípio de
vida, uma vez mais, confunde-se com o princípio de morte", na
perspectiva de Derrida - como vimos, exatamente, de sua
concepção relativamente a Freud.
Por outro lado, Derrida
se expressa como se Rousseau não dissesse o que não nota estar dizendo. As
regras de imitação são fatais à arte, e elas surgem naquele
momento mesmo em que a arte se torna possível como mímesis: "Se a arte
vive de uma reprodução originária, o traço que permite esta reprodução abre ao
mesmo tempo, o espaço do cálculo, da gramaticalidde, da ciência racional dos
intervalos dessas 'regras da imitação' fatais à energia. " (p.
255). Para Derrida, o que ocorre é que Rousseau, "segundo uma lógica
com a qual estamos hoje familiarizados", perante o paradoxo pelo qual
não se pode deixar de confiar a carga da arte ao traço que não obstante sabemos
que é o que pode secundar o cálculo frio e as regras da imitação, contorna o
perigo, pela oposição da boa à má forma. Como, em se tratando da música, a
melodia à harmonia, tudo o que está próximo e recupera a energia originária em
detrimento do que a fixa e recalca. Porém o essencial aqui, o que faz o sintoma
e o logocentrismo, é o modo pelo qual Derrida interpreta a crítica
rousseauísta. Ela não é contra o academicismo sem ser contra o sensualismo e o
materialismo, a seu ver.
Assim,
ocorre que a energia de que se trata não pode de forma alguma ser considerada
como se fosse o correlato do impulso físico. E se Rousseau polemiza contra
Rameau, é porque este confunde a natureza com o impulso.
Porque prodigaliza o artifício da notação a partir da exuberância
permitida do produzido, uma vez que ele apenas explora as
possibilidades ilimitadas dos sentidos físicos A regra não é o contrário
do impulso físico, ela é o que traduz qualquer forma de reproduzi-lo.
Mas vimos
porque. Para Rousseau o que deve ser criticado é o universal em detrimento do
subjetivo emotivo - e não está acontecendo simplesmente o desenvolvimento
de tudo que se seguiria da oposição estabelecida entre matéria e espírito, ao
contrário do que Derrida parece pensar. Se a junção de impulso físico e regra
tradutora é nefasta, não é por um imperativo ético da natureza humana, mas sim
porque o impulso é suposto deterministicamente em relação ao seu efeito
estético em sentido próprio, isto é, na recepção sensível.
A moral em
Rousseau, como vimos, é relativa ao vivido. É irredutível ao universal.
O impulso físico e a tessitura nervosa da recepção material são situados numa
trama de valores, mas como de significações afetivas. Intersubjetivas, mas
primeiro porque o fundo do privado é relação entre um ser de sentido
e o ambiente povoado que lhe solicita primariamente por suas emoções ao
invés de por imperativos éticos a priori.
Prosseguindo na sua
interpretação de que se trata em Rousseau de um anti-sensualismo, sem
consideração para a crítica do universal determinista, que poderia tanto
ser platônico como fisicalista, Derrida repete aqui, visando Rousseau,
a crítica que fizera já a Lévi-Strauss - para quem Rousseau é o pai das
ciências do homem. A crítica rousseauísta do academicismo é moralizante, porém
seu conteúdo visa o que considera etnocêntrico. O reino da harmonia é o norte,
e o erro está em considera-lo a essência da música por toda parte. "Perguntar-se-á
se Rousseau, conforme a um esquema que agora conhecemos bem, não critica o
etnocentrismo por um contra-etnocentrismo simétrico e um etnocentrismo
ocidental profundo: notadamente ao reivindicar a harmonia como o mal e a
ciência própria à Europa." (p. 258). E a dicotomia não para aí.
Multiplica-se desde aí, inversamente, porque mesmo na melodia já há que
discernir entre o bem e o mal, "como duas forças exteriores e
heterogêneas, um princípio positivo e um princípio negativo",
como o que separa da morte, a vida.
A melodia que pode ser derivada da harmonia é a morte, a que se
limita a operar sobre as paixões é a vida, e faz-se ver que da harmonia
sozinha nem tudo poderia provir. Aqui não seria oportuno seguir com minúcia o
debate sobre o acento e sobre o
cromatismo, que procedem essas considerações. Somente que, ao
chegar ao cromático, "gênero de música que procede por vários semitons
consecutivos" conforme Rousseau definiu no Dicionário de Música, Derrida
estabelece que se trata do próprio elemento, a origem da arte. O Croma
- cor em grego - seria o que a escritura é para a fala, mas,
inversamente, "Rousseau quereria restaurar um grau natural da arte no
qual o cromático, o harmônico, o intervalo, seriam desconhecidos." Eis
o sintoma e neurose, o desejo indecomponível embora do impossível: "Quereria
apagar o que reconhece além do mais, a saber, que há harmônico no
melódico, etc." (grifo dele, p. 261).
Então, indaga-se à frente Derrida, "O que Rousseau diz sem dizer, vê
sem ver? Que a suplência começou desde sempre; que a imitação, princípio da
arte, interrompeu desde sempre a plenitude natural; que, devendo ser um
discurso, desde sempre encetou a presença na diferência; que sempre na natureza
ela é aquilo que supre uma carência na natureza, uma voz que supre a voz da
natureza. Ele o diz, porém sem tirar as consequências..." (p. 264).
A citação anexa testemunha que Rousseau fazia da imitação uma
condição suficiente, mas não necessária da arte. O necessário é a comoção,
o deleite: "sem o que sua insípida imitação nada é; e, não despertando
interesse em ninguém, não provoca nenhuma impressão".
Creio ser
interessante aqui inserir algo do exame histórico de Carpeaux sobre o
interregno que liga, na França, os dois séculos XVII e XVIII pela linha
contínua que este país traçou do classicismo. Ao contrário de
uma ruptura muito abrupta da ilustração relativamente ao barroco. Ora, Carpeaux
esclareceu a relação da teoria da arte com o jansenismo, este uma polêmica
de alcance incalculável na cultura francesa, e de complexidade idem -
um movimento de ascese monacal quase suicida que não
obstante praticamente toda a classe intelectual apoiou como se fosse
o representante da liberdade e do progresso contra o obscurantismo religioso.
Como se sabe, o
jansenismo se opôs ao jesuitismo como a doutrina da salvação pela graça à da
salvação pelas obras. O jesuitismo então dominante reagiu, proibindo o
jansenismo, que, por sua vez, resistiu radicalmente embora sem resultado
além do apoio da maioria da população, inclusive de Pascal, que escreveu
engraçado memorial dos argumentos já burlescos do jesuitismo em prol da
salvação pelas obras. Revelando porém indulgência espantosa para com os
pecadores no confessionário, sancionando até o crime notório.
A questão
aqui é que o jansenismo como força de influência notável em inúmeros segmentos
de decisão política, operou a princípio similarmente ao espírito da
Contra-Reforma católica, contra a subsistência das artes liberais,
especialmente literatura e teatro. Na Itália, a defesa das artes perante o
tribunal tridentino foi feita utilizando-se a Poética de Aristóteles, de modo a
convencer as autoridades religiosas da utilidade da arte como ensinamento moral
por via deleitosa e honesta. O mesmo se repetiu na França, tendo-se em Boileau
o maior promotor da causa da literatura.
Ora, como Carpeaux ressalta, a adaptação da Poética de Aristóteles ao cânon
classicista não teve qualquer papel de suporte na produção da arte classicista
pós-feudal em si mesma, que já estava corrente na exemplaridade da
"Princesa de Cléves", de Mme. de La Fayette, ressoando com a tragédia
da renúncia em algumas peças de Racine. Aqui a vontade livre e responsável do
herói trágico, à Corneille, não poderia já ser encenada. A
predestinação da graça celestial e o fatalismo infernal das
paixões dominavam o ser humano por completo.
Restava porém ao drama sério o recurso dos casos de renúncia da
vontade. A meu ver, deveríamos aí distinguir a vontade à antiga, à
estóica, como ordem e deliberação, da vontade como desejo, isto é, falta,
platônica porém materializada na limitação do aborígine como ser primitivo
- objeto observável da nova ciência da natureza humana.
O importante porém
é que Carpeaux salienta o papel da teoria estética, especializando-se
como literário-dramatúrgica. Ela correspondeu à sua tarefa de promover a causa
literária num ambiente de forte censura política, e, assim, o que Boileau
precisou fazer foi transformar as regras técnicas da Poética
aristotélica em princípios morais cristãos.
E,
sobretudo, nesse momento fracassaram as tentativas de mediação por meio de um
discernimento entre a arte boa e a má. Somente uma demonstração
da moralidade da arte em si poderia conciliar jansenismo e classicismo. O que
Boileau obteve com enorme êxito.
Poderíamos,
inversamente, com Derrida, afirmar que na época de Rousseau a tarefa já havia
sido cumprida, de modo que o retorno da oposição do bem e do mal se
possibilitava? A questão me parece bem endereçada apenas se considerarmos o
deslocamento de Rousseau relativamente a Aristóteles, este o protótipo da arte
como cânon. Porém não sem que tanto o barroco como o classicismo
pudessem utilizá-lo.
Conforme
Carpeaux, a moralização da técnica foi obtida por Boileau através da
compactação dos conceitos - como unidade do tempo cênico, concatenação das
ações, etc. - na forma de princípios racionais, humanos. O teatro
demonstrava assim a própria retidão intelectiva da qual a moralidade vem a
ser a consequência na vida prática.
Em Rousseau
poderia ser que ao invés de uma distinção do bem e do mal, houvesse a
complexidade do retorno temático do que a predestinação e o determinismo
passionais convocavam por outro lado, a saber, o elemento da decisão pessoal frente
ao desejo - como da compaixão ao amor ou à venalidade; assim como para
os jansenistas, a alma que decide ainda mais amar desinteressadamente a
Deus, tanto mais independente de qualquer garantia de salvação.
Assim a
renúncia à vontade própria não limita o espaço da decisão num meio de
predestinação e determinismo passional, antes, se ele se conserva cristão,
desdobra uma gama de questões relativas ao desejo nessa acepção dos instintos.
Ou seja, nessa acepção pela qual o desejo fecha sempre mais o horizonte do
pensável num sujeito privado que sente.
É paradoxal que o
pós-estruturalismo seguindo Nietzsche lide com o desejo em termos de potência,
quando na teoria do inconsciente ele é originariamente falta, em Freud a
carência determinada de cada "trieb" como necessidade de comer,
de sexo, de beber, de sanar a dor, o frio, o calor, etc. Na
psicologia, tornou-se corrente uma concepção do funcionamento psíquico em
termos de "redução de drives", que traduz do mesmo modo que
"trieb" os "impulsos" nessa acepção de falta determinada
como instintos.
Aqui
seria oportuno voltar ao problema das contradições entre asserções de Rousseau
conforme os textos.
A princípio, a ambiguidade formal da teoria política - que instrui
metateoricamente toda a modernidade, como vimos - seria um modo de contornar a
contradição mais flagrante. Aquela entre o elogio apaixonado de
Rousseau à vida natural como à primitiva compaixão e ao
ajuste sem falha da ação ao meio, que desde os estudos
antropológicos parece estruturar toda a obra, e as asserções
do Contrato Social a propósito.
Neste, a princípio conserva-se a orientação que vimos comum a toda
"teoria política" clássica (contratualista), que atribui à
natureza do homem o estado de sua liberdade privada: "Essa liberdade
comum [à espécie] é uma consequência da natureza do homem. Sua primeira
lei consiste em zelar pela própria conservação, seus primeiros cuidados são
aqueles que deve a si mesmo..." (I, cap. III). Porém logo a seguir o
raciocínio que introduz a necessidade de algo mais, o pacto social, se
completa, já não introduzindo uma economia do suplemento. Mas sim
como o decorre da "substituição" do instinto pela justiça,
da ação utilitária pela moralidade.
A fórmula desse trecho pode ser evocada como a origem
do que nos preocupa tão vividamente até hoje, o que define a
geopolítica planetária - a ciência do
"desenvolvimento". A voz do dever suplanta o impulso
físico, o direito, o apetite, e o homem se torna racional quando
antes seguia apenas suas inclinações.
Ora, desse modo, o raciocínio paradoxal de Rousseau é agora o seguinte,
exposto por ele sucinta e claramente. Na natureza havia a vantagem da
imediatez; do estado de sociedade, ocorrem degenerações que conduzem
ou podem conduzir a algo pior do que o limitado pela mencionada vantagem;
não obstante, a mudança irreversível ao estado de sociedade é o "momento
feliz" que fez do "animal estúpido e limitado" da
natureza, "um ser inteligente e um homem" (I, cap.
VIII).
Se podemos contornar essa contradição a partir da própria informação do sintoma
"geo-ego-lógico", como poderíamos designar o que informa a
auto-concepção do Ocidente - além do qual não haveria nenhuma
unidade realmente comprovável dele - há também aquela contradição que
Rousseau desenvolve com bastante graça no Discurso sobre as ciências e as
artes, com que Rousseau venceu o concurso da academia de Dijon. Aí o
raciocínio é o seguinte. Respondendo à pergunta da academia, Rousseau nega
que as ciências e as artes tenham promovido o que hoje designaríamos o bem
estar social, ou o aperfeiçoamento das instituições. Pelo contrário,
ele considera que elas foram extremamente perniciosas e que degeneraram a
todos. Porém, não significando assim a defesa de que se as proíba e
que se fechem todas as academias e universidades. Porque elas fizeram um mal
que só elas podem já curar.
Na verdade, em conexão com outros escritos de Rousseau,
poderíamos questionar se foram elas - só - que causaram o mesmo mal. Como
já vimos, este é oriundo da própria forma de associação humana, de modo que
só pode ser curado pela retificação da forma da associação entre os seres
humanos. Similarmente, as artes e ciências que tanto promovem a rivalidade e a
desumanidade, atuam no atual estágio porém como lenitivos catárticos,
desviando para o seu exercício os impulsos maldosos que de outro
modo se descarregariam na ação real da rapina.
Ora, nesse ponto vemos Rousseau fazer o elogio do suplemento, como a algo
bem positivo e de modo nenhum um nada ou simples carência. As artes e
ciências "destroem a virtude, mas reservam o seu simulacro público, que
sempre é uma bela coisa...". Se a virtude - como os costumes
firmemente estabelecidos de um povo - já não existe, por que se deixou que as
artes e ciências os substituíssem, o simulacro supre com a polidez e a
decência: "e substituem o temor de parecer mau pelo de parecer
ridículo".
Trata-se, ainda, de contradição? Não teríamos aqui a continuação
da tarefa que desde o século XVII se atribuiu à teoria
da arte, da justificação da causa literária, como
demonstração da função moral do fenômeno estético?
Porém se é assim, em Rousseau o caminho da própria moralidade
só é pensável numa trajetória que deve preencher um hiato que antes não havia,
e que por isso talvez para ele sempre tenha permanecido de fato intransponível,
aquele da moralidade pública à sensibilidade privada. Em todo caso, a moral em
Rousseau muda de sentido. Ela não é obrigação universal de um cânon ou
determinismo natural, ela é natureza como sensibilidade própria que só produz
sentido num mundo de interações.
Se não teria sentido atribuir à crítica de arte do Romantismo, à iniciação
da teoria da literatura na acepção do termo que cobre a formação do que se
entende por ele hoje, a tarefa da justificação moral da causa literária, se a
mera indagação sobre isso provocaria risos, nada ocioso seria indagar ainda
porque. A resposta poderia ser sem dúvida que a tarefa já fora cumprida. Mas
restou, e como esse "nosso" conceito de teoria, mostrar como a
arte desempenha sua função - até onde se começa a questionar que a
arte subsista no horror imperialista, do Nazismo à Globalização.
========
O
que examinamos da convergência da teoria do inconsciente com a filosofia,
operada pelo pós-estruturalismo, mostrou que o meio conceitual foi a teoria
freudiana dos traços mnésicos e o tema da facilitação. A teoria em si não foi
criticada, somente a interpretação existencial como destinação psíquica do
processo secundário. A partir da teoria dos traços mnésicos, foi construída a
nova teoria do inconsciente, temporalizado, uma máquina semiótica sem
oposição a uma consciência dita normal.
Evandro Nascimento ("Derrida e a literatura", Rio de Janeiro, Eduff,
1999) tangenciou alguns aspectos do que vimos aqui, algumas vezes a
partir de interpretações algo divergentes das nossas. Porém referencia o
que estamos visando como um tópico necessário de pesquisa na atualidade, com
objetivo de reconstituição da história das ideias e da ciência do século
XX. Freud posicionou a psicanálise numa posição irredutível à
filosofia, mas para Derrida "se existe alguma afinidade entre algo da
'subversão' psicanalítica e a afirmação 'desconstrutiva', digamos, da
filosofia, esta pode também visar uma certa 'filosofia' da psicanálise".
(p. 165)
Assim, conforme Nascimento, por um lado Freud evitou a filosofia porque estava
trabalhando no limite das oposições metafísicas (consciente/inconsciente;
superfície/profundidade; presença/ausência; visível/invisível); por outro lado,
o que importa questionar é justamente a metafísica conservada implicitamente no
texto freudiano a partir da conservação do limite ao invés do ultrapassamento
dele.
Compreenderíamos desse modo o propósito da démarche de Derrida. Não
obstante, Nascimento também afirma que "o interesse de Derrida se volta
para o jogo metafórico do texto de Freud, que de modo algum se articula de
forma arbitrária mas se dando como uma combinação de análise científica e
especulação filosófica..." ainda que Freud tenha "conjurado
todo o discurso da filosofia por este exercer uma enorme sedução, e que por
isso mesmo devia ser evitado" (p.166).
Aqui Nascimento cita Freud informando que evitara justamente por isso
ler Nietzche, ainda que assim ele próprio não pudesse assegurar não ter
sido precedido naquilo que na filosofia já poderia ter sido expresso. Derrida,
conforme Nascimento reporta, considerou que assim Freud cometera o erro de
classificar Nietzsche ainda como um filósofo - e não como o disruptor da
tradição.
Porém o que Freud realmente expõe, é que ele evitou não tanto informações que pudesse
verificar depois serem ou não exatas, mas sim a predestinação da pesquisa
numa direção hipotética determinada, quer visando verificar ou refutar. O
hiato real não foi abordado, qual seja, aquele entre uma pesquisa
"experimental" - na acepção da observação clínica - e a
especulação introspectiva como desenvolvimento temático de uma
tradição ainda que fosse para radicalizar ou romper. Nietzsche realmente não
escreve sem referenciar todo o tempo.
Kristeva resenha o que ela considera a atualidade da psicanálise ("O gênio
feminino/Melanie Klein, Rio de Janeiro, Rocco, 2002, p. 275). São duas
vertentes. Por um lado, abertura "para outros campos de
atividade...", como sociologia, arte, literatura,
filosofia. Aí ela atua como luz para uma "inteligibilidade
renovada, e assim enriquece e desdobra o sentido de seus próprios
conceitos fora dos limites estreitos da clínica".
Mas poderíamos indagar: seriam para Freud ou Lacan, esses
limites "estreitos" - ou pelo contrário, os elementos
estruturais do programa de pesquisa, fora dos quais já não se teria
referencial, mesmo que o programa abarcasse a interpretação da cultura? O que
importa nessa aplicação? Não é apenas o que a psicanálise descobre na clínica,
por generalização do que "escuta"? Pelo que vimos, se há ambiguidade
de origem aí não é tanto relativamente à filosofia, mas sim à
antropologia e às ciências humanas.
Em todo caso, Kristeva expressa como segunda vertente da atualidade
psicanalítica a mudança na própria clínica, que mais agora visa "focalizar
em profundidade sintomas específicos", e, assim, a psicanálise "se
aguça e se diversifica para melhor apreender e tratar a singularidade de cada
paciente, evitando a generalidade das estruturas". Esse
caminho da não-generalização parece-me conflitivo porém com o
primeiro, onde se trata, ao invés, de generalização, especialmente quanto
à filosofia.
A meu ver, o mais necessário atualmente seria um exame a propósito do que a
convergência com a filosofia pelo pós-estruturalismo produziu em termos, porém,
de teoria do inconsciente (pós)-freudiano - e a meu ver somente no interesse
dessa produção, não por mero prosseguimento de objetivos especulativos como em
Hegel. Deleuze-Guattari foram, como devemos lembrar, eles mesmos os
clínicos do que designaram "esquizoanálise", e a gramatologia de
Derrida não esconde propósitos terapêuticos - ilustrados na sua
referência a Melanie Klein, ainda que não numa clínica própria.
Não obstante ao que parece pode-se afirmar que ao contrário da
psicanálise, na convergência filosófica pós-estrutural a clínica do
inconsciente é o corolário da revisão teórico-filosófica, ao invés desta ser o
resultado de observações clínicas que a partir do método próprio teriam chegado
a descobertas inovadoras. O elemento experimental, a pesquisa in loco, pois,
repetindo, foi abstraído. Por outro lado, é importante notar que aquilo que de
qualquer modo se produziu foi, antes de tudo, uma ciência política.
O exame necessário do que o pós-estruturalismo produziu em termos de teoria do
inconsciente deveria ser feito à luz do que as pesquisas em laboratório
vem revelando. Aqui podemos tangenciar ligeiramente algo básico.
O
termo "facilitação", segundo Breuler, foi introduzido por Exler. A
concepção freudiana é explicada por Breuler, não apenas pela
clivagem entre as capacidades de receber e de reter. Havia sobretudo
a concepção de que "a condição fundamental da função do aparelho
perceptivo é a mais rápida restitutio in status quo ante (restituição
do estado anterior); caso contrário, nenhuma outra percepção correta poderia se
realizar". (op. cit. p. 267)
Um
cotejo desse texto com Kretch e Crutchfield, mostra porém que ao contrário
do que Freud acreditava, a percepção não se completa em outra localidade,
mnésica, relativamente à puramente perceptiva. Há uma configuração de
pontos que agem em conjunto na percepção, criando configurações de estímulos
físicos, espaciais e temporais.
E
devemos notar, sobretudo, que conforme a lei de Bunsen-Roscoe, o receptor
estimulado continua a agir, mesmo depois de ter sido removido o primeiro
estímulo. Não há condição de não percepção a ser restituída antes que uma
percepção ulterior se forme. Pelo contrário, há conjugação dos estímulos que se
sucedem no tempo, da qual resulta a qualidade e própria recepção do
estímulo em termos de imagem. Assim a qualidade de um estímulo é
alterada conforme o soma de efeitos ocorrendo no mesmo receptor, ao longo do
tempo.
Tempo e espaço são características construídas pela própria percepção, não
dependendo de uma decalagem desta relativamente à memória. A
qualidade perceptiva relaciona-se também qualitativamente com a
personalidade. As percepção soma os estímulos que produzirão na
sucessão um certo resultado perceptivo, em tempo e modo próprios à
pessoa, ao invés de constantes universais.
A concepção da temporalidade em Heidegger foi precursora, como vimos, da
convergência posterior da filosofia com a teoria do inconsciente freudiano. Uma
leitura acurada do modo como Ser e Tempo instituiu a inserção temporal da
presença torna-se necessária. Em geral a tendência foi, como constatamos, da
anulação da História em caráter de efetividade como o entorno de
valor para a compreensão da presença.
Voltaremos a esse tópico. Então poderemos observar o real interesse da
convergência temática de filosofia e psicanálise, uma vez que nossa questão do
"pensamento por relações", interposta pelas descobertas da psicologia
do desenvolvimento como em Piaget e pelas mudanças em vários ramos de
pesquisa neuro-biológica e estudo da percepção, vai de encontro a uma premissa
comum de ambas. A que permite manter a problemática do signo num desdobramento
- ainda que como profunda ruptura - da metafísica da substância.
==================
A subsunção da "soma temporal" à personalidade como elementos da
qualificação perceptiva, poderia apresentar-se como objeção de que a base sobre
a qual se constrói a teoria dos traços mnésicos freudiana foi refutada na
evolução das pesquisas laboratoriais. A personalidade é justamente o que
a psicanálise visou explicar, e o que permaneceu à parte de qualquer pesquisa
da percepção.
E se inspecionarmos a literatura psicológica de Kretch e Crutchfield,
vemos que as várias teorias da personalidade que apresenta são, naquilo que
importa a uma atualidade da ciência até a altura da produção da obra, na metade
do século XX, desdobramentos da teoria de Freud, a partir da discordância de
algum tópico.
Contudo, Kretch e Crutchfield não apresentam essa teoria em termos de formação
de memória. Eles mencionam apenas a inter-relação dinâmica do ego,
id e superego e a especificidade originária do id, em termos de teoria
dos instintos libidinais que enuncia os seguintes axiomas: a) torna os
cinco primeiros anos da infância formativos de toda a personalidade;
b) exclui
componentes sociais dessa formação, que inter-relaciona
estritamente "'material' instintivo imutável";
c) na
sua pluralidade os instintos compactam uma dualidade indeslocável entre os
sexuais e os agressivos;
d) sendo id,
ego e superego três instâncias em conflito dinâmico, provocam o
aparecimento de angústia;
e)
os impedimentos da expressão dos instintos do id pelo ego e superego da
pessoa, fazem com que tais instintos sejam canalizados para
substitutivos de expressão, constituindo a gama dos motivos, hábitos e interesses
dela e, por outro lado, o desenvolvimento assim definido transcorre ao
longo da fases da formação psicossexual (oral, anal, fálica, genital);
Adler, Horney, Fromm, Sullivan e
outros, desenvolveram variantes em torno da teoria assim concebida,
questionando as premissas básicas : são os instintos realmente
imutáveis? São os primeiros anos decisivos, ao invés de serem também
importantes experiências posteriores? A teoria tem como abranger as influências
sociais? As fases do complexo de Édipo são universais ou ocidentais? O inconsciente
é o decisivo ou também aspectos do consciente? Cada um dos psicólogos que
os autores listam respondeu negativamente a alguma dessas premissas e
desenvolveu uma teoria própria a partir desse núcleo.
Assim o importante é notar que na
convergência filosófica do pensamento psicanalítico, houve uma
transposição do que estava sendo até aí sendo considerado essencial na própria
história da psicologia. Ou seja, utilizou-se um critério não-psicológico.
E quanto à própria
psicologia, o importante a meu ver é que uma teoria dos traços mnésicos por si
só estaria refutada assim como a sua postulada base. Uma vez que - repetindo -
ao contrário do que acreditava Freud a percepção por si mesma não é uma
superfície sempre limpa, que implicaria a necessidade da agregação
de traços realmente receptivos nas camadas profundas, não
perceptivas, do id. Mas sim a percepção é o que se qualifica
continuamente adaptando-se por várias regulações às impressões, nem todas
universais mas algumas puramente personalísticas, conforme o demonstrado
em laboratório.
A utilização da teoria dos traços mnésicos
foi importante na convergência filosófica pelo fato de poder ser interpretada
como extensão de concepções ontológicas do assim designado tempo puro. Aqueles
que o utilizaram em convergência com Heidegger, como vimos ao longo do estudo
até aqui, como Derrida e Lyotard, enfatizaram a existencialidade da
"presença". Aqui seria importante notar algo sobre a convergência com
a filosofia de Bérgson, que ocorre em Deleuze.
Ao contrário do que ocorre na
vertente heideggeriana do inconsciente, Deleuze não considera estar sendo, a
princípio, freudiano, de modo que não há um texto decisivo da nachtraglichkeit.
Além disso, o tempo puro deixa de ser apenas a instância do id, passando a
haver uma concepção articulada da temporalidade. O passado puro é, pois, uma
instância específica, diversa do presente do habitus e do eterno retorno como
síntese do futuro.
Ora, tratando-se, sim,
de teoria do inconsciente, aquilo que devemos questionar à luz do nosso
cotejo com estado dos estudos atuais, é a possibilidade do tempo puro em
termos bergsonianos, fundamental na proposição de Deleuze.
Se notarmos bem, podemos considerar
que a concepção de Bérgson é contraditória. Ele realiza a noção de tempo
puro a partir da cosmologia que se tornaria assim ontológica. O
universo como o cone do passado, que incide com a ponta no presente mas que se
abre virtualmente pelo acréscimo dos instantes, é porém uma projeção
obviamente espacial. Uma vez que o cone é um constructo
geométrico.
Bérgson utiliza-se, conforme Deleuze
("o bergsonismo") do método de divisão platônica, visando
mistos que devem ser depurados tal que se obtenha sempre a irredutibilidade de
espírito e matéria - assim como de tempo e espaço. Porém na verdade, não pensa
realmente como diz. Já que afirma o discernimento irredutível de
ambos, mas só pode pensar o tempo como a concreção de um sólido geométrico
- ou seja, de uma construção matemática do espaço - e, assim, pensa
misturando tempo e espaço.
E de fato
seria impossível que Bérgson concebesse um tempo puro, se o tempo-especializado
é o limite do conceito da temporalidade, não havendo de fato uma
realidade pensável de todo independente da experiência
espacializada.
Ao pretender
um virtual bergsoniano, Deleuze apenas produziu a metáfora da câmara obscura,
assim como Sara Koffman. Ou seja, uma redução da psique à fotografia, algo
que a psicologia atual justamente critica até mesmo para o que ocorre ao nível
da fisiologia do olhar.
A meu ver podemos
notar como essa concepção é vaga ao invés de precisa como apregoa, já por isso
que o destacamento virtual da imagem que criaria o traço do passado puro pressupõe
porém a imagem percebida. Ou seja, sem passado puro e não sendo porém um
hábito na forma do ato total em que a imagem se apresenta - conforme
o exemplo deleuziano, a criança aprendendo a andar até a mãe,
detendo-se para por os dedos na boca e assim virtualizando, destacando
como memória inconsciente, a imagem conscientemente percebida
da mãe esperando, do caminho, etc.
Assim podemos notar, como a contradição do enunciado deleuze-bergsoniano
da temporalidade pura em Diferença e Repetição. A percepção com sentido
consciente de uma imagem preexiste ao sentido que só seria
porém explicável depois de ter se destacado o traço no
inconsciente e como consequência desse destacamento "virtual"
de uma imagem na imanência do acontecimento.
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= Alter-egologia do Funcionalismo
Se designamos "Geo-ego-logia' a modernidade, em termos da fabricação da
autoimagem unitária do Ocidente como
Sujeito
da história, a Alter-ego-logia vem a ser o correlato nessa margem
anexada como a alteridade frente a qual o Sujeito se identifica. A cultura
se torna paradoxalmente, não o que o Ocidente pesquisa em termos da alteridade,
assim como o que meramente se faz, mas a importação da receita do
desenvolvimento que instruirá a relação com o próprio Ocidente, o agente
pesquisador-civilizador por um lado, econômico-imperialista por outro
lado. Vimos que o positivismo correspondeu a uma política racial bem
definível como um racismo tecnocrático que esbarrou somente no
obstáculo do próprio imperialismo como agente da
contra-industrialização para efeitos de monopolização do mercado
importador.
A alter-ego-logia do funcionalismo, estando relacionada às vanguardas
modernistas, deveria ser uma revolução histórica. A cultura já não seria
secularmente definida como irradiação do progresso científico-industrial. Mas
sim como o correlato da sociedade, com o primitivismo sendo o corolário, e,
assim, ao invés de importar estaríamos agora exportando. Porém, mesmo que esse
fenômeno já esteja comprovado como na demonstração de Otavio Paz sobre que na
Espanha o modernismo penetrou vindo da América Latina, após a nossa pioneira
geração "modernista" que produziu teorias tão originais quanto a de
Oswald de Andrade, houve uma acomodação, tornando a se verificar a mera
adaptação da "receita" assimilada.
Pode-se questionar, em nível de possibilidade. Se houve um
retrocesso, como teria sido possível? Na verdade o gênio do modernismo
brasileiro contou com os recursos intelectivos da extrapolação a
partir do pouco que hauria da inovação europeia da pesquisa in loco em pleno
neocolonialismo, não com informação em primeira mão a partir da pesquisa local
por profissionais da nação.
Não houve antropologia social brasileira nesse sentido, e a que começou a se
fazer bem depois, com os irmãos Villasboas, Roberto Cardoso de Oliveira e
outros referenciais conhecidos, brilhou como um fenômeno de vocação
beirando a caridade, não havendo até agora política de Estado que
refletisse a concepção da nacionalidade não condicionada a
mero "efeito de demonstração" de modas e produtos
importados protagonizado por uma casta identitária, e sim como status
heterogêneo das culturas historicamente formativas do território.
Oswald utilizou-se, pois, de Malinowski e Briffault, sem muito discernimento da
ruptura relativamente a Morgan e Engels, que entretanto limitava aqui o
entendimento de um marxismo que evitava desse modo culturalizar-se. O modo
como Oswald amalgamou o díspar está relacionado ao terceiro
vetor de sua informação, a antiga literatura dos viajantes assim como a
exegese da temática antropológica que ele pudesse fazer do
processo literário local desde a colônia.
Sua conhecida releitura dos utopistas europeus entre o Renascimento e
Marx, assinala a inversão que seu gênio lhe permitiu realizar,
mostrando como, ao invés de um progresso autônomo, a cultura europeia
se modernizou a partir da assimilação da informação das Américas.
Assimilação lenta e relutante, limitada pelo recalque da
sexualidade e pelo machismo oriundos da metafísica, até a eclosão das
vanguardas e a ciência do inconsciente.
O percurso dessa modernização em Oswald não é linear. Ele contradisse por
esse motivo, toda a dinâmica do capitalismo histórico definida a
partir da conexão weberiana da racionalidade empresarial. Se houvesse revolução
possível, ao ver de Oswald ela devia inversamente, como se verificava pelas
vanguardas, vir da revelação do inconsciente primitivo. Mas para Oswald ele não
era abruptamente seccionado do desenvolvimento. Este era processo em se fazendo
na decisão do presente entre o bem estar social ou a dominação total. A
revolução comunista havia esbarrado no obstáculo da falsa imagem da
razão. A decisão do presente devia, ao invés, partir desse outro começo
para compreender qual o seu adequado objetivo. Não a subsunção à técnica, mas a
síntese do homem natural tecnizado.
Tornava-se a falar a linguagem de Locke, porém num contexto culturalista e de
certo modo pós-romântico. Assim Oswald considerava nossa formação católica
um trunfo contra o calvinismo, este substrato de um capitalismo que era
mero uso da técnica a serviço da repressão sexual, a canalização da sexualidade
para manter a hierarquia instalada como distorção na produção - nesse
sentido, Oswald tem sem dúvida relação com Althusser. Porém não nesse outro
pelo qual a linha althusseriana é a da objetividade ocidentalizante em
progresso, desde Lacan.
Conforme
Oswald, o catolicismo feminilizado atuou como o matriarcado
poliândrico primitivo perpetuado na adoração da mãe de Deus, convergência
subliminar da colonização com o inconsciente primitivo, instituindo a linhagem
da qual poderia evoluir um capitalismo verdadeiramente liberal à Bunyam
("A revolução dos gerentes"). Do outro lado da qual prosseguia a
trajetória da colonização como apenas dominação genocida.
Na poliandria, instituição corrente em tribos brasileiras e
polinésias, pela qual uma mulher deve ter vários maridos, mais
que no canibalismo, Oswald ancorou sua concepção de inconsciente primitivo, em
que a condição freudiana da unidade não se verificaria, porém não como
apenas incompletude formativa, e sim como sistema alternativo. O inconsciente
primitivo é político, ele pensa a heterogeneidade, a pluralidade do social.
Oswald persistiu por isso no uso do esquema de Morgan,
contra o androcentrismo universal de Lévi-Strauss, mas ele o
compreendera não como a obrigação da passagem pelo despotismo com vistas à
organização consciente, e sim apenas como a prova da indiscernibilidade da
monogamia com o princípio capitalista do monopólio da propriedade por meio de
violência. Oswald faz, pois, a crítica do monopólio, não critica a livre
empresa.Afonso Arinos desenvolveu uma leitura histórica
paralela de Oswald, interpretando a revolução francesa como efeito do
conhecimento do índio americano pela Europa.
Esse
desenvolvimento, porém, foi anulado na consolidação da teoria social
funcionalista, cujo apogeu coincide com a emergência da segunda
geração do modernismo, redesignado "regionalismo".
Gilberto Freyre e "Raízes do Brasil" de Buarque de Holanda são
os produtos mais notáveis. Aí ocorre a inversão do
nacionalismo de Oswald. O primitivo de Freyre está concentrado na
aportação do negro escravo. A valorização não ocorre como real
ultrapassamento do preconceito positivista do negro fisicamente forte mas
infantil, não intelectualmente inteligente. Agora porém a infantilidade
sendo também inocência, pureza, incapacidade para dominar além da mera
circunstância do momento. Logo, contudo, a pureza se transforma na sensualidade
exacerbada, o sem freio dos instintos. O tema de Freyre é a negra escrava que
serve de objeto sexual ao senhor. Assim o negro inverte
o protótipo da poligamia primitiva para o homem que tem muitas mulheres. O
negro, portanto, desse "negrismo", é apenas fetiche, não pessoa
humana. O assunto é conduzido por Freyre em estrita conexão com o da rivalidade
do teórico à senhora branca.
O fetiche é utilizado como símbolo de um duplo domínio do homem sobre o
objeto: o desfrute da escrava passiva e o escárnio da obrigação com a mulher
branca, respeito civil que a esta converte num ser pensável. Como
política, essa espécie de teoria que é apenas sintoma de tara machista, se
dirige ao negro ensinando-lhe que ele é bom para o senhor branco, que na
história ele atuou ao lado do senhor e que sua redenção social passa pela
conformidade a esse papel. Se o negro vier a obter posição, é pelo
desempenho desse papel que não é o da inteligência, mas o da conveniência
instintiva, não por uma mudança de mentalidade real.
É deplorável que hoje em dia, esse funcionalismo já bastante superado
e criticado, recusado pelos próprios movimentos de negritude como nos
USA, esteja reeditado nas universidades assim como a obra de Freyre, por
corruptos instruindo a mídia que explora a imbecilização, para
manipular currais eleitorais contra os direitos já estabelecidos da
cidadania.
Se Freyre pretendeu escandalizar ou não, é comprovável que o machismo do
homem médio brasileiro da época encontrou aí um canal, como se nota por outros
registros - na poesia da "nega fulô", etc.
Buarque
de Holanda é o protótipo da perspectiva subjacente a esse funcionalismo. O que
está sendo valorizado é o calvinismo que desde inícios do século XIX,
comprovada a hegemonia capitalista dos países reformados, invertera a
hierarquia rousseauísta e instituíra o Norte como bússola também
do progresso dos povos. O português, o latino, prova parentesco de
temperamento com o primitivo, sim, no Raízes do Brasil, mas por
esse viés de sua preguiça, de sua incapacidade para a diligência. Absurdo
histórico, se lembrarmos que o Império só se
estabeleceu subsequentemente à independência por subvenção
inglesa, não havendo qualquer diferença real em
termos de mentalidade colonizadora - lembrando também os fatos da
Secessão na América do Norte, de modo que a plantation não foi apenas
característica da exploração portuguesa.
Para Buarque de Holanda trata-se porém apenas de culpar o
português como "raça" preguiçosa, pelo atraso do país que colonizou,
instituindo a mentalidade da emoção ao invés da razão. A meu ver essa
posição de Buarque de Holanda é distorção total da complexidade do
processo histórico brasileiro, e abstrai a vocação do trabalho que é tão
constante no português emigrado, independente de costumes comuns às nobrezas de
qualquer país.
Além disso, é importante observar que a propaganda que alguns fazem do período
da invasão holandesa algum tipo de melhor regime colonial que o
português, está contraditada pelo excelente estudo de Mario Neme
("Fórmulas políticas do Brasil holandês", São Paulo, Usp, 1971)).
Conforme Neme, "a história do Brasil Holandês está recheada de violências
físicas e perseguição contra ministros e moradores não-calvinistas por motivo
de religião; o governo de Nassau foi, de um lado, omisso na repressão dessas violências,
e, de outro, conivente com as perseguições" (texto da contracapa).
Especialmente a propaganda dos holandeses como tolerantes com os judeus
está desmentida por Neme, que mostra o anti-semitismo radical no curto período
dos holandeses no Brasil.
É espantoso como o investimento de gangs na mídia em fanatismos
religiosos e ideologia populista autoritária na universidade, a qual é
contrária a produção letrada do brasileiro honesto, tem produzido os
efeitos que Neme registra.
O reducionismo funcionalista - que chapa numa característica
única algo estereotipado como identidade nacional -
já foi criticados suficientemente por sociólogos.
Porém na circunscrição local, exercia-se a contrario do
conhecido mecanismo de estereotipar para o melhor a nossa e para o pior a
outra nacionalidade. Como alter-egologia, servia para recalcar a produção
teórica original nossa, limitando a oferta à cópia do que instituíam os
capazes, os inteligentes europeus, representados pela reprodução local feita
pelo alter-ego do centro, o acadêmico subvencionado pela política
identitária dos governos.
Essa utilização alter-egológica num contexto primitivista é algo bastante
paradoxal como se pode intuir, porém não menos inefetivo em termos de
instituição acadêmica. dada a constância formal da
nossa alter-egologia zoilista - lembrando que Zoilos são chamados
desde Aristóteles os críticos que visam apenas destruir - não há nisso o
que requeira ainda indagação dos mecanismos, não obstante o inquérito dos
resultados ser sempre mais necessário como documento da dominação cultural que
revelaria a verdadeira produção, a das vítimas silenciadas, e hoje em dia tais
resultados chegarem a ser muito mais assustadores.
Importante, ao invés, nesse plano teórico, é notar como a
inversão do inconsciente psicanalítico que teve seu apogeu no
pós-estruturalismo, enquanto redução da estrutura ao processo primário.,
===================
=
Tempo e História : a presença e a existência
A concepção da História em Heidegger está interligada ao ser
da presença. É a presença que importa à investigação. E se ao longo do
livro até aqui ela foi deslocada, da oposição kantiana
entre supra-sensível e natureza para a temporalidade invulgar como
seu modo próprio de ser, compreende-se a necessidade de uma meditação da
história, enquanto aquela ciência intrinsecamente relacionada ao
tempo culturalizado dos homens.
Porém, assim, o que Heidegger entende por história exclui de saída
aquilo que ele designou a "historiografia". Ora, como seria de se
esperar, Heidegger mesmo não poderia estar na verdade concebendo um significado
de história que nada tivesse a ver com a historiografia na acepção de ciência
histórica, uma vez que por outro lado estava pretendendo um conceito, isto é,
não o sentido vulgar de "história".
A meu ver, o resultado, expresso no trecho que trata da historicidade da
presença em Ser e Tempo, é um híbrido, não um conceito real, como
deveremos observar. E o problema é mais profundo do que se poderia
conjecturar mantendo a hierarquia que subordina a questão da história à
analítica da presença. O que se pode apreender, ao notar que um conceito de
história que não desrespeitasse o limite do invulgar como da ciência histórica,
teria que se a ver com a multiplicidade teórica inerente ao
campo epistêmico. A interligação biunívoca, armada a partir da
pressuposta unidade estrutural da presença, teria se tornado
questionável pela pluralidade do termo complementar.
Nesse ponto, cabe a interpolação sobre nosso próprio conceito de
História, somente relativamente ao qual estaremos posteriormente visando o
enunciado heideggeriano em Ser e tempo a propósito de “temporalidade e
historicidade .
= História e ciência
Na
modernidade, a História coalesceu como ciência. Constituindo um campo
epistêmico próprio, a multiplicidade metodológica que faz sua
própria história ao longo desses dois séculos não é porém um limite, posto o
qual não poderíamos pensar "a" História. Mas se esse problema da
multiplicidade é inerente a toda ciência interpelada em seu ser pelo senso
comum da definição, a reversão epistemológica que essa verdade do múltiplo
implicaria é posta pela História de um modo mais imediato.
Como já se tornou um adágio, há tantas histórias quanto
historiadores, tantas sociologias quanto sociólogos. Porém na história isso é
mais pertinente. A própria redefinição que implicou a ultrapassagem
do limiar de cientificização, e estabilizou a História como ciência,
implica o a priori do conceito do historiador que delimita um
processo dotado de sentido. A partir daqui, estabeleceremos algumas
considerações a propósito dessa revolução epistêmica que demarca nada
menos do que a ultrapassagem do mundo clássico e a entrada na
contemporaneidade.
Pensar em termos de História é extrapolar o campo do pensamento clássico, onde
o histórico, ao modo de Aristóteles ou Descartes, era o fortuito, o que não tinha
relação com o filosófico, o "ideal".
Para isso é necessário, por outro lado, que a História não
seja memória idealizada como folclore. Ela se torna ciência
desde Herder, quando se faz por estudos de documentos interpretáveis em
função de um processo conceituado sendo reconstituído. O processo
é um princípio científico porque, sendo um conceito proposto pelo
historiador, é teórico, está sendo demonstrado em suas
premissas assim como nos trâmites do seu desenvolvimento, podendo então
ser contraditada quanto à informação na base dos dados, ou
questionada quanto à informação conceitual por interpretação historiadora
alternativa. A história é pois campo teórico múltiplo e tratamento da
informação documental, não estereótipo de "tradição".
Se a metafísica coibia a história como episteme porque a
condenava ao fortuito, desconhecendo a conceptibilidade do
processo, aquilo que se praticou como história antes de se tornar ciência
desde o pré-romantismo, mas estabilizando-se com o Romanticismo, tem sido
designada a "história erudita". Era gênero que combinava o
"antiquário", simples recenseamento de dados ajuntados apenas por
serem "passado", com a narrativa moralizante, uma espécie literária
onde os acontecimentos só se colocavam para ilustrar um percurso ideal -
exemplarmente, a história cristã da queda e da redenção. A memória era
assim presa no dilema dos fatos humanos vistos por um pensamento clássico onde
só o supra-humano guarda sentido, o dilema entre o fortuito e
o possivelmente idealizada num destino mítico.
Porém a história como em geral a resenha de fatos, nasceu como se sabe na
Grécia, com Heródoto. Aqui devemos notar o quanto Heródoto está
relacionado à circunscrição da Polis como ambiente de recusa da homogeneidade
de valores aristocrática, sendo, inversamente, princípio democrático
de irredutibilidade do público e do privado, assim como de lei e
costume. Compreensivelmente, Aristóteles, sistematizando o ideário
aristocrático, foi o primeiro pensador a delimitar expressamente a
não-cientificidade da história herodotiana.
Hannah Arendt fracassa justamente nessa interpretação da história grega
como um derivativo do mito. A cena em que Ulisses ouve contar suas
aventuras por um outro personagem, ao contrário do que ela
expressa não é uma cena histórica no sentido aristotélico,
porque para Aristóteles a história ao modo herodotiano é justamente o
que qualquer um fez ou o que lhe aconteceu. Ao contrário, para ele o
que trata o mito é a concatenação ideal de um destino heroico, aquele que
expressa a ação sobrenatural do deus, por isso a representação dramatúrgica do
epos e sua recepção pela cidade sendo obrigação religiosa, e envolvendo a
catarse como o correlato do sentimento religioso - a comoção perante o
portentoso, o milagroso, o estranho, aquilo que acontece ao herói por causa da
intervenção impressionante do deus.
Qualquer coisa fortuita deixa de ser "verossímil" enquanto categoria
estético-dramatúrgica aristotélica. Não significa "verossimilhança",
na Poética, que os fatos sejam tal como na vida cotidiana e não
fantásticos, pelo contrário. Significa que a concatenação dos eventos nada
expressa de casual.
Enquanto ação cênica ou cromo épico verossímil, conforme o pensamento
aristotélico e clássico em geral, se alguém encontra outrem na rua não é
porque por acaso estavam andando na mesma rua. Mas porque, como deve ter ficado
explicitado na trama, um numem olímpico precisava que eles se encontrassem
para realizar algum objetivo igualmente sobrenatural que entretanto
determina o curso do mundo e o destino da raça. "Verossímil" em
Aristóteles é o contrário de fortuito ou casual.
A mesma cena, se não apresentasse a concatenação verossímil do destino
numênico ou necessidade, deixaria de ser estética e seria histórica em sentido
herodotiano - se realmente houvesse acontecido. Aristóteles não
considerava uma terceira possibilidade. Um enredo cênico
"sério", isto é, derivado do epos, que apenas
falhasse em explicitar a concatenação que ele pressupõe em seu plano
dramatúrgico, seria esteticamente condenável. A pressuposição é a
essência, o que define o texto como estético, isto é,
"Poético", em Aristóteles.
Os estilos narrativos que praticamos na modernidade não podem
portanto ser reduzidos aos valores classicistas, ou haveria inversão de
valores. Por isso entendemos porque Borges emprega o termo
"inverossímil" como título de uma de suas narrativas, embora
não trate nada de "fantástico", mas sim uma sequência de ações
perfeitamente possíveis no mundo real, apenas inteiramente fortuitas.
O
limite do fortuito mantinha a história pré-contemporânea, porém pós-herodotiana
desde o feudalismo em diante, como gênero mesclado ao literário,
aquilo que hoje se designa "história erudita" para
diferenciar da "científica". O gênero
implicava que o tratamento dos acontecimentos era apenas exemplar de um
juízo sobre a totalidade do sentido da humanidade. Esse juízo sendo,
geralmente, religioso ou moral. Ele apenas fazia como que a sublimação do
conceito aristotélico. Além do seu caráter exemplar, os acontecimentos
expressam apenas o jogo fortuito das paixões humanas na materialidade
irracional. O caráter exemplar é transcendente aos acontecimentos, está
estabelecido pela revelação religiosa ou pela razão em que coalesce a moral.
O limite do fortuito foi ultrapassado, portanto, não pela reconsideração dos
fatos empíricos como dotados de sentido por si só. O interesse
pelo conhecimento dos fatos por si mesmos precedeu efetivamente, ao
longo do Aufklaerung, o que seria a cientificização da história, como uma
proposta de racionalização do gênero. Mas não teria chegado
a ela, porque a mera inversão não desfaz o limite, e não há ciência
alguma do fortuito, somente do que tem um sentido intrínseco.
Estabelecer Herder como o marco da cientificização da história,
aquele que culturalizou os fatos a partir da língua como da nacionalidade, e
assim dotou-os de sentido como pertinentes a um processo conceituável,
parece-me suficiente para demarcar a verdadeira transformação necessária. A
partir de Herder, os historiadores passam à multiplicidade de processos
conceituáveis assim como de metodologias pertinentes da pesquisa; no limite, às
questões gerais sobre o sentido da ciência e da ação humana. E com o
recente locus da pós-modernidade, está havendo uma reconsideração da história
em função de sua "grafia", de sua elaboração e informação como
texto.
Em
função da ruptura do conceito a partir de Herder, temos que
acontecimentos quaisquer não são histórico-científicos. Eles se tornam, quando
são selecionados da trama quase-infinita dos fatos comezinhos enredados na comunidade
da memória, por se concatenarem a um processo conceituado cuja trajetória está
sendo pesquisada na arqueologia e interpretação dos documentos, de modo a
poder existir a demonstração do sentido daquilo que foi proposto
conceitualmente em termos da significação que os une.
Assim também "história" como ciência não é "memória"
como comunizada a partir de algum resíduo comum às lembranças de pessoas
empíricas sobre algum tempo e lugar. A "história" não
é o mundo mesmo em que essas pessoas viveram como esse tempo e
lugar outros relativamente ao presente historiador. Pois, a própria
significação do processo histórico, sendo conceituada, é
apenas um juízo sobre algo naquele mundo, juízo este
que só pode estar sendo emitido numa trama ela mesma histórica
do presente epistêmico e político.
Este é um ponto que os que viveram a transformação da época, os
românticos, enfatizaram bastante, o mais das vezes pronunciando-se sobre
história da arte. Um juízo histórico de hoje sobre determinado processo
passado provavelmente estará em desacordo com juízos que serão feitos
futuramente sobre o mesmo referencial documentado. Porque até
mesmo a heurística da pesquisa terá mudado.
Nessa época sentia-se agudamente os efeitos de uma
transformação exatamente assim, que estava ocorrendo a propósito da
arte e cultura greco-antigas. A Grécia estava sendo separada de
Roma, enquanto a cultura "clássica" como os considerados
eternos e universais modelos "greco-romanos" foram o
referencial de todo classicismo desde o Renascimento.
A
trajetória da reconstituição da Grécia antiga autônoma prossegue desde aí, com
um ponto alto no escrito de Nietzsche que só vai
ter similar em Heidegger. Vemos novamente que o importante é a
transformação conceitual, ao invés do apenas acúmulo de
informações. Na origem romântica da transformação conceitual, o novo
a priori histórico da língua nacional tornava tanto a eternidade e
universalidade de qualquer modelo, como a concepção do que a Grécia deveria ter
sido enquanto um entorno histórico-nacional definido, tornavam o
classicismo obsoleto.
Nascia nessa época a própria noção do que hoje designamos subculturas, como
estilos históricos coexistindo no seio de um processo nacional e
definindo-o. O exemplo referencial é o de W. Schlegel, a propósito do
processo de formação das línguas nacionais europeias, a partir da miscigenação
cristã das culturas bárbara e latina, originando a nacionalidade
como a efetividade de subculturas - estéticas, principalmente. Por onde o
folclorismo, medievalismo, etc., que norteou as primeiras pesquisas das
nascentes "geistwissenchaften" (ciências humanas), conforme a
concepção da cultura como estilos, linguagens - a exemplo das populares em sua
heterogeneidade à letrada classicista. Por onde a revolução estética
romanticista de que Shubert e Tchaikoviski seriam a metonímia.
Mas também algo que voltou a ser importante na época de Heidegger, a saber, a
consciência do que Schlegel designou a duplicidade de toda cultura europeia,
entre as origens grega e cristã. Na época de Heidegger, essa duplicidade voltou
a ser tematizada com uma modulação do cristianismo, para abranger ele mesmo a
sua duplicidade relativa ao judaísmo - então temas candentes, por exemplo na
filosofia de Benjamin.
Entre o Romantismo e a época de Heidegger, o positivismo implementou a
redução sociológico-determinista da história. Assim como a nacionalidade - o
processo de consolidação do Estado de direitos civis e da subjetividade
pensável - se tornou quimera perante o que foram considerados os verdadeiros
processos, novamente universais porém materiais, como a luta de classes, o
ethos científico, etc. Isso a partir do darwinismo.
O retorno da cultura - reduzida pelo positivismo a ideologia - desde
o Simbolismo em diante porém não foi um retorno da nacionalidade romanticista e
pós-kantiana, enquanto do mesmo modo que a cultura heterogênea em devir,
o processo único da legalidade civil; mas sim o não-miscigenado modelo da totalidade
identitária de cada "comunidade" nacional, à luz do
neocolonialismo e da então nova antropologia funcionalista.
Algo de modo nenhum estranho ao mito ariano que lastreou o
nazismo.
Na diferenciação de Romantismo e Funcionalismo, é importante apreender a
mutação do sujeito pensável, entre a origem e o retorno. Na origem
romanticista, o Eu é fato primitivo, originário, universal porém a ser moldado
como subjetividade efetiva na cultura. Os fenômenos da morbidez psíquica,
de passionalidade obsessiva e embriaguez são provas da existência a
priori do Eu. Mas não explicados em si mesmos além de
teorias que diversamente definem a concepção geral acerca
da existência de um duplo da vida consciente.
O retorno após o positivismo lida com um Eu produzido pelo processo
inconsciente elaborando-se ao longo dos três primeiros anos de vida, e
mesmo assim o processo só realiza a efetividade da autoconsciência
individualizada na decorrência da sociedade civilizada, isto é,
moderno-ocidental, desenvolvida como industrial-científica. Os fenômenos de
morbidez psíquica, passionalidade obsessiva ou embriaguez são definidos
como fixação em fases específicas do processo inconsciente infantil.
Assim são explicados em si mesmos por uma psicopatologia
estabilizada como ciência. A qual serve de lastro ao sócio-evolucionismo
funcional, que transforma a primeira versão positivista do biologismo
darwinista numa teoria da cultura, como do desenvolvimento do primitivo ao
civilizado, em homologia com a sucessão das mesmas fases.
A consideração dessa oposição é importante, pois todo o cenário influenciado
pelo próprio funcionalismo tendeu a confusão deste com apenas continuidade
das premissas românticas que haviam sido interrompidas pelo positivismo.
Ao contrário do que essa interpretação postula, o romantismo
não opera com a oposição de "cultura" (qualquer) e
"civilização"(científica-industrial) típica do funcionalismo como
crítica humanista da ciência positivista. O romantismo jamais antecipou o
"objetivismo" positivista na sua formulação de ciência, nem
realmente poderia tê-lo feito já que suas rupturas foram
feitas precedentemente a Darwin e na ambiência do lamarckismo. Ele operou
sempre o grande relato da subjetivação da natureza, como na explicação
de Hegel da articulação progressiva das ciências naturais às
humanas. Portanto, inversamente ao que se pode ler no manual de sociologia
de Cuvillier, a mencionada oposição não é atitude tipicamente
"romântica".
O importante do ponto de vista da filosofia seria notar que desde o Romantismo,
a autonomização das ciências relativamente à metafísica foi consolidada como
fato cultural, porém significando a transformação da filosofia: o Real
pensável tornara-se o correlato da informação científica.
Assim, enquanto até aqui desde a consolidação metafísica do feudalismo em
diante, qualquer "saber" era o correlato da ontologia, como um ramo
de sua explicação totalizante do mundo, desde o romantismo ocorre inversamente
que as ciências fornecem a informação da realidade objetiva assim
como a relação possível com a objetividade.
A
modulação da duplicidade romanticista de grego e cristão, por um relevo mais
explícito do bárbaro e do judeu, que como vimos tem lugar na época de
Heidegger, é o que vamos reencontrar, na trajetória da
fenomenologia-hermenêutica ou existencialismo, num contexto mais
recente. Aquele de Emanuel Levinas, que devemos tangenciar a partir da
leitura de Derrida - que é uma leitura crítica expressamente
heideggeriana.
Levinas assinala-se como uma ultrapassagem no interior do que considerou a
história da linguistic turn existencialista até aí, a partir de sua
transposição do a priori ao "outro". Essa ultrapassagem, contudo, não
foi aceita por Derrida que a considerou indemonstrável naquele ponto em que
Levinas devia consolidá-la justamente em relação ao pensamento do Ser, isto
é, em Heidegger. O mérito dessa questão é o que examinaremos agora, e nele
o problema da história, e de sua relação com o existencialismo em geral
e Heidegger em particular, se explicitou ao máximo.
Proponho a partir daqui uma revisão de "Violência e Metafísica", o
texto de Derrida sobre Levinas em "A escritura e a diferença". Como
esse texto aporta a uma extensa defesa de Heidegger por Derrida,
defesa que expressa a interpretação deste da questão do Ser e em seu bojo
a problemática da história, nossa revisão será propedêutica à apreciação do
tema respectivo em Ser e Tempo. Mas também ensejando aportes
da consideração que está por ser feita das posições derridiana e
levisiana.
= Entre
a Metafísica do Outro e o Pensamento do Ser
1) O inencetável
O estudo de Derrida sobre Levinas se introduz com
uma epígrafe a propósito da duplicidade de hebraísmo – aqui na acepção
lata de um pensamento filosófico que se relaciona a letra da Torá – e helenismo (op. cit. p. 111). Duplicidade
agora referenciada não somente como a ambiguidade da
cultura europeia. Mas sim como a ambiguidade entre dois pontos entre os
quais move-se o mundo. Um mundo cujo movimento traduz apenas a sua
fantasia de imobilidade, como de calmo equilíbrio entre ambos.
A epígrafe é estratégica a uma oposição a ser laboriosamente construída, do
judaísmo de Levinas ao grecismo de Heidegger. Porém naquilo que seria a
evolução de Heidegger ao próprio Derrida, ela enunciaria a
recusa do comunitarismo, recusa que a meu ver de fato
não estava muito no espírito de Heidegger. O cosmopolitismo
derridiano é, portanto, de alguma espécie sui generis, não redutível
aquele já conhecido que se deixa traduzir na diferenciação de
natureza como o universal e cultura como o particular. Isso é o que
se há de inferir, contudo, ao longo do nosso exame da defesa derridiana do
Ser, ao invés de algo explicitado.
O inencetável, aquilo que não se pode encetar, ter como propósito ou como
empreendimento, enuncia, nesse início, a ironia da comunidade que só
podemos compreender pela diferença na história. Se há uma impossibilidade
no inencetável, ela está só de um dos lados da diferença, não no outro.
Há, pois, uma história que é "segundo a totalidade do questionado,
segundo a totalidade do sendo, dos objetos e das determinações", e
segundo a qual "o impossível [já] aconteceu." Há, por outro
lado, uma outra história: "uma história da pergunta, uma memória pura
da pergunta pura", que seria originária de toda herança
ou memória puras "em geral e como tal". (p. 112)
Os dois lados da história são dispostos, como se vê, pelo fio,
gume ou corte, de uma pergunta. Por um lado, a
pergunta, seja qual for, conduz apenas a uma impossibilidade, é ela mesma
impossível. Por outro lado, na outra história, a pergunta é o que já aconteceu,
não cessa de acontecer e está acontecendo na decisão de meditar sobre o
que assim faz presentemente o texto.
O enunciado exato da pergunta está disperso na forma da meditação dos primeiros
parágrafos, a propósito de um acontecimento que ao mesmo tempo
já ocorreu mas não cessa de renovar-se. Aquele da ambiguidade entre todas as
constatações sucessivas do fim da filosofia e todos os seus
renascimentos na forma do assim designado "pensamento". Nessa
meditação já está antecipada a sorte do "outro" levisiano
relativamente ao Ser heideggeriano.
O "sendo" - tradução alternativa do "ente" como
diverso do Ser - é o que depois veremos como aquilo que Levinas quer
resgatar da subordinação que Heidegger lhe impôs ao Ser. Aqui o sendo está
já disposto por Derrida do lado errado das coisas, aquele que as emposta
como suficiente razão de coisas. O fim da filosofia como porvir ou tarefa do
pensamento, é obviamente o enunciado heideggeriano mais conspícuo. E nele,
o fato estranho de que esse futuro do pensamento a partir do que já
não é nem pode ser filosofia, "esteja todo ele por vir a partir daquilo
que ainda se reservava na filosofia" - seja o que for que
aqui quer dizer "reservar": guardar ou recusar.
Tudo isso, cada um desses tópicos, aparece posto como correlato de uma
indagação por si mesma, em torno da possibilidade. Assim
indagação multiplicada, sugerindo alguma primeira, um núcleo, que
permanece porém imperceptível. De fato esse núcleo seria a dúvida
entre continuidade ou fim da filosofia, mas sobre a continuidade a dúvida só
nasce se tiver havido um fim. Além disso, a todas essas perguntas - se houve o
fim da filosofia, se do fim se fez uma continuidade, se essa continuidade
tendo-se feito é como um novo no tempo qualquer de um
renascimento ou se a filosofia "sempre tenha vivido de saber-se
moribunda" (p. 111), se independente de tudo isso, o pensamento que
deve ter vindo depois da filosofia é futuro como o após da
filosofia, ou está no futuro como o que virá a ser a partir do que
ainda é "reserva" filosófica, e, portanto, se o porvir tem ele
mesmo um porvir - todas essas perguntas ora são negadas como o que a filosofia
jamais poderá responder, o seu impossível. Ora não são em si mesmas,
possivelmente, filosóficas. Ora são reservadas como perguntas tais como "as
únicas a poder hoje fundar a comunidade do que, no mundo, ainda chamamos
de filósofos." (p. 112)
A comunidade vai, portanto, ter como sua base o corte que parte a história
em duas, a base produzindo-se como o inencetável e como memória pura da
reserva, do que permite o terceiro modo, como algum modo de se
colocar as perguntas, ainda, do lado de dentro da
filosofia naquilo que seria a ordem da irreversibilidade no
tempo. A comunidade da ironia, como podemos designar,
é o que Derrida chama "a comunidade da pergunta sobre a
possibilidade da pergunta", unificando nesta o que porém como
vimos é apenas enunciado na forma dispersa das nossas várias perguntas.
Aquilo que já aconteceu como essa unificação, e a comunidade em torno dela, não
tem ainda uma linguagem que a enuncie de um modo a
impossibilitar a ameaça de uma resposta, "a hipocrisia de uma resposta"
que "já se tenha convidado sob a máscara da pergunta", na sua
sintaxe de indagação. Nessa frase, que antecede o
corte duplicador, que antecede, pois, a impossibilidade e o enunciado do
inencetável como da responsabilidade e do dever inerentes à decisão do
perguntar, a pergunta foi, como vemos, reduzida a máscara. Há algo
mais, que ela somente disfarça. Derrida continua porém procedendo
como se a pergunta fosse tudo, aquilo que instaura o rastro da outra história,
da memória pura como de tudo o que, para além dos fatos, importa.
Na verdade a pergunta que assoma aqui, depois do corte e após todas
as perguntas que estabeleceram como disfarce - e só nessa
condição - uma comunidade, é do mesmo modo um paradoxo: "Por
que inencetável? Porque o impossível já aconteceu". O paradoxo
do não empreendível derivado do já empreendido quer evidentemente alguma
coisa: evitar que todo o trabalho do negativo que escavou o texto até aqui e
inclusive no paradoxo afinal explicitado como tal,
seja identificado por qualquer conceito preexistente: epoké,
maiêutica, dúvida, negação.
A memória pura deve, ao contrário, liberar uma "disciplina da
pergunta" que antecederia toda "tradição" na
qual esses conceitos vieram a se enunciar. Ora,
a ironia é um corpo estranho nesse rol em que sem dificuldade
inscreveríamos Husserl, Sócrates, Descartes e Hegel. Podemos seguramente
reduzi-la a uma repetição do comparecimento de Sócrates na lista? Não creio, e
a meu ver Derrida nisso está sintomaticamente evitando o
que visa o seu movimento introdutório. Nomear pelo seu contrário aquilo
que assim melhor se faz definir como tal, e então caberia perfeitamente
a menção à máscara. O movimento que escava o pleno, que se encarrega
de fabricar um vazio, por onde a conveniência do gênero de
indagação suspensiva da assertiva como forma de qualquer
resposta, na verdade como vimos está apenas a instaurar uma posição
já perfeitamente definida.
A ironia é uma arte romântica. Ela assume a história dos fatos, por trás
de que está porém o embate da cultura com o gênio como a
subjetividade irrepetível, única. A alienação da singularidade na história dos
fatos é o que a ironia inscreve na forma sábia desse riso estético, como
quando após a peça o autor deve vir mostrar-se desmentindo que se
tratou de algo além do construído pela conjunção de estilo e engenho, ainda que
devesse comover a plateia até o fundo da alma, até a mais sincera
lágrima.
A vontade já não é kantiana, um supra-sensível como liberdade inatural que
porém apenas repete o universal da lei. Ela é a matéria fluente que
virá moldar a necessidade, e sobretudo a necessidade de se vir a ter uma lei.
Uma história só pode ser contada ao contrário do seu
estofo, como de sua matéria. Ela não expressa o que se quis mas o que se
fez e o que nos aconteceu. Não o que se era mas o que se veio a ser. O
romantismo não vê nisso a culpa de algo ou alguém. Ele é assim mais adulto que
o funcionalismo contra-"objetivista". A ironia nunca perde o Real.
Se Derrida a coloca na lacuna da máscara, por assim expressar, ele
retorna ao tema kantiano da "liberdade" - a liberdade do falar
como da pergunta que, como vimos, contudo recobre apenas a afirmação mais
plena da filosofia como movimento que não se pode deter, em torno de si
mesma como do seu possível, emblemático de todo possível em geral e o da
liberdade em particular, e, assim, da " filosofia como momento e modo
determinados - finitos ou mortais - da própria pergunta". (p. 113). A
decisão torna-se comprometimento na "correspondência da
pergunta com ela mesma"; sua máscara, as respostas sucessivas da
história da filosofia, que somente uma hermenêutica viria a escavar para recuperar
a "pureza" vazia da pergunta, a "memória", etc.
Com o que a máscara sobre a ironia se mascarou como
apenas "diferença entre a filosofia como poder ou aventura da própria
pergunta e a filosofia como acontecimento ou guinada determinados na
aventura" dos seus sucessivos lances ou conceitos.
Para Derrida, o fato dessa diferença ser hoje
mais pensada do que nunca, parecerá um fato inessencial ao "historiador
dos fatos, das técnicas e das ideias", esse que não importa ao
historiador da memória uma vez que não se importaria nunca com o possível
haver dela. Escaparia assim ao desimportante "a
característica mais profundamente inscrita de nossa época" - como
se nunca se houvesse levantado explicitamente a questão do pensamento, a
pergunta acerca do seu possível enquanto enunciado do não-saber de
antemão do seu significado. Mas não sabemos ainda o que é uma
"época", essa que está sendo atribuída como a nossa. Vejamos o que
informa o texto. Que a diferença que está sendo pensada se
traduz na tarefa da qual se encarregou o "pensamento" do,
ou no, fim da filosofia, de "requerer-lhe incessantemente a origem
e fazer rigorosamente esforços para conservar-se o mais próximo dela", tarefa
cuja explicitação reúne como seus dois mais proeminentes executores, as
"duas grandes vozes" de Husserl e de Heidegger. (p. 114)
É certamente a única coisa que a ambos aproxima, porém
ainda assim o faz, e, portanto, pode-se concluir: a) eis o que "não
significa balbuciarmos e aninharmo-nos preguiçosamente no colo da
infância. Mas exatamente o contrário"; b) mas, sim, significa uma
"incoerência" e uma "hesitação" que não devem
ser de algum modo explicadas, isto é, que não chegarão a ser o
correlato de uma filosofia; e entre as quais se moverá o exame derridiano
do pensamento de Levinas. Isto é, renunciando à escolha entre "totalidade
e infinito", segundo o título da grande obra de
Levinas, como entre o pró ou o contra um
pensamento, um devir de certas obras: "... não
serão de forma alguma objeções. Serão nada mais que as questões que nos
são levantadas por Lévinas". (p. 119)
Derrida
tenta em "a" proteger-se, e em "b" manter a máscara
do caminho aberto da memória pura escavada pelo movimento da
pergunta, tomando o partido da não-escolha como da
"hesitação". Lembrando porém que a infantilidade de um
sintoma não é nada parecido com a lassidão inativa de uma preguiça, mas,
bem inversamente, com o labor intenso da dissimulação, notamos que
o texto fará o contrário de renunciar ao juízo. Derrida aportará,
repetindo, a uma veemente recusa da superação levisiana do Ser,
pretendendo demonstrar como se trata de empreendimento de todo incoerente,
propriamente impossível a partir do que significa pensar, de modo que Levinas
deva ser reduzido à contradição consigo mesmo.
Ora, o caminho do mascaramento da máscara, por onde se garante a reiteração do
vazio, é percorrido pela consideração da unidade epocal definida na
conjunção de Husserl e Heidegger via Derrida, isto é, inteiramente na
grecidade. Três temas são assim especificados como o mapa dessa
articulação husserl-heideggeriana da época como da atualidade do
pensamento, uma atualidade definida como o "momento em que a
conceitualiddae fundamental resultante da aventura greco-europeia está se
apoderando de toda a humanidade".
Os
temas são os seguintes: a) não há filosofia - logo, nem pensamento algum
- fora da grecidade, daquilo que foi instaurado na origem grega; b) o que
a grecidade instaura não é uma verdade ou uma regra do pensamento como
forma da filosofia, mas um movimento transgressivo, uma crítica perene da
história da filosofia, que na atualidade vem a se enunciar como crítica da
metafísica; c) o que ultrapassa a metafísica pela crítica, vem a ser
"a categoria da ética" que a crítica deve
superordenar como decorrência de algo mais fundamental do que a metafísica
e anterior a ela, de modo que se esse algo a ser descoberto for depois de o ter
sido, perdido no horizonte da origem, então " a lei, o poder de
resolução e a relação com o outro" perdem sua especificidade
ética. (p. 115)
E é esse mapa da grecidade, como ao seu território, o pensável em si - com que
a essa altura Derrida está tão identificado que reutiliza o sujeito
plural - que o pensamento de Levinas "nos faria tremer".
(p. 116) Pensamento temível, que instaura um outro situamento,
e o do todo "outro", no reverso de cada um dos temas.
É do
interior da grecidade, como da língua filosófica que ele apela ao deslocamento
do lugar: ao não-grego ou ao sem-relação com o grego, à ruptura com a tradição
filosófica do transcendental e da ontologia, com o fascínio pela "face
do ser que se mostra na guerra" e "fixa-se no conceito de
totalidade", segundo os termos do próprio Levinas. (p. 117)
Ele não se explicita propriamente como uma crítica, nem como uma
regra, mas sim como "metafísica", a única que teria se
purgado da "totalidade da tradição vinda de Aristóteles".
Ele não explicita o novo lugar como hebraísmo, porém inspira-se
numa "escatologia messiânica" que a despeito
de Husserl e Heidegger, seria a única possibilidade de uma fundamentação
realmente restrita como ética porque recusando
todo transcendental, é fundamento na própria experiência. Aí onde se
há ética é porque há o irredutivelmente outro, o que
interrompe o pensamento em Si mesmo. Interrompendo a
violência do pensamento que fechando a abertura do outro na, e como a,
experiência, instaura a imersão do Si em si mesmo, impediria toda
violência. Não explicitado como hebraísmo, mas em seguida assim reduzido
por Derrida que ato contínuo passa a trata-lo desse jeito na requerida oposição
ao helenismo, ao contrário do que se segue imediatamente como suspensão do
juízo - obviamente uma epoké - veremos o texto proceder a inversão do
pretendido pela "experiência".
Derrida reenunciará a, e reencenará os atos do drama do enunciado da, objeção
transcendental de que algo qualquer posto tem que ser primeiro
pensável; o todo outro não nasce senão no pensamento. Porém aquilo
que faria dessa proposição alguma coisa interessante, na medida que não sabemos
ainda o que significa pensar e assim pode ser que no pensamento a oposição
do mesmo e do outro não subsista, não chega a acontecer. A
"presença" é outra relativamente à entidade, uma vez que o Ser é
outro relativamente a todo "sendo".
O enunciado derridiano da diferença ontológica heideggeriana, corresponde
primeiro ao movimento de solvência das oposições, contudo sem
chegar a solver-se a si mesma. Na parte final do texto, quando se
trata de decisivamente contrapor-se à pretensão de Lévinas, Derrida fará ver
que ao contrário do que este pensara, do Ser heideggeriano devem ser negados os
seguintes atributos: truísmo; judicativo; sujeito ou predicado; predicável;
princípio ou arké; principal; teoria, filosofia, ontologia, metafísica; ética;
neutro; impessoal; superior ou acima do sendo; ao lado do sendo; relativo ao
sendo; distinto do sendo; metáfora; categoria; conceito.
E devem ser afirmados os seguintes atributos: verdade anterior ao, ou
possibilidade do, julgamento; transcendental; raiz comum da essência e da
existência; anônimo; "deixar ser" outro; metaforicidade.
Na
esteira da demonstração contra-levisiana de cada um desses atributos
negados ou afirmados do Ser heideggeriano, Derrida chegará a insurgir-se também
contra Nietzche por uma vez irmanável a Renan. A batalha cerrar-se-á na
kantianíssima oposição do transcendental à experiência.
Mas será mesmo verdade que Levinas é o pensador da experiência?
2) O Encetamento
Levinas
começou como introdutor de Husserl na França, em 1930. A relação com Husserl
serve a Levinas, segundo Derrida, como pretexto ao seu juízo do ser toda da
tradição.
A meu ver esse fio da totalidade é o desejo que Derrida persegue em seu
tratamento da obra levisiana. Ele é cuidadoso com a progressão dos títulos e a
nuance das atitudes que mudam, ao invés da tipicidade da grande obra, mas isso
apenas para espelhar a montagem da máquina, o artifício das peças.
A contradição do desejo, isto pelo que ele existe subvertendo a função, vem
inscrito na boa intenção das origens. Ele visa ao abandono da tradição
teorética cuja essência seria "esclarecimento", filosofia da luzes,
e, seguindo uma curva nada tradicional, mas pelo contrário inaugurando-a, deve
reduzi-la como empirismo objetivista ao que até aí e para si considerava-se o
seu antípoda metafísico-platônico.
Igualando-os, o gesto levisiano já poderia ter sido qualificado contrário à
interpretação histórica de Husserl, tal como este a tornará explícita cinco
anos mais tarde, nas conferências da Krisis.
Aqui, Husserl mantem Galileu como o que poderíamos designar o pai do moderno
empirismo, enunciado como ruptura real da tradição pensante desde a Grécia,
unificável esta porque o próprio sentido da unificação no pensamento, o
estatuto do seu acesso à civilização. Conforme Gorman ("A visão dual,
Rio de Janeiro, Zahar, 1979, p. 36), "O ideal de um conhecimento
universal baseado na razão" seria irredutível para o Huserl da krisis,
a "um corpo restrito de conhecimentos. É o laço que une os
seres humanos uns aos outros e ao universo".
A autonomia da objetividade fenomênica é o que Galileu teria realizado como
laceramento da mente civilizada, que Husserl, segundo Gorman, reduz
inteiramente a uma razão teológica seja grega ou cristã. A unidade do pensar é
para Husserl, Deus, ideal supra-ordenador da ciência mas não redutível ao seu
fazer, portanto não separando episteme e moral como laço ético. Galileu é
principalmente culpado, segundo o Husserl da Krisis, da decadência ética do
Ocidente, isto é, do nazismo, a que responde o motivo das conferências.
Versão bem questionável da história, sem dúvida, pois nem o nazismo não era
profundamente tradicionalista e totalitário, nem obviamente se poderia creditar
originalidade de civilização à Europa apenas por apresentar mentalidade
religiosa. Além disso, é duvidoso que seja a unidade que os gregos e cristãos
pensassem, se aquilo que Galileu inclui na ciência era o que eles descartavam
da razão como nomeadamente o devir.
Em todo caso, em 1930 Levinas inverte o que será ainda a explanação de
Husserl em 35, para alinhar num mesmo princípio a luz possibilitadora da
contemplação platônica e a objetividade pura da ciência empírica. Aí,
conforme Derrida, instala ele sua "reticência" relativamente à
obra husserliana que vinha apresentar. Porém a plena recusa seria uma
contradição demasiado explícita, a finalidade da apresentação não sendo
o comentário ligeiro.
Derrida
atravessa a mediação levisiana de Husserl e a tradição, nesse pondo. A recusa
do esclarecimento, como do que unifica sem ruptura e negativamente a totalidade
da tradição em que Husserl está necessariamente incluso, esbarra em três
obstáculos. Recusar a luz para desacreditar da necessidade do objeto como
determinante do pensar reduzido a correlativo deixa o problema de qualquer
enunciado que o corrija como um esclarecimento. O sol platônico, metáfora
do bem além do ser, que Levinas conceitua "ex-cendência", é então ao
mesmo tempo que o escuro como avesso da objetificação, o símbolo levisiano
da instalação própria ao pensamento. E sendo a escuridão o lugar da não-coisa
em que se encontra, ao invés, outrem, seria inviável apresentar Husserl
como quem jamais o estabeleceu.
O
filósofo da consciência pura parece a Levinas nesse início, resistente à
acusação da objetividade pura - que aqui seria importante notar ter sido
feita justamente por Gorman. A contradição de sua interioridade à tradição
se expressa numa discussão do estatuto do não-teórico na região inaugurada pela
meditação husserliana dos atos de valorização que constituem o objeto apenas axiológico,
enquanto a intencionalidade visa não a exterioridade na restrição do pensar à
relação sujeito-objeto, mas o mundo da consciência constitutivo da
temporalidade, e, mesmo da exterioridade não-objetiva como da alteridade.
Contudo, reunidas a reticência e a hesitação, esta sempre salvará
o espírito pré-objetivo da intencionalidade husserliana, mas é aquela
que determinará o caminho, encetando-o qua levisiano na via da ruptura.
O objetivo e o teórico ganham da sugestão pré-objetiva e axiológica, na
interpretação de Levinas da obra de Husserl.
Conforme Derrida, ainda na altura dos anos trinta, ao aliar-se a Heidegger
contra Husserl, Levinas posiciona do seguinte modo as críticas heideggerianas.
Husserl colocou a percepção antes do objeto epistêmico, certamente, porém
subordinando-o a ele, e, além disso, seria preciso questionar o primado do
olhar visando o "campo da atividade" ou "solicitude",
nas palavras de Levinas (op. cit. p. 124). Mas também quanto ao
homem, Husserl teria errado ao situar a consciência independente da história.
Ao ver de Levinas, é "essa estrutura" da historicidade e
temporalidade, "que ocupa lugar tão importante no pensamento de um
Heidegger." (p. 125).
Desde aqui, Derrida complementa a lista dos desconfortos a que um tal
pensamento se devotaria mais tarde, tendo-a iniciado pouco antes. (p.
123). Levinas recusa a atitude teórica de que acusa Husserl e é nesse
ponto que declara sua ruptura para com o neocartesianismo deste.
Na citação de Derrida: "Se o mundo existente, que nos é revelado, tem o
modo de existência do objeto que se oferece ao
olhar teórico", se "o mundo real" está assim reduzido
ao "mundo do conhecimento", e este é um "modo de vida"
eminente relativamente a todos os demais, Levinas declara ser preciso
"separar-nos disso".
Porém, conforme Derrida, o desconforto ulterior que cerca esse pensamento é
previsível já aí, pois "recusando a excelência da racionalidade
teorética" ele "jamais cessará, no entanto, de recorrer ao
racionalismo e ao universalismo mais desarraigados contra as violências
da mística e da história, contra o arrebatamento do entusiasmo e do
êxtase" (123, 4). Porém esse desconforto, onde o reconhecemos? Ao menos
aqui está ausente a contradição. Já que à frente Derrida comentará
novamente sobre isso, que o desconforto se deve a algo outro.
Sem mencionar agora a tensão entre recusa do teoretismo e afirmação
do racionalismo, o desconforto é de um pensador entre Husserl e Heidegger - criticando
um no estilo do outro, mas para mandar todos os dois passear, ou, conforme
Derrida, "para os bastidores como compadres no 'jogo do Mesmo' e cúmplices
no mesmo golpe de força histórico-filosófico...". Ora, aqui vemos apenas
Levinas definir-se bem à vontade em sua atitude crítica. Quando ele recusa o
idealismo e a filosofia da subjetividade solipsista, é porque esse é o
"logos de ninguém" - a meu ver, sendo irredutível essa colocação ao
que Heidegger já poderia ter feito contra Husserl. Pois o que está em questão é
o "trajeto da fala", sempre "em direção ao outro", de
modo que o logos é incompreensível por ser irredutível ao significado da
ipseidade de uma fala - nenhuma fala é anterior ao seu trajeto. Porém, conforme
Derrida, "essa incompreensibilidade, essa ruptura do logos" está
liberta do irracionalismo. Ela é apenas "ferida ou inspiração"
que desencadeia a fala "e a torna em seguida possível". Para
Derrida contudo, essa intotalidade é contudo ainda totalização: "Um logos
total deveria ainda, para ser logos, deixar-se oferecer ao outro para além de
sua própria totalidade". Ora, em todo caso, Levinas está de fato
criticando Heidegger e instalando a ética antes da ontologia, porque se uma
ontologia da compreensão - como do Ser - foi possível, deve-se isso à
preexistência da fala endereçada, e a compreensão "já se diz do
sendo" que retorna por trás do tema em que o dizer a outrem se oferece. E
é "essa relação com Outrem como interlocutor, essa relação com um
senso" que "precede toda ontologia.". Mas assim, arché e telos,
antes de tudo e depois de tudo, essa relação ética que precede a ontologia é a
metafísica: "A ontologia supõe a metafísica.". Ou na citação de
Lévinas: "Ao desvalamento do ser em geral, como base do conhecimento e
como sentido do ser, preexiste a relação com o sendo que se exprime: ao plano
da ontologia, o plano ético". Ajunta Derrida: "A ética é,
portanto, a metafísica", e retornando a palavra de Lévinas: "A moral
não é um ramo da filosofia, mas a filosofia primeira". A ontologia como totalidade
e unidade do mesmo ou ser, se extravasa absolutamente pelo outro que produz-se
como infinito", o que nenhuma totalidade pode abarcar. (p.
140).
À teoria, o que Levinas confrontará é a metafísica do infinitamente-outro.
Portanto, a acusação do caráter a-histórico da intencionalidade se reverte
nesse aquém de si, que é a "escatologia" levisiana como
"além" que subtrai os seres à jurisdição da História.
E
o que havia de resgatável no caráter interno da intencionalidade, na
acepção de não-objetivo como mundo da consciência, torna-se agora "complexidade
da objetividade teórica e da comunhão mística", como unidade
pré-metafísica de uma única e mesma violência. Aquela do "aprisionamento
do outro", este que é "exterioridade absoluta",
rumo ao qual, por não poder sair de si, o teoretismo cego não pode ir. (p.
124).
A meu ver aqui seria preciso interrogar o movimento da contradição em Levinas.
Até que ponto ele é latente, não consciente; ou, pelo contrário, desejado como esse
efeito ambíguo do estilo existencialista - porque de fato, a decisão entre
sujeito e objeto nunca é feita, e já se o constata, se o infinitamente-outro é "mais
objetivo que a objetividade". Ou seja, o pecado capital de Husserl não
será exconjurado nem em Sartre ou Heidegger - ao contrário da divisão que fazia
ainda Gorman.
É o drama de um apagamento, perda do Real, negação do ver na progressão da
perplexidade que vem desde o século XIX, impedindo a razão unitária kantiana
por uma ciência que só revela-se antinômica a ela. Tema de Boutroux a Cournot,
de Nietzsche a Vaihinger, Hanekin e tantos pensadores que propõe alternativas -
a multiplicidade do real e acessos de apreensão, a redução da ciência à vontade
de potência, ao espírito, etc. Porém a objetividade matemática do maior puzzle
que ainda estava por vir, a mecânica quântica e a relatividade, de certo modo
impede também esses recursos, como Bréhier observou nessa altura dos anos
trinta em que ele completava a sua "história".
O retorno
da metafísica pela idealização culturalista do evolucionismo foi algo
muito comum e de modo nenhum originalidade bergsoniana. Retorno
que a meu ver trai a fraqueza de uma geração nova que fracassa na condução da tarefa
epistemológica de interpretação dessa cisão incontornável da
"razão" e da ciência, e apenas pode recusá-la. A
metafísica desse novo tempo se limita a repetição nua da refutada unidade do
ser.
E a recusa vai ser, primeiro, da objetividade da história, como acima fiz
alusão em Heidegger. A historicidade da presença não é alguma
"grafia" possível. Derrida não se detém nessa incompatibilidade do
Ser à efetividade e ao grama. Se Levinas se enunciou como pensador da "experiência
propriamente dita", mesmo que Derrida ressalve que ela é entretanto
"o mais irredutível na experiência " por ser "passagem"
desse "rumo ao outro" ele mesmo irredutível, outrem, vemos que
o elemento metafísico em que ele deveria somente se encontrar já respeita a
decalagem do pensar-ser ao efetivo. A história efetiva não foi alguém que a
fez, mas o que se fez foi apenas o ser próprio da presença - em Levinas,
a sendidade do seu ser.
É certo que Levinas não quer assim preservar justamente esse
limite do Ser. Não sabemos ainda como se estabeleceu a relação entre a sua
ultrapassagem do Ser heideggeriano, ao mesmo tempo na metafísica e na
sendidade, com a experiência do outro. Por enquanto Levinas ainda está a favor
de Heidegger contra Husserl. Quanto a Derrida, propõe que ao invés de
contradição, é a figura do deslocamento que referencia melhor tudo
isso que vemos em trânsito, do acordo à ruptura levisiana
relativamente a Husserl. (p. 125)
O deslocamento pode ser resumido como do conceito de história, e
justamente nele é que se verá desfazer-se a estratégia
heideggeriana de Levinas, que se torna desde aí, inversamente, o
crítico da ontologia existencial como da diferença do ser e dos sendos, o
advogado do sendo contra o Ser.
Derrida recusa a contradição, porém ele mesmo apenas a desloca. Pois,
caracteriza esse movimento crítico subsequente, anti-heideggeriano, como uma
"violência" de Levinas que "não cessará de crescer",
contra Heidegger; quando, como sabemos, a alteridade dos sendos em Levinas
é justamente a metafísica como o contrário de toda violência possível.
Ora, como não seria contraditória uma aliança com Heidegger que se quisesse ao
mesmo tempo uma metafísica - e se para Heidegger violência é apenas o outro
nome da metafísica, assim como para o próprio Derrida? É nesse ponto que a
ruptura, encetando o caminho, o instaura na escuridão e não no claro, a saber,
na evidência.
Creio bastante questionável, e seria o momento de o expressar, a asserção
derridiana sobre ser "difícil erguer um edifício filosófico contra a
luz" (p. 120). Além da banalidade de nada menos que todo culturalismo
ser anti-aufklaefung, é desde Descartes, e especialmente da polêmica de
Malebranche, até aqui, que o "pensamento obscuro e confuso"
- conforme a expressão de Roger Bastide - não cessou de ser o elemento das
próprias coisas, reduzidas à experiência do homem na passionalidade já não
abstraível ao pensar. Estava descoberta a natureza humana não-racional, pré-lógica,
nas Américas.
Que "a existência é irredutível à luz da evidência" e seu
drama "é encenado antes da luz" (p. 125), é um enunciado
moderno que Levinas apenas teve o dom de poetizar. Enunciado que precipita toda
contemporaneidade, desde a negação de Malebranche a propósito de podermos ter
ideias clara e distinta de nossa própria alma, até onde, justamente, com
Shopenhauer, a metafísica sairá do Ocidente para converter-se em sobrenatureza
ética - se por natureza só há o axioma búdico do desejo como existência.
Se puder haver ética, para o Buda como para Shopenhauer, então não será
natureza, irá contra a vontade na existência.
Nessa primeira elevação da metafísica ao não-teórico e ao ético, portanto, o
desejo é egoísmo, o elemento da mesmidade de cada ser que se define por seu
desejo de perseverar na existência. Porém a ética, não. Nela somente, na
sobre-natureza, está nosso dever relativamente aos outros seres, isto é, nossa
consciência da alteridade. Devemos ter isso em mente quando
tratarmos o modo como Levinas opera o que seria uma segunda elevação.
O que Derrida faz, ao invés da nossa inserção histórico-filosófica, é
agravar a acusação dessa violência levisiana contra o outro,
contra Heidegger. Aprofundar a contradição - inversamente à
sua negação expressa de que se trata disso. Já não apenas a violência de
um pensamento em discordância com o de outrem, mas sim a de uma tensão correndo
em torno de uma linha de proximidade entre as duas ocorrências do termo "diferença".
De modo que se mostra legítimo questionar a pretensão levisiana de
que a sua realmente se diferencia de Heidegger. Isto é, indagar se os dois
conceitos de diferença, levisiano e heideggeriano, são realmente, eles
mesmos diferentes - ou no fundo iguais. Mas se realmente as duas
diferenças não forem iguais: "E qual é a diferença mais
originária"? (p.128)
A semântica heideggeriana do Dasein, que Levinas traduz - mal, para
Derrida - por Existente, deveria conduzir a uma solidão absoluta na
concepção levisiana, na qual tudo que se instaura só pode ser alteridade
para o eu, e, assim, outrem não é o semelhante mas o sempre-distante de
qualquer comunidade possível. Inversamente, Heidegger só teria pensado o
Dasein instalando-o no mitsein, o ser-com, isto é, nessa metáfora da
universalidade luminosa que é o compreender.
O ver compreensivo heideggeriano anula a ética para Levinas. Como
transcendência e não natureza - conforme creio ser preciso salientar
para recambiar Levinas à história das ideias após Shopenhauer, e desfazer assim
a fantasia da dificuldade ou do hebraísmo. A luz é também desde o
primeiro pós-kantismo romanticista, a metáfora da razão natural, eis como
se situaria sem dificuldade as correlações que Derrida faz nesse trecho, indo
até Borges e a redução metafórica da história universal.
Mas
haverá uma? Se Levinas pensa em continuidade a Shopenhauer, então já não é
a unidade da razão ocidental o fundamento, e sim a sua contradição
radical entre o discurso da natureza imaterial intelectiva universal
e a efetividade do horror colonial, o genocídio e a dominação anti-cultural do
cristianismo, que Shopenhauer tanto deplorava como destruição da sabedoria
milenar do "oriente". E o esteio de tudo isso, a realidade
da cultura, não unificada de fato no teoretismo
do "ocidente".
Conforme Shopenhauer, nessa sabedoria como no budismo, não há
"história" mas lei já conhecida do puro desejo egoísta, do
animal ao homem, que suprime o outro pelo desejo de viver. E também não
há "história" na acepção ocidental, uma vez nela como
colonialismo o que estava revelado é que os homens são - não obstante
a igualdade no desejo - piores que os cães. Se quisermos trocar o horror
da "história" pela solidariedade construtiva da vida melhor para
todos, então não se trata de uns morrerem pelos outros obviamente, mas sim de
renunciarem à pura ambição que é, contudo, natural.
Aqui podemos questionar esse raciocínio: porque é a-histórico e
"natural", se por outro lado, na história é somente
"ocidental"? Além disso, como podemos realizar a concepção de
um ser que age além de sua própria natureza, se por natureza de um
ser o que se entende é somente tudo o que ele é ou pode ser? O conceito
budista propriamente não se estende como uma filosofia da história. Não
obstante, a lição de Shopenhauer é válida conforme a doutrina do Buda se o que
ela demonstra é o fundamento da renúncia à ambição, o desejo nesse
sentido da avidez como causa do sofrimento e natureza da existência. Porém
seria forçado reduzir o budismo a uma ética, ou mesmo a uma doutrina única
independente das inúmeras interpretações. Geralmente o que as unifica é apenas
a concepção de uma prática de vida com aspectos religiosos, econômicos,
propriamente filosóficos, etc.
Na história das ideias contudo, Shopenhauer é o pioneiro pensador do
imperialismo, tendo sido observador e acerbo crítico da dominação inglesa na
Índia. É interessante que sendo ela o fato inaugural do imperialismo
pós-colonial, o próprio Marx jamais o equacionou mesmo produzindo já num
contexto prussiano, isto é, que formaliza os inícios da segunda revolução
industrial, a generalização do imperialismo europeu além da
Inglaterra.
Derrida detecta o quão avesso ao progressismo ocidentalista à Hegel é também o
pensamento de Levinas, ainda que não mencione a precedência de Shopenhauer -
pelo contrário, fará Levinas convergir com Kirkegaard, não obstante as negações
expressas dele. Mas para Derrida deve-se de novo questionar a pretensão do
denegar. A tarefa postergada quanto a Heidegger, o tema do rosto e do rastro do
desejo conduz a mesma suspeita quanto a Hegel.
3) A Metafísica do Outro
O interesse de Derrida por Levinas tem certamente muitas motivações, porém o de
servir de móvel de sua crítica a Hegel parece-me um que não seria
menos importante. A princípio, Levinas aparece contrário a Hegel, mas
depois se tornará para Derrida um exemplo do hegelianismo - e, assim, da
inconsequência das convicções levisianas a propósito. Inversamente, se Heidegger
aparece de início em aliança, mas depois numa ruptura que Derrida
mantem questionável, na conclusão a diferença será radical.
O pivô do paralelo entre Levinas e Hegel é o desejo. A oposição parece de
início fundada. Hegel estabelece a apreensão da alteridade como o momento
negativo da consciência que deve ele mesmo ser negado a fim de que esta se
torne certa de si, autoconsciência. Levinas, bem inversamente, proíbe a
negação do outro e torna a afirmação dele o momento ético-metafísico por
excelência.
Contudo, como poderíamos objetar, Hegel não se detém evidentemente na
cisão insanável do mesmo e do outro, e a história estará do lado do
reconhecimento de todos como certos de si, feita pelo trabalho do negativo, do
negado, o explorado.
Assim a meu ver o que se reconhecerá na intersubjetividade hegeliana é o véu da
ignorância conceituado por Rawls, a alteridade de cada um plenificada naquele
saber absoluto que veio a ser o reconhecimento de que só será preservada da
violência dos "senhores" da ambição, pela legalidade como liame
público do Estado. A alteridade mesma, independente do saber comum do
Estado, é preservada como o que não se domina pelo viés do intelecto. E o saber
absoluto em Hegel pode ainda ser traduzido pelo véu da ignorância de Rawls por
ser saber do devir ao invés da substância.
Assim a superação do Aufklaerung não é realmente uma novidade do século
XX, uma vez que a luz natural se detém sempre que se trata do sujeito; ou de
sua sugestão, a alma, como em Malebranche. Em todo caso, a modernidade desde
Hegel o situou nessa problemática do desejo que só tem sentido como o pensável
da alteridade em que se cinde o mesmo e se desfaz o limite raciocinante do
mundo, como do intelecto natural. Mas é esse o motivo do ódio a Hegel, por um
pós-estruturalismo determinista, visando o discurso como iterabilidade de um
cálculo - em que o desejo se produz e é produzido. Círculo interessante de
um sintoma. Aqui, vejamos como se propaga ao aproveitamento derridiano de
Levinas.
Para Derrida, Levinas desfaz o curso hegeliano da história, no momento em que
denuncia o percurso do trabalho como negatividade "fechada no círculo
do mesmo", uma vez que o trabalho "não se choca
verdadeiramente com a alteridade, dá-se a si próprio sua existência."
(p. 133 a 136).
Ora, qualquer leitor de Hegel veria nisso um absurdo, e o próprio Derrida é o
primeiro a denunciá-lo: "perguntar-se-á [sobre Hegel] se a própria
história não começa com essa relação com o outro que Levinas coloca para além
da história" hegeliana.
Como se sabe, o que inicia a história em Hegel é a infeliz condição do egoísmo
que submete outrem a essa escravidão, como não-sujeito, da qual esse outrem
porém fará a história em seu labor, derrubando depois o opressor e a opressão
- na legalidade instaurada de sua realização como
da História. Ou seja, realização do Estado contemporâneo, onde
todos são sujeitos e assim todos são livres. Já não só um déspota ou
uma oligarquia são sujeitos.
Hegel teve
conhecimentos da cultura "oriental", como atesta em seus
escritos sobre a História, porém não se confessou em consonância com eles.
Registrou-os como uma influência de época que já vinha sendo notável.
Realmente Hegel não pensa o egoísmo como uma condição natural, e sim puramente
humana, na medida em que não é simples desejo como apetição, e sim
desejo do desejo do outro, de ser reconhecido por ele como Sujeito.
A
leitura de Hegel por Derrida neste mesmo "A escritura e a
diferença", integra sua interpretação de Bataille. A meu ver
distorce radicalmente o sentido da revolução do sujeito hegeliano,
uma vez que confunde o processo com o que seria uma definição
"filosófica" do homem subordinado ao trabalho - liberdade
pífia, limite da filosofia logocêntrica avessa ao riso como à
verdadeira liberdade. Derrida desconhece a filosofia do riso
renascentista, assim como pode ser recuperada em Bakhtin sobre
Rabelais. Também não vê que o trabalho é um meio de conhecimento e
assim a meu ver podemos afirmar que Hegel antecipou a inteligência
prática de Marx e Piaget. A lógica derridiana do
senhorio, seguida às avessas de Hegel, realmente torna-se politicamente
questionável ao menos neste escrito.
Em todo caso, o que Levinas opera segundo Derrida é a inversão que põe o
mesmo ou o "eu" na interioridade da história, e o outro na
exterioridade do desejo. É isso que o eu deseja, essa
exterioridade irredutível dele como outro, jamais alienável numa comunhão
qualquer com o eu do mesmo: "O desejo ... deixa-se chamar
pela exterioridade absolutamente irredutível do outro ao qual deve permanecer
infinitamente inadequado. Só se igual ao incomensurável. Totalidade alguma
jamais se fechará sobre ele."
Essa relação com o outro irredutível, a qual se define "desejo"
em Levinas, só poderia estar além da história se esta é a "procissão
laboriosa do mesmo".
Vemos que em relação a Hegel, a questão da abertura da história está
deslocada - conforme a figura de Derrida, repetindo-se. Para Levinas, a
negatividade não só não esgota a alteridade, ela "jamais tem relação
com o outro". O eu não gera em si a alteridade, não pode fazê-lo
"sem o encontro de outrem". E o outro do desejo é irredutível
à subjetividade de si. O desejo visa ao outro como outrem em vez da
subjetividade de si
A alteridade como negatividade interior é uma fantasia, um jogo do mesmo, um
modo de identificação de um eu cujos momentos essenciais Levinas trata como o
corpo, a posse, a casa, a economia, belamente descritos porém sempre apenas
procissão do mesmo. Certo, a alteridade como negatividade já comporta uma
modificação interna e relativa, porém nela o eu apenas finge ser ele mesmo "altera-se
assim, rumo a si em si".
Esse "encontro" do outro na exterioridade, inversamente,
é a única resistência ao mesmo, daí sobrevindo a lista do que a
resistência não é, a partir desse único núcleo do que ela é, a saber,
inteligível - não do real ou das coisas, não se deixa subsumir como relação,
nem totalizar na linguagem, não decorre de qualquer conceito prévio, nem como
vimos, possível comunhão. Como encontro, vige na metafísica
da separação que ao invés da história, abre a ética reduzida a
religião.
Aqui a linguagem também se inicia, sua origem primeira sendo a forma
da interrogação. Porém logo detida na sua lógica - se estamos perante o
desconhecido nunca antes antecipado - pois, conforme Derrida,
interrogação não-teórica, súplica, prece exigente dirigida a uma liberdade,
se converte em mandamento: "o único imperativo ético
possível...". única não-violência é a experiência do
outro irredutível, pois nenhum ser prévio jamais o
poderá submeter.
Tudo bem assimilado, resta a meu ver a aporia do mesmo que para si sempre
já é. Na história do pensamento obscuro e confuso é justamente o que
não se pode conceber sem estar inversamente na plenitude da luz. É o pivô da
origem dessa história, como vimos, entre Malebranche e Descartes.
Podemos conjecturar como
solução da aporia, que a partir do século XX, de Husserl especialmente,
a trajetória da questão como essência da modernidade, como de Malebranche
ao desejo hegeliano, foi invertida - lembrando o neocartesianismo das
"meditações" husserlianas; e é a essa inversão que a meu ver Levinas
responde, negando a geração do outro a partir do mesmo que se
tornara axiomática desde Husserl. E uma vez que entre
Malebranche e Hegel, a temática do desejo hegeliano instalou,
inversamente, a alteridade do outro sujeito na dialética do
desejo pelo reconhecimento de si por outrem, ali
onde antes a alma só se explicava
"ocasionalmente" em seus movimentos, transcendendo-se rumo
ao Deus malebranchiano. O neocartesianismo de Husserl seria o
retrocesso ao autoconhecimento pleno da alma como
intelecto, inversamente à passionalidade do corpo, de que partia
Descartes.
Um outro aspecto da história do pensamento obscuro e confuso é porém o que
seguiria a apreensão de Roger Bastide a propósito da antropologia de
Leenhardt como exemplarmente inversa à de Lévi-Strauss. Conforme
salientei, a expressão com que nomeei essa história provém do título desse
artigo de Bastide, ainda que seja apenas proveito
estético e paródico. A expressão canônica da história das ideias para o
cartesianismo, ao contrário, são apenas as ideias claras e distintas,
as do ser próprio da alma e as ideias matemáticas, que instauram
o inatismo racionalista moderno, aquele em que as ideias vieram do
céu platônico para a mente representativa do homem.
Em
Bastide ("Conclusão de um debate recente: o pensamento obscuro e
confuso"; revista "Tempo brasileiro", nº 25) a oposição
entre distinto e confuso por um lado, claro e obscuro por
outro, é figurada transpositivamente entre Descartes e Kant. Aqui portanto,
Descartes não é o introdutor do cânon racionalista, como das ideias claras e
distintas. Não obviamente que se desminta o cromo histórico, mas sim que como
acima evidenciei, ele não deixou de admitir a contrariedade na duração, a
passionalidade do outro lado da clareza e distinção.
Descartes é o herói da moral provisória ao lado da perene, aquela sendo
expediente para a realidade que conhecemos cotidianamente e em que se banham as
nossas paixões, esta somente a aposta da razão acima do mundo. Bem ao
contrário, a razão prática de Kant eliminou toda contingência do interior do
intelecto pensante. A vontade é ela mesma imperativo universal.
O paralelo construído por Bastide é simples. Leenardt segue a
obscuridade da matéria passional cartesiana em sua interpretação do primitivo
como ser da visão de mundo intensa e emotiva. Levi-Strauss instaura na
antropologia a redução estritamente racional kantiana dos esquemas de
atribuição simbólica. Os dois enfoques filosófico-metódicos são mais que
impulsos adequados à metodologia da disciplina. Refletem escolhas vividas.
Leenhardt, o antropólogo missionário, simpatiza com o
impulso totalizante do pensamento primitivo, cuja lei ele atribui
como a confusão, a indistinção, de tudo na mesma realidade. Impulso
místico que seria o da religião viva, originária, na medida em que nada
separa, principalmente não separa o próprio do outro. Inversamente, nós
civilizados separamos o que está unido. Nosso pensamento científico atua como
espírito puro, contrariando a realidade originária onde o todo é
anterior às partes e determina o comportamento delas.
A psicologia gestaltista, para quem a análise
é secundária, é aqui evidente. Porém ao ver de Bastide, o
que Leenhardt respeita é a dualidade cartesiana da matéria. Em antropologia
esse cartesianismo sui generis limita a interpretação da sociedade em termos de
"modelo cultural". Por outro lado, a interpretação
de Lévi-Strauss, cingindo-se ao espírito puro do transcendental
kantiano, é a da "estrutura mental". Assim como em Kant,
trata-se sempre da lei do espírito exemplificada naquilo que se designa
totemismo.
Por sua lei de classificação, conforme Lévi-Strauss, o espírito humano é
resolução da complexidade do significante sempre em excesso,
numa possibilidade limitada de significado, isso de que sempre se
carece. O assim chamado totemismo o esclarece. Longe de ser religião
unificada por constantes, é algo muito variável entre sociedades, porém
pode ser unificado como lei de composição. Tirando significantes
da natureza, nomes de animais ou de vegetais, produzem-se as
marcas que significam relações entre grupos sociais.
Para Leenhardt, o totem como classificação pura deixa de ser
tabu, deixa de ser referencial da hereditariedade como da geração e da palavra
seca e brilhante dos deuses, ou seja, deixa de ser o que é na
realidade de signo da cultura. Ele deve ser revivificado na vivência
dela, e Leenhardt o recorporifica segundo Bastide, "lhe
devolve cheiro, calor, sombras secretas". Conforme o
paralelo construído, "assim Lévi-Strauss nos mostra as formas
destacadas da matéria, Leenhardt nos mostra a palpitação dessas formas na
matéria, o que quer dizer, as formas em seu estado obscuro e confuso e não como
condições 'transcendentais' da experiência." ( p.
62)
Ora, o problema que estamos considerando a propósito da subjetividade
originária em Levinas, se expressa na evolução da demonstração
de Bastide. O que está em jogo quanto à consistência da
realidade entre Leenardt e Strauss, é o juízo antropológico sobre a
linguagem. Estudando a língua canaca, Leenhardt opõe-se a
Strauss como ao estruturalismo, para quem a linguagem é troca
de significantes - como vimos para o totemismo, troca dos nomes da natureza
para os nomes da cultura. E da classificação matemática ("simbólica")
à comunicação não ocorre outra coisa. A troca de bens, palavras e mulheres
na sociedade primitiva seguem as mesmas leis gerais da comunicação, de modo que
processos transformacionais permitem passar de um ao outro: "a
generalidade encontra-se na álgebra desses mecanismos, não naquilo que é
trocado".
Inversamente, para Leenhard conforme Bastide, "no pensamento obscuro e
confuso, mulheres, bens e palavras são uma única e mesma realidade, sob
aparências diversas...". Esse também não é o mesmo
princípio de Levi-Bruhl, para quem o pensamento primitivo é identidade, por
isso une o que é diverso e distingue o que é uno. Leenhardt pensa inversamente
que não se trata de inadequação, mas sim do "ligar-se um ao outro e o
outro ao um".
Bastide seleciona os exemplos canaca de Leenhardt. O modo como a linguagem
e o próprio ser humano se entrelaça às organizações vegetais como
cipós vivos, e, sobretudo, como de uma pessoa à outra não há hiato, mas
continuidade. Quando uma criança nasce, o parente a que o destino
dela está ligado recebe uma moeda, que será devolvida a ela
quando o parente morrer. Para Bastide, a moeda não é símbolo, mas a vida
mesma da criança.
Eis a meu ver porém, o que incomoda nessa unidade do imaginário, sempre podendo
ser lido como totalitário. Assim como sem dificuldade alguma compreendemos ter
sido o do funcionalismo como da antropologia que orientou todo
o horizonte fenomenológico-hermenêutico, não obstante suas dissenções
internas. Evidentemente preferimos separar as vidas, do que colocar sobre uma o
ônus da outra, e se esse parece um julgamento etnocêntrico, a questão é a
possibilidade. Se conhecemos a independência, então ela é um critério relativo
ao que existe. Mas se podemos fazê-lo, como situar antropologicamente essa
diferença das culturas?
Ora, na pesquisa de campo o que se acumulou foram provas
favoráveis à concepção de que as culturas são realmente
independentes. Em mais de duzentas sociedades comparadas, as instituições
provaram-se sem qualquer constante que pudesse relacioná-las entre si. Um
estatuto totalitário como primitivo é indemonstrável, e haveria cultura tribal
isenta dessa característica. A antropologia lida com a pluralidade, ela
demonstra que a homologia evolutiva do psíquico e do social é fantasiosa.
Já o estruturalismo irá retomar a tarefa explicativa que une as culturas
num contínuo.
Assim Lévi-Strauss colocará a nossa capacidade de separar as coisas, o telos
do processo evolutivo, na origem formal. Nesse tempo lógico pois, antes da
origem factual do tempo histórico. Porque entre a sociedade factualmente mais
simples e a mais complexa, pode-se estabelecer um crescendo das possibilidades
de escolha livre quanto ao casamento - como princípio de independência entre os
seres trocáveis. A possibilidade está assim antes da necessidade. Entre a menor
e a maior margem de escolha, entre a mentalidade totalitária e a independência
das coisas, está havendo mais que dois estados de ser, do qual um sendo mais
simples seria dito originário relativamente ao outro do artifício. Está havendo
evolução real orientada pelo sempre mesmo artifício da lei cujo dever é
ser ulterior às coisas elas mesmas.
Além
disso, devemos notar que mesmo se a trajetória funcionalista exibe uma
ruptura desde Parsons, como da idolatria das origens a
um neoevolucionismo já mais cônscio dos limites políticos do
primitivismo - assim porém pressuposto unificado ao invés de realidades
culturais heterogêneas- a unidade metodológica
"gestaltista" permanece. Seria apenas uma questão de como
julgar o acréscimo de funções.
Ao
invés, o estruturalismo confronta a totalidade como princípio, que
substitui pelo da troca. Ora, mesmo assim, como em Lévi-Strauss,
mantem-se a dicotomia de primitivo e civilizado como algo mais que apenas
diferença de sociedade a sociedade. O xamã, a criança e o neurótico sofrem
todos do mesmo déficit de significado, porém para eles o excesso do
significante não é a lei do intelecto, é mais um
significante a ser interpretado por si mesmo como o "mana", o
mistério ou mandamento do Real.
A lei estrutural na origem, como Deleuze mostrou a propósito de Strauss
em A lógica do sentido, se faz ela mesma significante. Produz-se como
superego, podemos aduzir, ainda que na origem o superego não implique a
mais-valia do trabalho, só a do signo.
Nem o artista civilizado procede desse modo, conforme
Strauss - ver a propósito, "a estética de Lévi-Strauss", de Merquior,
e a "introdução a Lévi-Strauss", de Keck. Eis
porque nosso antropólogo abomina o abstracionismo como algo de todo inatural,
nem primitivo nem civilizado, definindo-o degeneração típica do ocidente
capitalista; desconhecendo contudo que o Oriente já o pratica desde os
primórdios da arte taoísta.
Voltando ao nosso problema, parece inconciliável a noção levinasiana
do sujeito que só se sabe a si mesmo, que vive somente o seu mesmo até o
encontro disruptivo do outro, e o pensamento obscuro e confuso em que
porém ele se instalaria na recusa de qualquer categoria ou luz que
pudesse antecipar esse encontro empírico e sua significação decisiva. O
pensamento obscuro e confuso tratou, inversamente, da origem como indistinção
do mesmo e do outro, e não casual, mas impossibilidade intransponível
de distinguir. O mesmo é mistério do para si, e mesmo em Hegel,
o momento do para si precede a síntese do saber que o reúne ao em si na
experiência como minha.
Um outro problema que se liga a este, seria a posição do antes e do depois na
recepção pensante desse encontro a partir do ensinamento de Levinas.
Conforme Derrida: "esse encontro do imprevisível propriamente dito é a
única abertura possível do tempo, o único porvir puro, o único dispêndio puro
para além da história como economia. Mas esse porvir, esse para além não é um
outro tempo, um amanhã da história. Ele é o presente no coração da experiência.
Presente não de uma presença total, mas do rastro."(p, 136) - o
rastro sendo termo que Derrida grifa, e que emprestará de Levinas para
fazer porém um uso bem irredutível ao dele.
A experiência é pois, escatológica pela origem, e anterior a todo dogma,
conversão, artigo de fé ou filosofia. Como situar esse "cara a cara com
o outro num olhar e numa fala", no obscuro e no confuso ao invés do
mais nítido e palpável? Assim também Derrida o denuncia: "a intenção
[antio-heideggeriana] de Levinas, em todo caso, parece clara".
Trata-se de criticar esse pensamento do Ser que "neutraliza
outrem como sendo", lembrando mais uma vez que "sendo"
é a tradução alternativa de "ente".(p. 138).
Em
Levinas não há qualquer confusão do eu com o outro. Derrida o
salienta bem nesse trecho, apenas deixando de notar que o outro instaura para o
"mim" uma dimensão que o "eu" nunca encontraria em seu
"si" mesmo, a própria diferença que cinde a mesmidade, a saber, a
"altura" - informação cuja procedência veremos logo à frente.
Por outro lado, a pertença de Levinas à trajetória em que instalamos
Shopenhauer se mantem como hipótese até nisso que, conforme Derrida, se o
encontro e o outro abrem a ética, esta é não uma religião, e sim a
religiosidade do religioso. Shopenhauer é aí mantido integralmente. Pois o que
ele visava ao criticar a política missionária inglesa na Índia, além do próprio
imperialismo, não elidia sua convicção de que a superioridade dos sistemas
religiosos orientais provinha de que expressavam a essência do
religioso de um modo puro, ou seja, como ética metafísica do altruísmo,
o que implica que mesmo o cristianismo, como qualquer
religião, contem esse grão com que se alimenta.
Se a ética é metafísica em Schopenhauer, sobrenatureza em sentido estrito,
é porque naturalmente ou por si, o indivíduo é estrita solidariedade a
si. Em Levinas, o desejo cinde a unidade clara do si, como do ser e do logos,
mas a ética também difere da natureza e é metafísica. Conforme Derrida, já o
vimos, Levinas opõe-se a Husserl e a Heidegger nesse ponto, mantendo a
preminência intelocutiva do sendo, que precede a egoidade transcendental e
excede a unidade totalizante do Ser. O "polo da transcendência
metafísica" dessa ética como relação com outro, é o infinito
oposto à totalidade, mas assim irrepresentável.
O infinito, em que o outro é livre de toda totalização do mesmo,
excede "o ideatum no qual ele é pensado", representado. Sendo
"pensado mais do que posso pensar", é irredutível ao objeto ou
realidade objetiva da ideia, e eis assim o polo da transcendência metafísica".
(p. 140).
Ora, se é assim, a claridade do mesmo imperturbado ou indiferente ao
seu próprio endereçar-se, é enganosa em Levinas. Ele teria invertido o
neocartesianismo de Husserl, mas para voltar ao ponto em que Descartes
instala o mesmo na passionalidade, como na duração, da qual o intelecto claro e
distinto é alcançado somente ao cabo do percurso, radical e assim
justificado, da dúvida. Por outro lado, a cisão do para si a partir
do em si é recolocada em Levinas como cisão do mesmo e do outro.
O em si é mais que objeto dado, do contrário não faria cisão real, mas
síntese de um saber absoluto. Contudo pode-se indagar do parentesco desse
pensamento do outro com o que, em termos de possibilidade, teria
sido inaugurado pelo pensamento do desejo em Hegel. Não seria assim
que Derrida, após ter feito ver a ruptura de Levinas com Hegel,
os reaproxima?
De fato, ao ver de Derrida, "Levinas está muito próximo
de Hegel, muito mais próximo do que o desejaria ele próprio, e
isso no momento em que a ele se opõe da maneira aparentemente mais
radical". (p. 141) Porém a questão para Derrida é o acesso ao outro,
que em Hegel e Levinas é comentado a partir dos sentidos. O olho, o sentido
teorético para Hegel, o é também segundo Levinas, mas assim como o que o mantem
na objetividade. Nenhum sentido de fato, como o tato ou o olfato aproxima
o outro enquanto outrem, e nesse aspecto Levinas não é leenharditiano. Somente
o faz o "desejo metafísico" que ao inverso do de Hegel, não visa
consumir. (p. 143)
O som, porém, é resgatado aqui como o elemento em analogia com o pensamento na
medida em que este é linguagem. É nesse ponto que Levinas se instala naquilo
que designei a história do pensamento obscuro e confuso. Insaber de si na
cisão, pelo desejo, provocada por outrem incognoscível, também o
pensamento é irredutível à luz, assim como o som. Ou seja, superior à
visão como à luz, é o som como o pensamento.
Ora, Derrida procede aqui estranhamente, pois sugere que Hegel diz o mesmo na
Estética, quando, porém, Hegel está afirmando que: a) o som é também
sentido teorético; o que sabemos ser o recusado por Levinas e b) a
orelha é ativada ao ouvir por vibração (estremecimento) vinda do meio,
certamente, mas o que assim é despertado, é a primeira idealidade que vem da
alma.
Tanto que a superioridade teorética do ouvir em Hegel, relativamente à visão,
se afirma porque a boa contemplação estética nada acrescenta ou suprime
do objeto, "deixa-os ao contrário subsistir tais como são" mas assim
o captado pelo olho é o sensível objetivo, ao invés do ideal. O que pretende
Levinas, porém, ao que pudemos observar, é situar o caráter
físico da existência de outrem como o que desperta a interlocução
em que o vínculo metafísico do desejo por ele é ativado.
Assim o que é visto em termos dessa ativação, é o rosto: "o pensamento é
fala; é portanto, imediatamente rosto", mas a contradição é evitada porque
o rosto de outrem, o que impede que seja reduzido a objeto, só o
apreendemos ao ouvi-lo, e o que apreendemos não é significado, é sujeito.
Para Derrida, eis a fenomenologia de Hegel revisitada, e assim também o tema da
cabeça que é o homem, em Feuerbach. Mais um anti-hegeliano que como Levinas,
estaria apenas seguindo Hegel às avessas, para Derrida. Contudo, Feuerbach
apenas situa a cabeça, o mais alto do homem na circunscrição da visão. Se vejo
um tronco, não sei quem é o homem, mas se vejo a cabeça, sei. Derrida se atém
apenas à inseparabilidade do rosto e da identidade - porém como ele mesmo ressaltou,
é justamente na irredutibilidade a uma identidade ideal que Levinas está
instaurando o infinito, a inexauribilidade do outro.
O tema do altíssimo, Derrida o desenvolve aí em conexão com o da altura,
inteiramente na abstração dessa instância do pensamento obscuro e confuso.
Inversamente, ele o reduz aqui à identidade mais ipseísta - nem metáfora nem
alegoria nem figura nem prosopopeia, o discurso sobre o rosto é da altura em
si, do mesmo que personifica a origem como dever ser em si, o altíssimo é o
horizonte do comando, está no espaço mas como origem do espaço, Deus dos
Exércitos, "A Face". Nesse ponto, Derrida realinha Levinas com todos
os criticados de sua própria obra, ou seja, na essência do logocentrismo. O
significado ideal não é signo , expulsa a escrita, é origem absoluta,
idealidade como o que nunca poderia ser pensado depender de ser construído.
"O rosto não significa, não se apresenta como um signo, mas exprime-se,
dando-se em pessoa, em si, Kata autó". (p. 144) E se isso parece
irredutível ao mandamento do amor à Torá, assim como ao lugar preeminente da
letra no hebraísmo, para Derrida o artifício é apenas um recurso - esse tema
rousseauísta do suplemento - para melhor conservar a fala viva, e a escritura
será assim sempre segunda. O corpo mesmo está reduzido a linguagem, para um
pensamento que só é ele mesmo fala, assim melhor caracterizando a repressão
idealista da escrita como do devir.
Meu desacordo aqui não se dirige à detecção de um elemento de coação ou
de fascínio do dever-ser - propriamente, elemento
"metafísico" - do pensamento levinasiano. Mas sim a que uma
operação fundamental, ela mesma totalizante, e portanto metafísica a meu ver,
nomeando-se repressão da escrita, seja a explicação adequada, fazendo-se assim
inevitavelmente em nível de causa ao invés de fenômeno. Pois como se poderia
decidir entre a repressão da escrita como origem do desejo imperial, ou o
inverso. Se o fenômeno idealista compreende a ambos como à impossibilidade
de pensar justamente o que Levinas instaura como
a inexauribilidade da alteridade, entre o obscuro e confuso, a
inexauribilidade do outro e o desejo, o que deveríamos indagar portanto, não é
da raiz comum do seu pensamento na história do pensamento claro e distinto. Mas
sim do sintoma que, do outro, na alteridade da interlocução empírica, se
faz ética ao invés de política, e mais, uma ética da transcendência como
metafísica.
A contradição levinasiana aqui se instaura portanto, na recusa
da subjetividade primeira, e na postulação dela mesma apenas
deslocada pelo desejo, como subjetividade do outro irredutível a objeto. A
contradição se traduz na estranheza de relações de alteridade que no entanto
não se põe como a questão política por excelência, mas de uma ética que a proíbe.
Essa questão tem sido ventilada efetivamente na recepção de Lévinas, como
podemos desde aqui examinar.
O estudo de O. V. Carrara torna-se oportuno
referenciar, relacionando-se de modo pertinente à questão que
estamos examinando, da contradição levinasiana de sujeito e
desejo, ética e política ("Levinas, do sujeito ético ao sujeito
político: elementos para pensar a política outramente. Aparecida, SP, ideias e
letras, 2010). É em que encontramos a "altura" na
instalação do outro. Aqui não poderíamos falar de lugar, como categoria
ou situação empírica do espaço. A altura funda, pelo contrário,
a utopia. O próprio estudo de Carrara é uma extrapolação da letra levinasiana,
na medida em que ao que ela se limita é uma ética que suscita a questão
de se interrompe a política ou seria, antes, interrompida por esta. Não há
propriamente sujeito político a partir da outridade que abre o
sujeito na abertura da ética. Porém ao ver de Carrara é possível a
extrapolação que, conforme o próprio ensinamento de Levinas, respeitaria o
espírito e não a letra.
O juízo a propósito é aporético, sem dúvida. Mas bastante oportuno porque
indo até esse além, Carrara inspira um modo de lidar com a aporia do pensamento
levinasiano em si mesmo, esse paradoxo da alteridade como da experiência,
o mais claro do sendo vindo a ser o mais obscuro. Pelo que ele
expõe, pareceu-me estratégico a cisão do positivo e do negativo do
outro em Levinas, justamente separados pelo hiato que representa o terceiro ou
o político. O terceiro precipita a negatividade do Estado, do político, da
luz ou razão, neutralidade, etc., porém minha proposição não
é de respeitar o corte explícito, e sim de transpor a cisão
para o interior da metafísica do outro. É assim que me parece possível uma
solução da aporia da posição levinasiana na história das
ideias.
A princípio, devemos ainda nos utilizar de Derrida para notar que a
abertura da ética pelo rosto - o que Deleuze-Guattari de um modo
utlra-negativo vão tratar como sua própria noção de rostidade (visageité)
- é em Levinas o sinal, também, do seu anti-hegelianismo.
Derrida a propósito pode ser frontalmente oposto a Carrara, na medida
em que este explicitamente caracteriza o empreendimento levinasiano de
ponta a ponta anárquico - desde a caracterização da subjetividade do
mesmo (p. 59 a 62), até a ética como intriga da anarquia (p. 151), e
dela a extrapolada política que deve subverter o Estado existente por um
que, como o reino de David ao invés do Cristo (p. 160), deveria "dirigir-se à
anarquia de onde ele procede, que é o infinito da responsabilidade pelo
outro" (p. 167).
Inversamente, conforme Derrida: "Aqui [no anti-heideggerianismo] se
fixam as premissas de uma crítica da alienação estadística mediante a qual o
anti-hegelianismo não seria nem subjetivista,nem marxista, nem anarquista, pois
é uma filosofia do 'princípio que só é possível como
mandamento'".
Mas o propósito de Derrida nesse trecho é subverter o
anti-hegelianismo de Levinas para mostrar como de fato, às expensas do que este
pensava, trata-se na temática do encontro de um Levinas que "está
muito próximo de Hegel, muito mais próximo do que o desejaria ele próprio,
e isso no momento em que a ele se opõe da maneira aparentemente mais
radical". (op. cit. p. 141)
Para Derrida, o ponto de proximidade é o roto que,
se "só é no cara a cara" é a troca do olhar, não
visão de algo por alguém sem ser também esse alguém constatando que o
outro o está vendo. Certo, é esse teoretismo da visão no
conceito hegeliano, que por ser o único senso sem consumação imediata é
sem desejo, que Levinas parece estar subvertendo. Mas Derrida observa que
é justamente o conceito hegeliano da neutralidade do olhar sobre o
objeto, a primeira violência na concepção de Levinas: "a
violência seria, portanto, a solidão de um olhar mudo, de um rosto sem fala, a
abstração do ver" que o outro me vê.
Além disso, se o desejo metafísico não busca, ao contrário do
hegeliano, consumir, Levinas por isso coloca o som da palavra acima
da luz. Transcendência que é a mesma que Hegel estabelece na
Estética, e na Enciclopédia havendo a temática do espírito, o rosto e
a linguagem, como na Fenomenologia do Espírito há o da
"fisiognomonia".
Ora, na condução da positividade do outro em Levinas, que podemos
aproveitar da exposição de Carrara, poderíamos também encontrar uma
proximidade hegeliana. É preciso lembrar que Hegel uniu sua teoria do
Estado à sua visão progressista da história como universal num momento
pós-colonial mas pré-imperialista. A Inglaterra, o espelho do liberalismo, era
até aí apenas a aliada na ruptura do odioso pacto colonial e o liberalismo
econômico era stricto sensu o político.
Na pós-modernidade, exaurido o poder
do meta-relato sócio-progressista, Hegel está sendo relido como
filósofo do Estado independente de sua concepção equivocada de
uma história-antropológica. Não ignoramos que há um
Hegel interpretado pelo fascismo e um outro
esquerdista, quando lemos Hegel, num terceiro modo, como liberal.
Porém o ponto importante é que nessa leitura liberal, o Estado hegeliano é
permeado pela independência da instância ética. Ele tem por missão protege-la
na sua autonomia, mas por isso mesmo não pode se identificar com qualquer
ethos determinado. Se Levinas considera positivamente o outro como a instauração
ética na relação cara a cara, um Estado levinasiano poderia ser pensado
apenas nessa independência de si ao que
efetivamente ocorre nesse âmbito do encontro. A religião e os
costumes teriam que ser separados do político nessa acepção relativa,
do que zela pela sua independência. Num certo sentido é o que se reconhece
na letra levisiana interpretada em Carrara.
A crítica do Estado em Levinas é de que ele se tornou, como instância da lei
neutra, o mesmo que Marx denunciara em termos de que ele "deixa de ser
o representante dos interesses de todos para sê-lo de uma minoria que se
apropria dele e o transforma em arma de defesa de seus privilégios."
(p. 166).
Não concordo porém que Marx tenha pensado que o Estado assim "pode
tornar-se". Segundo creio, para Marx eis o que o Estado sempre já é,
uma vez que o positivismo reduziu a sociedade como fato de cultura à
objetividade da relação com o meio natural, isto é, à epifenômeno da
economia ou "produção". A autonomia do Estado, eis a ficção
ideológica por excelência. Na nossa linha de positividade porém não
"positivista", creditamos a Levinas uma possiblidade de salvação para
o Estado, sem quebrar a hipótese carrariana de uma extrapolação política
possível da sua ética. Assim, "o Estado ético deixaria de se ver como
fim para se descobrir como meio capaz de se transcender à direção à
responsabilidade pelo outro". Além disso, a sociedade em Levinas é
pluralidade que consiste, justamente, na subversão da totalidade, "jamais
se confundindo o indivíduo com o elemento em que ele se banha", e em
todo caso, "o pensamento começa quando eu me deparo com uma liberdade
exterior à minha." (p. 123)
Nessa
positividade, a letra levinasiana do
outro é o discurso do amor. Nesse estar apaixonado compreendemos
que o outro seja instauração da altura, que o desejo do eu é
sempre dessa hierarquia e que o outro seja o comando absoluto. Derrida não
o observa, quando, ao chegar à concepção da altura, a assimila à cena original
da expulsão da escrita no Fedro platônico, locus de articulação de todo
falogocentrismo ocidental, a que a crítica do Logos levinasiana não estaria
pois não subsumida.
Se, inversamente, pensarmos na positividade do outro como desejo na acepção do
amor, Levinas não seria o único a reconverter o
político à originareidade do processo primário. Além do
próprio Derrida de certo modo, ou seja, como crítica real do logocentrismo, em
"Eros e Civilização" Marcuse o teria explicitado
invertendo a teoria freudiana do inconsciente para colocar como objetivo
político a sério o estágio original da oralidade. Apenas Levinas não a
mantem, a seu ver a consciência é que se resolve nesse amor que é anterior
à lei - e, portanto, não pode ser julgado por nenhuma lei.
Não há lei que tenha poder legitimável sobre o amor originário, e por isso o
regime ético originário, assim como o elemento da própria subjetividade é o
anarquismo. Levinas teria sido um bom crítico de Heidegger, a meu ver, não
apenas por sua intenção de subverter a hierarquia do Ser pela do sendo como
outro na experiência, mas também por isso que o próprio Heidegger como crítico
do logocentrismo foi o pensador da Gewissen, a consciência moral, e assim em
seu coração instaurou o "cuidado". Assim porém ele já teria que despir
a experiência do aparato transcendental, nesse rumo do outro que Levinas
enceta como o caminho de sua própria ruptura.
O que, não obstante, não é tão simples, se uma interpretação transcendentalista
de Levinas também fosse possível. Porém ela seria, como a de Ciamarelli ao ver
de Carrara, ainda um profetismo como generalização ou universalização da
ética levinasiana. A profecia como mensagem "não possui um
conteúdo totalmente inteligível" (p. 192). Ora, devemos lembrar que
todo o contexto do século XX se instaura pelo culturalismo, a independência do
fato cultural relativamente a qualquer reducionismo objetivista. Eis
o que não tem uma explicação fora de si mesmo e que, como símbolo, não é nunca
totalmente inteligível exceto se reduzido à forma da classificação para
que serve.
É em que podemos reconduzir a aparente auto-cognição em Levinas, ela
mesma à trajetória do pensamento obscuro e confuso. A princípio podemos
notar que a clareza em que vige a mesmidade é a fantasia de sua
auto-suficiência na história, sua ignorância do real como realidade
do outro. Assim é isso que, da ética à política ou vice-versa, é
necessariamente interrompido.
Ora, se a interrupção não vem de fora sem ser a devolução de
um olhar que se torna "o" desejado, é precisamente o
que vimos instaurar a trajetória do pensamento obscuro e confuso - o desejo que
tira de alguém a sua auto-cognição como totalidade conceituável. Carrara
registra a objeção de Abensour, segundo a qual a utopia da anarquia ética levinasiana
é a "claridade" necessária "para que o homem se mostre
além da noite na qual ele se debate - a noite do il y a, a noite do assassinato"
(op. cit. p 183) Esse "há" das coisas, dos fenômenos e de
nós mesmos enquanto indiferentes ao amor.
Porém Carrara, num outro trecho, afirma explicitamente que para Levinas "se
todo totalitarismo político repousa sobre um totalitarismo ontológico, impõe-se
a necessidade de construir um sujeito que não encontra sua razão de ser em si
mesmo, mas que é capaz de deixar-se inquietar pelo outro e que se constitui a
partir da alteridade." (p. 187) É essa
alter-constituição no limite impensável porém que, como vimos, instaura a
trajetória do pensamento obscuro e confuso, ou seja,
a modernidade.
Assim não concordo com Rose em que Levinas seria
pós-moderno porque a pós-modernidade se definiria, conforme a referência
em Carrara, a inabilidade para "conceber um fundo de significado
fora do indivíduo e do Estado, da vida ética e de instituições políticas."
Sem poder aproximar alguma real transcendência e mundo ou consciência, se
limita a diversas interrupções para esse fim, que porém só podendo
efetuar-se fora da racionalidade, seria uma sempiterna recorrência a meios
santificados.
Inversamente à proposta de Critchely o profetismo por si mesmo também não
seria uma mediação eficaz da transcendência à política secular. Por isso
Levinas seria contraditório, ética e política nele teriam que ser unidas se o
profetismo fosse eficaz porém estando de fato separadas. Ora, aqui a própria
Rose se contradiz, uma vez que segundo ela essa separação apenas repete um
"antigo dilema" - mas por que então seria pós-moderna?
Críticos de Rose como Bergo fizeram ver que ela mesma se conserva
Levisiana ao propor que a fé em vez do profetismo seria a mediação eficaz, uma
vez que na fé não se trata de alguma categoria racional, ao contrário do que
ela mesma exigia. (p. 106)
Ao invés, eu vejo o pós-modernismo como a superação desse dilema bem
moderno, o qual teria que ser explicado quanto à origem. Ela consiste na
ruptura para com todo socratismo que unia cultura e Estado.
Ruptura inevitável a partir da descoberta ultramarina, ou seja, da
constatação da pluralidade cultural irredutível.
Porém o resultado do dilema não é a ausência de mediação, mas uma mediação
discursiva neurótica, que consiste no discurso geo-ego-lógico do progressismo -
as diversas culturas são escalonáveis na dicotomia do primitivo e civilizado,
pré-ego-lógico e estatal-subjetivado como estados diversos ou, na
contemporaneidade, como fases evolutivas do psiquismo. O que
tenho enunciado como minha descoberta é que a dicotomia enuncia,
pois, a alteridade relativamente ao civilizado, o Sujeito da história, aquele
que para mal ou bem realizou sua arqué e seu telos: o Ocidente ou
civilização científica-industrial. A realização é o para-si, a geo-ego-logia de
um sujeito - o ocidente - que se auto-enuncia e se constitui na alterização do
outro. Fora da geopolítica colonizadora do suposto ego da ciência,
não há unidade sustentável da cultura ocidental da Grécia até a
pós-modernidade. Em todas as suas variações, ou seja, em todas as teorias
possivelmente encontráveis dessa unidade, é a geo-ego-logia o
estruturante do discurso.
Na
pós-modernidade a ausência do nexo explicativo real que iria
justificar a homologia psicossocial veio à primeiro plano, ao
invés de restar no fundo dos meta-relatos modernos como apenas algo
contingente, uma lacuna provisória. Ela se tornou impossível.
Mas
o mérito da questão, entre o profetismo e a fé, vemos assim que depende da
ordenação da cultura como ela mesma totalizante relativamente ao Estado e à
legalidade. Na contraposição levisiana de totalidade e infinito é que devemos,
a partir daqui, examinar o lado negativo da condução da tensão
ético-política que seria a meu ver a mesma do claro-obscuro, como do mesmo
e do outro.
4)
Ética e Ontologia
Acima enfatizei
o que pude ver de positivo na posição de outrem como do
amado em Levinas, este amado que só devém do encontro na experiência,
e é absolutamente inantecipável: tanto no pensar do mesmo,
como para qualquer mesmidade.
Aqui nossa questão é o que nos permanece criticável nas consequências a
que Levinas conduz a partir desse princípio. Porém nossa própria avaliação
está intrinsecamente relacionada aos seus comentadores, e é ao mesmo
tempo sobre seu comentário que nos pronunciamos como sobre a recepção de
Levinas na história das ideias recente e atual. Nossa crítica precisa
pois, primeiro visar a construção da mediação. Se Levinas pode
parecer criticável na medida que incoerente o seu percurso entre a
premissa e as conclusões, estarão os seus comentadores a salvo da
contradição manifesta?
Visando
antes o comentário crítico de Levinas. A lista dupla dos epítetos
utilizados por Derrida para o ser heideggeriano, tanto para o que ele é quanto
para o que devemos evitar dele dizer, acima esbocei salientando
o quão enigmática nos parecia, e a lista não foi exaustiva. Com efeito,
é nitidamente contraditório que se encontre também entre
as afirmações, "primeiro" e "principal" como estatuto
do transcendental, mas na negação esteja o "antes" do sendo ou
superior ao sendo, etc.
A lista aqui é o destaque de epítetos que compõe a litania, em A escritura
e a diferença, do louvor derridiano a Heidegger como ao oponente de
Levinas. De fato ela precipitava a contradição maior do texto derridiano, que
como vimos, começa pela declaração de isenção quanto ao objeto do seu estudo, o
pensamento levinasiano, para apenas colher suas sugestões e ampliar as
questões que suscita, porém aporta a essa litania que é uma veemente
oposição ao autor analisado. Ora quando se completa a leitura do texto,
vemos que a contradição se estende à própria estimativa das relações
Levinas-Heidegger.
O meio do texto é preenchido, pois, pela indecisão a propósito de Levinas
como um pensador que ficou aquém de Heidegger porque não alcançou o patamar em
que o pensamento heideggeriano havia se instalado e com ele toda a
significação histórica do pensar, ou porque, pelo contrário, não pode de
fato ter estado na exterioridade dele, Levinas repetindo Heidegger tanto mais
alardeia o estar ultrapassando. Em todo caso, trata-se para Derrida de
escavar os conhecimentos levinasianos de Heidegger para joga-los nas duas
posições, do precursor e o do adversário, conforme as circunstâncias.
Mas a partir de um certo ponto dessa ambiguidade notável construída
como a figura do adversário-precursor que se repete em vários aportes
relacionados, a discussão fica detida no impulso da qual partia,
a saber, a polêmica sobre a precedência da ética sobre a ontologia
como o enunciado levinasiano em ruptura com o pensamento do ser
heideggeriano. Nisso Derrida é realmente bastante claro, tratando
inversamente de defender a precedência da ontologia sobre a ética.
Porém a complexidade da questão levinasiana na filosofia retorna aí,
uma vez que, como devemos lembrar, a ética que Levinas
defende como originária é "metafísica" - e como
defender qualquer posição de contrariedade entre "ontologia" e
"metafísica, tanto mais quando se trata justamente de uma disputa
sobre o originário?
E Derrida vai repetir a cisão levinasiana desses dois étimos,
ontologia e metafísica, que na história excetuando Heidegger sempre
foram um só e mesmo termo, por um lado; por outro insistindo na pureza do
pensamento do ser relativamente a qualquer determinação -
portanto ora como ontologia muito acima da ética que daquela depende
para meramente existir, ora como algo que está acima da ontologia
tradicional ou é indiferente a ela, na medida em que ao mesmo tempo
que jamais confundindo o ser com qualquer sendo na direção da eminência
entre todos, jamais sendo algo outro que a pluralidade dos
sendos e sua infixação relativamente ao "um" - além do ser
ou o próprio do ser.
A problemática textual de "Violência e Metafísica", o estudo
derridiano sobre Levinas, é de grande complexidade, nem só por essa
centralidade da questão do heideggerianismo, que na verdade encerra o juízo
decisivo a propósito da oposição levinasiana crucial entre totalidade
e infinito. Mas também porque até chegar a ela Derrida faz seu caminho por meio
das relações de Levinas com Descartes e Husserl, tomando partido decisivamente
por estes contrariamente àquele.
As
lacunas de coerência deste texto tornam-se matéria sintomática, uma vez
que como todos sabemos e Derrida mesmo o registra, o neocartesianismo da
fenomenologia husserliana é bastante irredutível ao pensamento do Ser
heideggeriano ao qual o texto aporta como a várias páginas de uma litania
laudatória que como gênero assemelha-se muito a uma prece apaixonada de
exaltação ao criador.
Repete
também com estes a figura do adversário-precursor que vai se estender ainda a
tangências de Kirkegaard e Hegel, obtidas com o mesmo
propósito crítico a Levinas.
Mas a questão crucial, o juízo a propósito da oposição de totalidade
e infinito, é a matéria sintomática propriamente. Todo o alinhamento
derridiano contra Levinas na história das ideias poderia ser lido como uma
redução do infinito levinasiano àquilo que para seu autor
ele é o contrário absoluto, a saber, a totalidade. Aqui iniciamos
nossa tangência crítica ao aparato levinasiano do outro.
Se temos razões para, ao contrário de Derrida, concordar com Levinas sobre
que o outro pode ser pensado sem contradição de um
modo ulterior a transcendentalmente um outro ego e só antecipável
da mesmidade do mesmo, nem por isso o teríamos posicionado como
um superego - como cremos ter feito Levinas.
Numa perspectiva inaugurada pela psicanálise mas liberta da teoria dos
traços mnésicos, isto é, como psicologia ao invés de metapsicologia, temos que
a relação intersubjetiva é regida por duas variáveis, identificação e
libido. Nossa crítica visa um discurso levinasiano que afirma a
libido, porém conduz apenas às consequências de uma fixação patológica
naquilo que se limita a identificação projetiva.
Por si a identificação é normal como receber influências de outras pessoas ao
longo da vida, algumas bastante benéficas à nossa personalidade e por vezes
somos influenciados também pelo ser que amamos. Porém fixando-se daquele modo
radical que os textos de Levinas enunciam, ela construiu no passado o
superego a partir da identificação com os pais. A partir daí há neurose
quando uma fixação patológica identitária reduz patologicamente a possibilidade
da atuação consciente do ego, acarretando comportamentos
perversos relativamente aos outros.
O outro levinasiano pavimenta o caminho para a confusão atual de imperialismo e
"império", porque de fato a sua ética é "apolítica"
apenas do mesmo modo que a fascinação despótica (imperial) do
superego deve ser. O que significa ser apenas "política", porém
como discurso da dominação de alguma instância privilegiada, em vez
do "político", o horizonte democrático vindo da palavra na
heterogeneidade ("Polis" greco-democrática). A heterogeneidade dos
cidadãos em que a lei é o correlato dos ajustes de sua coexistência. Que o
outro é ele mesmo, irredutível ao mesmo, é o axioma levisiano que tanto
prezamos, porém que por isso só há o outro pensável, em vez da pluralidade
do "nós" pensável, torna-se apenas inversão conservadora da
mesma "mesmidade". E de fato contraditório - se pensar o outro
implica que há um eu do pensamento, esteja este eu se auto-apreendendo desde
que apreende o outro, como parece ser a tese de Levinas; ou originariamente, e
então se torna passível de apreender o outro, como em Husserl e Derrida.
É interessante, como espero mostrar à frente, que tenha sido da mesma
temática do Rosto embora revertida como sistema depóstico que essa
confusão atual, do imperialismo com "império", veio a se constituir.
Tornando à nossa questão da irredutibilidade entre libido e identificação. Em
Lévinas, para lá da consciência do "mesmo" está em todo
caso a existência do outro. A consciência de sua existência é despertada
nesse "mesmo" pela existência ela mesma. Mas se aquilo que
é despertado pela existência do outro é primeiro consciência, em vez da
passionalidade pela qual a existência do outro afeta quase que traumaticamente
o mesmo, parece que a consciência do mesmo fica aquém do amor que
quer a felicidade do amado qualquer que ela seja conforme à preservação de
sua vida. A consciência do mesmo em Lévinas parece dever-ser
preestabelecido pelo amante de todo o seu comportamento, como
no ciúme patológico, que é um apenas um meio de evitar a todo custo
que o amado prove ser o que ele é, outrem, ao invés de
reduzido à identificação do amante, projetada nas suas expectativas do amado
ideal superegóico. Se é assim, nem aquém nem fora, Lévinas
seria apenas a inversão consequente de Heidegger, cuja "presença"
resolve-se toda na Gewissen, isto é, dever-ser que abole a fronteira
de sujeito e história como do mesmo e do outro.
Por outro lado, nessa questão da alteridade, temos uma origem sem contradição
que veio a se pensar desde o Romantismo, o infinito como o horizonte da
cultura, isto é, das culturas em sua heterogeneidade imprevisível constitutiva.
Aí, pois, Lévinas instalou seu cogito anti-totalitário.
O infinito assim caracterizado é a explicitada noção romântica de inconsciente
- o horizonte em que a subjetividade irá formar-se como
temporalização e linguagem. Pela passionalidade que o liga aos valores na
intersubjetividade da língua, e educação desde a infância, o "eu" se
informa como sujeito da cultura - ao mesmo tempo reproduzindo-a e renovando-a,
transformando-a na, e como a, história.
Porém assim, seria precipitado reduzir o Romantismo à Gewissen, o
"duplo" inconsciente romântico ao superego - como explicitamente fez
Freud. A cultura é em devir, porém se pôde traduzir-se como
"consciência", o liame aí é a passionalidade, a singularidade do
"eu" é irredutível. A ironia, o duplo romântico, é
justamente como a duplicidade gorgiana entre o "elogio" e o
"tratado". Na linguagem a passionalidade é o que está em jogo, e
assim, inversamente a Wittgenstein, o "eu" e não o sistema -
eis porque se pode enganar e ser enganado, mas também desfazer o
logro e ser livre. Mas a linguagem em si é sistema, não
passionalidade ou qualquer instância redutível de todo
ao "eu". O sistema é espelho, o que nele miramos só podem
ser os duplos de nós mesmos e isso é assim mesmo que o "espelho"
da linguagem seja a nossa mente, a consciência. Assim a relação entre
aparência e essência torna-se mais profunda que apenas a do falso e do
verdadeiro.
A questão que suscita a polêmica sobre fé e profetismo, a asserção
levinasiana que é "graças a Deus" que alguém mais quer que meus
direitos possam valer contra o abuso, deveria a meu ver ser reconduzida a
essa origem romanticista. Porém já numa época em que o imperialismo proíbe
pensar a pluralidade cultural num continuum, digamos, oral, como objeto
pluralizado. Ao invés, o outro da cultura (o ego da outra cultura) é
realmente irredutível ao ego de sua própria cultura. Ele é
irrealizável para si como o mesmo ou ego culturalizado.
Creio ser esse um grande enunciado levinasiano. Mas o problema é que
as relações interculturais estavam sendo colocadas na era funcionalista em
termos de relações despóticas no limite do autismo imiscível pressuposto
pela antropologia das totalidades sociais ("tradição"). Tal que o
imperialismo seria um caso específico ao invés de uma
verdadeiora transformação na história.
Até concordaríamos com uma crítica derridiana que expusesse a questão do
superego em Levinas, exceto por isso que Derrida vai a partir daí alinhar cada
um desses três grandes adversários-precursores de Levinas, Descartes, Husserl e
Heidegger, como por um lado limitados ao que seria o único acesso
coerente. O outro como ego transcendentalmente projetado pelo mesmo,
analogicamente a partir de sua mesma egoidade. Por outro lado, pensadores
não totalizantes. Ora, o mérito de Levinas teria sido manter a coerência
do que lastreia todo o pensamento do ser, e assim o que o secunda como a
precedência obscura do pensamento do desejo e da
subjetividade.
Geo-ego-logicamente a constante totalizante é a mesma. A descoberta
da cisão do desejo a partir da coerção do pensamento da alteridade da natureza
aborígine logo convertida em pluralidade da cultura. Note-se que a coerção
aqui é independente do objeto descoberto enquanto tal, é torção
do desejo que problematiza a paixão até aí confundida com razão, da
identidade inquebrantável do mesmo independente do devir.
A identidade se preserva portanto na redução totalizante do outro
"originário", primitivo ou anterioridade,
assim impedido em seu devir. Como outro-ego ou como outro do
ego, o dilema vai refletir nas duas formas de oposição
ao Estado da legalidade que configura o desejo liberado em devir - ou
seja, a lei como consciência da pluralidade. Ora censura-se o Estado porque ele
é a coerção do indivíduo capitalista sobre a comunidade originária
(funcionalismo), ora, inversamente, porque ele é o fascismo da burguesia
como classe sobre o indivíduo-linguagem originário (estruturalismo).
O problema com a crítica derridiana é pois que ela seja a
segunda forma de oposição contudo pretendendo que só Levinas, entre todos
os outros pensamentos funcionalistas, esteja do outro lado. Também
não se segue que apenas posicionar analogicamente o outro implique em
recusar a comunidade originária, ou recusar totalizá-lo de algum
modo. A contradição geo-ego-lógica incide, pois, dos dois lados do dilema, como
da crítica. Nenhuma delas poderia aceitar que a legalidade é originária.
Antes de incursionar pelo mérito dos argumentos derridianos, vejamos
a contradição de Carrara. Bem ao inverso de um crítico, vimos
que Carrara é um prosélito que almeja porém transpor a ponte
desde a ética levinasiana até o que poderia ser uma
política levinasiana, entretanto recusada pelo próprio Levinas em nome
dessa mesma ética.
Ora, a questão que vimos levantada por Gillian Rose, da lacuna entre a
transcendência do pensamento ético levinasiano reduzido à relação puramente
subjetiva do mesmo e do outro, e a imanência que ele procura porém
salvar numa escatologia além da nefanda história, deporia a favor da
tentativa de Carrara. Porém ao partir da reconstrução do
limite propriamente discursivo do interdito político em Levinas, para ver
se aí mesmo há algum elemento que poderia, inversamente, balizar um caminho à
imanência que a depurasse pelo acesso transcendente, Carrara se
contradiz notavelmente quanto às relações de Levinas com a temática da
origem do político, entre os pensadores do contrato social.
À página 107, Carrara reporta que "Lévinas se recusa a falar de
'contrato social' ou mesmo de um 'estado de natureza', conceitos ligados à
ontologia e que explicam o surgimento da sociedade e do Estado, na
filosofia moderna". Ele retroage portanto à Grécia para formular sua
recusa totalizante do político definido como o que resultou "do
ideal de uma cidade fundada na prevenção contra a guerra".
Assim toda política enquanto fundamento do Estado para Levinas
deriva da Grécia como vínculo do temor, que elide toda relação ética na
medida em que ninguém precisa se sentir responsável pelo outro. Aqui já há
alguma ambiguidade, porque uma política possivelmente extrapolada da
ética levinasiana deveria, para Carrara, "superar a ideia de um
contrato artificial, neutro e impessoal...". Mas assim o Estado
ou o político denegado está, sim, limitado, na crítica, à forma
do "contrato social", o que é indesejável e desnecessário desde Hegel
e o Estado nacional constituído.
Porém à página 157, bem inversamente, é de modo explícito que a
contradição se expressa. Ao contrário de em nada relacionar-se aos
pensadores do contrato social em seu posicionamento puramente greco-antigo
do Estado, Carrara informa: "Ressaltamos aqui que a crítica
de Lévinas se refere ao Estado Moderno, sobretudo tal como ele é pensado por
Hobbes".
Para Carrara entretanto Hobbes é o contrário de um pensador contratualista, e,
por outro lado, o pensador do Estado como o limite único frente à violência e a
guerra. A meu ver, ao invés de ser um pensador anti-contratualista,
Hobbes é aquele que introduziu o conceito de contrato
social porém reduzido ao absolutismo, a delegação dos poderes pelos
contratantes a um único príncipe, o "leviatã" todo poderoso
contra a violência. Locke inicia pois o pensamento político liberal, ao enunciar o
contrato como delegação desses poderes ao parlamento.
E
tanto é desse modo que o próprio Carrara opõe aqui Levinas a
Hobbes assim como às "posições liberais" que veem
o Estado "como a única possibilidade de colocar limites à violência e
aos excessos da guerra". Ou seja, todos sendo pensadores
contratualistas do Estado pós-feudal.
Repetindo,
se Levinas discute Hobbes é impossível que não tenha qualquer relação com
o moderno contratualismo, e com Locke como crítico do contrato social
imperial, o que porém Carrara nega expressamente, salientando que é uma
deficiência de Levinas ter-se atido apenas a Hobbes.
Mas assim Levinas teria que ter pensado o estado de natureza, o contrário
hobessiano - e contratualista, embora não pelos mesmos motivos - do estado
de sociedade. Lembrando que em Hobbes o estado de natureza é a guerra de
todos contra todos, e a monarquia é o oposto, tendo sua origem na estrutura
patriarcal das famílias. E em Locke, pelo contrário, o estado de natureza
é a saúde do homem que colhe os frutos do seu trabalho, o homem
original nada tendo a ver com o patriarcado ou a autoridade constituída sobre
outrem, o estado de guerra sendo dominação por violência e o oposto
da natureza, mas em todo caso, o estado de sociedade é o contrato
social em que todos delegam poderes ao parlamento para por fim à violência
como à dominação, restaurando a liberdade originária mas agora sob forma
legalizada. Vimos que Rousseau segue o esquema de Locke mas introduz como
fator da guerra, determinantes comunitários.
E se à página 194 Carrara afirma explicitamente
que Levinas recusa o contrato social como a ideia que permite a
indiferença de uns aos outros porque transfere-se a responsabilidade só ao
Estado, à página 160 de fato vemos que a ética levisiana, ao invés
de ser individualista mesmo que como passionalidade do eu pelo outro,
é a ética da "cidade" que, segundo Carrara, é
já um reconhecimento dos direitos humanos, o que a torna preferível ao
estado de natureza. O que está bem de acordo com o situamento de Lévinas numa
época que já equaciona a transformação culturalista do Romanticismo, sobre o
estado de natureza dos contratualistsa.
Aqui, portanto, vemos que na apresentação de Carrara, em
sua crítica ao Estado Levinas considera a este apenas
como um hobbesiano que recua relativamente a Rousseau e Locke. Sempre
vendo o primitivo como a anterioridade natural, contudo ao contrário destes
dois supondo-a como Hobbes um estado de guerra de todos contra todos, ao
invés de harmonia do sujeito na natureza. É esse estado de guerra natural na
acepção de ante-social que o Estado viria limitar. Ora, é o mesmo em Locke
e Rousseau, apenas o estado de guerra sendo ulterior ao estado originário,
sobrevindo como rapina sobre o indivíduo só na natureza, por degenerados como
em Locke ou por paixões degenerativas ulteriores à Rousseau. O estado
de guerra é do mesmo modo ante-social e o que o Estado vem solucionar. Se
Levinas recusa essa definição do Estado, ele deveria visar a toda teoria do
contrato social, não se limitando à de Hobbes e ao primitivo como
naturalmente violento.
Na Europa é fato que o "descobrimento" foi justificado a
princípio como a obra da civilização sobre seres reportados fabulosamente
monstruosos, e assim no princípio da obra de Montaigne. Mas já na fase
tardia desta o europeu comum estava informado de que se tratava de pilhagem
sobre tribos de aborígines humanos, ainda que vivendo de modo
inteiramente incivilizado pelos padrões europeus - sem rei, lei ou
religião.
Porém o contrato social como ideia da origem do Estado já estava exaurido desde
que a nacionalidade emergiu como ideia norteadora na época de Herder, e a
constituição como efeito da nacionalidade cultural se tornou o referencial do
Estado contemporâneo. Obviamente a nacionalidade é irredutível a uma
decisão ulterior dos indivíduos, já que nascemos na pertença a ela, e, além
disso, a tendência pós-contratualista mas pré- ou pós- positivista é ver a
legalidade formalmente, como algo irredutível à providência
contingente.
O que Carrara reporta da teoria do Estado levinasiano é coerente com a
contemporaneidade, só que já ultrapassando o legalismo originário romanticista
que repousava, contudo, apenas naquele continuum hegeliano progressivo e
totalizante, do déspota à democracia. O continuun do progresso dos
Estados até a legalidade dos sujeitos, se torna descontinuidade de culturas - a
transformação própria do funcionalismo. Conforme Carrara, o Estado como
"limitação do infinito da relação ética", isto é, a meu
ver, culturalizado, para Levinas é ainda a emergência da visibilidade do
terceiro, entre o eu e o outro, que pressiona à "institucionalizar
o infinito" (op. cit. p. 157).
Nessa
linha alternativa à do levinas (contra)-hobbesiano ao invés de uma
defasagem de Levinas relativamente à história das ideias, parece-me haver
um certo retorno do rousseauísmo. Já que a determinação
desinfinitizante da cultura enquanto minha está limitada pelo confronto do todo
outro como o bar bar (bárbaro) da língua, reduzida porém ao
infinito no face a face da justiça. O encontro absolutamente inantecipável do
eu e do outro, que precipita a partição dos direitos entre nós. A
transcendência levisinasiana do outro volta a algo da imediatez da natureza.
O face a face da justiça terá que transcender o
incomensurável do confronto, a partir do terceiro -
e provavelmente como sua origem.
Mas por que isso é tão indesejável a Levinas? Como a Rousseau e toda
a filosofia da história que desde o positivismo a reduziu como trompe
l'oeil, desvio de curso entretanto necessário, dialético, do
originário até o estado de coisas escatológico e futuro, ideal à exemplo
da sociedade sem classes, desestatizada portanto, do marxismo. Tudo o que desde
o positivismo ultrapassou o referencial historicista dos românticos
no rumo dessa redução explicativa do todo da história que
marca a emergência da sociologia - e na época de Levinas, da
antropologia social. A teoria social sendo, desde Marx, o novo
locus da "teoria política" clássica, ou seja, o novo meio da
racionalização europeia do "primitivo". Por onde seu
anti-romanticismo, o primitivo como avesso do Estado e jamais vocação a ele.
Em tudo isso, repetindo, o suporte é o Sujeito pensável. O Romanticismo
pode operar o continuum historicista porque o sujeito que ele começou a pensar
era a seu ver originário - "fato primitivo" na expressão célebre de
Maine de Biran, e isso só será retomado por Husserl, ainda que como um recuo
cartesiano ao inverso da psicologia do "eu" irredutível a
"intelecto". O positivismo elide o sujeito pela coerção do meio
físico, mas se o pós-positivismo com exceção de Husserl o faz retornar é como
fato derivado a partir do processo psíquico sub ou in -consciente.
Porém o sujeito husserliano é ele mesmo variação da
intencionalidade na história - por isso a meu ver se tornaria
questionável a suposição de Gorman de que a ulterior teorização husserliana do
Lebenswelt arruína totalmente qualquer unidade do pensamento fenomenológico,
equivalendo ao fracasso de Husserl como pensador. Inversamente, a
intencionalidade variável explica a pluralidade da cultura onde já se instalara
desde o positivismo a irredutibilidade entre autoconsciência do eu
civilizado e a promiscuidade primitiva pré-ego-lógica.
Darwin assinala como já vimos, a transformação coletivista do conceito europeu
do primitivo. O Estado se tornando uma aquisição técnica da apropriação sobre a
coletividade, império, porém como a estrada real para o que presentemente é
legalidade. Mas uma legalidade em status ambíguo:
racionalidade e civilização, subjetividade e apropriação violenta,
porvir capitalístico e dialética do proletariado.
Para Levinas, segundo Carrara, "O Estado se situa então num entremeio
entre o face-a e a medida como exigência do terceiro". (p. 157).
Levinas concorda hobbesianamente que o Estado é paz, porém a paz naquele
sentido romano, imperial. Sem qualquer oposição à geo-ego-logia ocidental como
vemos, o contrário do Estado para Levinas é somente ambiguidade. O fim
dele, na expressão de Carrara, "é portanto a realização da
justiça" mas "sua legitimidade depende do alcance e da
realização deste fim." Também Carrara reconhece que o Estado
levinasiano "vive numa constante ambiguidade: ele se sabe traição da
retidão do face a face e distanciamento dela, mas se apresenta como soberano e
como objetivação da liberdade de todos".
Para Carrara, eis o pretexto para uma política extrapolada, uma
positividade do político ou ao menos a estipulação da tensão do ético e do
político ao invés de um total hiato entre ambos: "A ambiguidade
mostra que o Estado não é síntese nem objetivação das liberdades individuais.
Ela abre uma perspectiva fora da história - escatológica - de onde se pode
julgar o Estado".
Aqui Carrara toma partido pelo profetismo contra a fé: "E
é justamente a palavra profética que é capaz de acordar o Estado de
sua autossuficiência, reportando-o a um além que se faz ver a partir dele
mesmo, a partir do traço do infinito presente nele". (p. 158). O
"traço", pois, é importante - como a geo-ego-logia onipresente por
trás do aparentemente tão setorizado pensamento freudiano.
A matéria e sua vis receptiva continua impensável e incapaz de
pensar, assim como o primitivo, ainda que eles sejam o impulso originário e o
que o pensamento vem a sublimar pela boa repressão por um lado, reprimir
indevidamente por outro, e toda a questão consiste em separar esse joio desse
trigo.
Se o Estado é império, se ele é soberano, como podemos, contudo, diferenciá-lo
tão profundamente quanto requer Levinas, do outro que no face a face instaura a
altura e a soberania ética? Esta que é inalienável e escatológica, sendo a
arché e o telos, de modo que a coerência do pensamento do
irredutível na pluralidade da cultura se compromete entretanto pela
irreversibilidade da situação em altura. O outro jamais será ele mesmo
um eu relativamente a mim como outrem, eu fora da "egologia". A
identificação patológica é aqui enunciada de forma curiosa: o dever ser do
outro é o comando dele para mim que, assim, não sou o outro apenas enquanto ele
corresponde infinitamente - totalmente - ao meu ideal de perfeição.
O dilema entre o transcendental e o transcendente na filosofia de Levinas, isto
é, entre o ser a priori e o sendo mais eminente, parece-me dever retroceder à
origem medieval do transcendental, que era então apenas a modéstia de alguns
termos de absoluta generalidade como uno, verdadeiro e bom.
O "bom" aqui se aplica a qualquer coisa enquanto ela é sempre
integralmente aquilo que ela é - assim tudo que há é bom, e é
"uno" enquanto alguma coisa, pois se dissermos que alguém é um
canalha, estamos admitindo que é um bom canalha, que é todo ao contrário de um
sujeito honesto, e isso é verdadeiro, etc. O outro, pois, é eminentemente
transcendental como perfeito, e nesse sentido pré-kantiano que poderíamos
designar o transcendental cartesiano, para Levinas o outro é Deus.
A meu ver, a questão da política extrapolável em Levinas se resolve porém
sem tensão necessária. Como Carrara mesmo mostra ao afirmar que em Levinas "os
tempos messiânicos anunciados pelos profetas apontam para um tempo em que
nem o Estado nem a política serão eliminados já que eles devem favorecer a libertação
total" que só se realizará por um lado como "ordem
política" e por outro como a lei do Absoluto, isto
é, o exemplificado pela leitura levinasiana da bíblia. O reino de David é
avesso aos "reis que colocam seu poder pessoal acima da Torá",
o monarca ideal tem pouco - dinheiro, esposas, cavalos - ele é
intimamente regulado pelos "princípios morais".
Entre Estado messiânico
ideal fora da história, relação passional originária, e Estado nefando
histórico, a diferença não se instala portanto como entre liberalismo e
absolutismo. Na fórmula da passionalidade que é
o originário relativamente ao escatológico, portanto, poderíamos
ler Levinas como um Descartes da terceira meditação que, porém, colocou em
lugar de Deus o vocábulo do outro. Derrida procedeu desse modo, porém
para jogar Levinas contra Levinas, mostrando que do princípio aceito o que
se segue coerentemente é bem inverso à conclusão.
Ao que parece Dussel, citado em Carrara, procede de modo semelhante. Ele
defende que o outro é só analogicamente outro, em vez de totalmente como em
Levinas. O mesmo se constata na quinta meditação de
Husserl - a que trata da fenomenologia do outro - da
qual Derrida se utiliza contra Levinas. Isso mostra a ignorância do elemento
culturalista do pensamento levinasiano, segundo creio, porém como o título das
meditações de Husserl remete a Descartes, é este o núcleo inicial da
crítica derridiana que agora devemos examinar.
O
problema aqui para Dussel é que Levinas não distingue o rei messiânico da
profecia escatológica, a ordem política da espiritual - estranha dedução na
moldura da tese carrariana da necessidade da extrapolação da política desde uma
ética que lhe é avessa. De fato a crítica é para Carrara, ao contrário da
confusão aparente do enunciado, de que Levinas reduz uma coisa à outra. Sem
mediação, ele fica "limitado à crítica negativa da política sem poder
propor novas alternativas" que construiriam o que Dussel designou
a "nova totalidade". (p. 162)
O
modo de colocar a crítica parece sempre respeitar a dicotomia da
totalidade/política e infinito/espiritualidade, porém para Carrara
Levinas deveria ser lido na ambiguidade ou tensão entre ambos, na medida em que
se o Estado escatológico é um para-além do Estado político, ele se realizará
contudo ainda como lei e está contido no próprio Estado qualquer como a
promessa messiânica da realização da lei. Por outro lado, Levinas conserva a
justiça da Torá como a verdade moral a ser realizada, a elevação na bondade que
restabelece a paz rompida, ao invés da lei indiferente ao espírito. A
realização da utopia realmente ficou no espírito em Levinas, porém para
Carrara isso porque ele quer positivamente matar a letra, a traição do dizer
pelo dito, etc. - independente de tudo que se possa criticar do aspecto
inacabado do seu pensamento nesse particular da realização da
utopia.
E como se poderia esperar do meu aporte
geo-ego-lógico, em Levinas a Torá é o emblema do Ocidente - este como
devir distópico mas propedêutico da futura utopia - uma vez que o
hebraísmo aí é o oposto do "oriente" que "sempre
priorizou o pensamento dedutivo", e se torna possível o
pensamento do futuro, o compromete pelo desejo de conquista e
imperialismo, ideologia e totalitarismo. (p.163). O cristianismo também é
apenas uma espécie de orientalização, via helenismo, na distopia
do ocidente até sua realização como depuração de si
mesmo.
Ora, aqui
devemos manter nossa interrogação a propósito da diferença entre
totalitarismo e "lei do Absoluto" na cidade messiânica. Ao
contrário da asserção de que Levinas nada disse sobre a realização, o vemos
exemplificar com o príncipe hebreu que "deve se deixar educar pela
lei", e a Torá é um referencial documentável. Mas como, a partir
daí, o "outro" vem a constituir o face a face? A meu ver, pois, o
sentido da crítica devia ser a vagueza do que Levinas enunciou como o mais
concreto, a não-relação do eu e do absolutamente outro na assim designada
imediatez.
Derrida esclarece Dussel, a meu ver, ao estabelecer o objeto da crítica
como a transposição feita por Levinas, do outro naquele lugar
que Descartes na terceira meditação concede a Deus, o infinitamente
perfeito. A cisão do claro e distinto e do obscuro e confuso é aí feita
magistralmente por Descartes, como entre Deus e o eu. Por um lado, claro e
distinto, movimento, perfeito em sim mesmo, ser positivo, identidade
inquebrantável do pensamento, Aristóteles repetido, Deus autonoético na acepção
do ato puro; por outro lado, o eu desejante, portanto identidade
cindida do pensamento em outro, parcialmente pensamento, obscuro e confuso,
não-ser, negativo, devir. Ora, Levinas colocando o outro como Deus
relativamente ao eu desejante, a totalidade decorre da generalização de um eu
fictício, realmente compreensível como um conceito - quando ele é, ao
contrário, incompreensível, pensamento incompleto.
O Estado como generalização dos direitos desse eu é o que Levinas critica,
em contrapartida colocando o infinito entre Deus e eu, assim
como Descartes, enquanto a ideia que Deus colocou em mim. Ora, o desacordo
levisiano com Descartes está em que essa colocação para Descartes é como uma
marca de Deus em mim, e para Levinas não pode ser assim, porque isso
reduziria a alteridade para mim a um signo.
Derrida aceita o procedimento cartesiano pelo qual se eu penso em
Deus, este corresponde a uma inscrição em mim que só posso realizar
depois, como ideia minha. O outro para mim vem antes de um
conceito em mim. Desse aporte contra-levinasiano, pelo qual seria impossível a
oposição levisiana do alter-huic que traduz o hebraico como todo outro ao
invés do eteron simplesmente heterogêneo grego, Derrida avança então
para o exame da conclusão levinasiana da precedência do
outro/Deus. O que é necessário concluir dessa lógica a contrario que
é o percurso da dúvida em Descartes.
Ora, enquanto Deus é o operário que me construiu e que inscreveu em
mim a sua marca, a coerência se mantém, mas na medida em que Levinas
recusa a inscrição e o signo, ele retira a altura da construção, e, assim,
a invisibilidade do rosto verdadeiro de outrem, aquele que faz dele
transcendente, outro - ao invés da face visível da imanência em que o
esqueço como outro e o reduzo a objeto mesmo entre outros
- retorna ao incompreensível. Sem o signo, a invisibilidade é apenas
do outro como outro homem, mas então conforme Derrida, o mundo de Levinas seria
a própria imoralidade, o estado de guerra, e Deus também seria
compreendido como um outro - tudo isso de que se salva Descartes,
por jamais ter confundido a construção com a alteridade na transcendência.
Em Levinas e Descartes, o outro e Deus são inferências a
partir da limitação da potência do eu, mas na lógica do
cartesianismo o poder que me limita é também o que me faz
possuir qualquer poder que eu tenha. Em Levinas, a limitação é
ao mesmo tempo o que impede a guerra e o que a produz, Deus e o outro homem,
impossível de explicar portanto, de onde vem o poder que o dever
ético me obriga a conceder a outrem.
A consequência desse paradoxo evidenciado na leitura critica de
Derrida, vai se esclarecer na fricção das fenomenologias husserliana e
levinasiana. Assim como Husserl, Levinas fala do infinitamente outro, porém ao "reconhecer
a este infinitamente outro" como "modificação do estatuto
intencional do ego em geral", Husserl justifica a origem e a
legitimidade de sua linguagem. É na linguagem, porém, que ao ver de Derrida,
Levinas se desautorizaria a falar num infinitamente outro, na medida em
que este outro "não aparece como tal nesta zona que ele chama
de o mesmo e que é o nível neutro da descrição transcendental". (p.
178). O infinito do outro está limitado, pois, pela própria finitude do
eu.
E desde aí Derrida pretende que o infinitamente outro levisiano não escapa de
ser o pensamento da finitude radical, uma vez que, como vimos acima, o rastro é
irredutível à marca, entre Deus e eu, o altíssimo e o desejo pela altura,
vige a semelhança ideal, ao invés da diferença de criador e criatura.
Se seguirmos Levinas, segundo Derrida "o movimento da transcendência em
direção ao outro" deixaria de ter sentido "se não comportasse
como um dos seus significados essenciais, que eu saiba, em minha ipseidade,
outro para o outro", e Husserl faz isso mesmo. Mas invés do que
Levinas acredita, é porque Husserl vê o outro como alter-ego que ele
pode vedar a via da confusão violenta do outro com uma outra coisa, em vez
de o manter na sua alteridade irredutível como outro ser humano.
Se, inversamente, procedêssemos conforme Levinas e negássemos que como
outro ego ele pudesse ser irredutível ao que o eu é, então o eu jamais
seria vítima da violência como o outro do outro. A violência que Levinas
denuncia não teria vítima nem autor, seria impossível. Essa impossibilidade é
então a do outro como totalidade em si mesmo, sem relação com o ego em
que ele é realizado como outro, na dedução final de Derrida. Ele supõe
que Levinas se aproxima de Hegel a colocar o alter-ego na qualidade
de objetivo como um falso infinito. Porém para Derrida o alter-ego sendo irredutível
a mero objeto, e o conceito levinasiano do outro sendo diverso da
intersubjetividade em Hegel, se nela o absolutamente
exterior permanece como deve ser, impensável. E a escatologia só poderia
se cumprir - na conformidade mesma a Levinas - se fosse suprimida toda
diferença levinasiana entre o mesmo e o outro.
Como
vemos, Derrida opera por redução ao absurdo. Sobre temas levisianos
importantes, mostra que admitindo o princípio tal como Levinas estabelece,
contudo a conclusão coerente seria o contrário da que ele mesmo afirmou. Apesar
da lógica impecável aí seguida, a meu ver na verdade Levinas foi refutado
por Derrida mas não superado por ele. Pois, que "relação" é a
analogia? Derrida ignora a repetição de Biran em Husserl, quando
este corta a via de qualquer pertinência a priori de algo além do meu mundo
para um "eu sou" mas a este expressa como o "fato
primitivo".
Ora, o "fato primitivo" do eu biraniano é na experiência: a
resistência da matéria ao meu esforço, na qual além de um certo ponto reconheço a inútil intenção
de prosseguir como sendo intenção do meu eu. Sem meu encontro da
resistência - e Levinas fala justamente do outro como a "resistência
ética" somente encontrável na experiência - jamais eu me teria restituído
o próprio eu, pois minha ação prosseguiria automaticamente, como arco reflexo,
sem exigir a minha autoconsciência.
E eis porque Biran zomba dos iluministas. Como Condillac,
eles deduzem a ideia da rosa do odor da rosa a que foram juntando as
demais sensações que desperta, porém eles nunca se colocam a questão de
como se discernem a si mesmos, desde suas sensações até sua ideia de rosa.
Eles não poderiam explicar como se percebem a si mesmos como seres
irredutíveis a essa ideia.
A relação entre espírito e corpo em Biran não é dualismo
cartesiano, por ser, como Biran afirma, irredutível à relação de
um relógio com seu mostrador. Biran, como o romanticismo em geral, pensa o
homem realmente duplo, ao invés de um dualismo que por um lado apresenta o
corpo e o espírito independentes, mas por outro reduz o corpo a algo impensável
e contingente. O corpo em Biran já é organismo, e o espírito é composto por
duas regiões, o simples raciocínio e as faculdades do espírito que se realizam
nas culturas, como o estético, o místico, etc.
Em
Maine de Biran essas faculdades são o conteúdo do que hoje designamos
antropologia, ao invés de atribuída desde uma filosofia que as
pudesse predeterminar. Além disso, a exata cisão de organismo e espírito é
também uma tarefa de pesquisa em progresso, porque já sabemos que em
princípio faculdades mentais podem ser afetadas pelo organismo.
Biran motejava assim do estoicismo - que prega o controle da vontade,
porém de fato ninguém pode manter o controle quando os sucos gástricos estão
excessivamente excitados. Já a percepção deixa de ser a faculdade espiritual
básica, enquanto independente do organismo, porque ela é na verdade dependente
deste. A percepção é uma faculdade que depende de leis do aparelho perceptivo,
por exemplo, ela se degrada com o uso, tornando-se automática, e, assim, menos
acurada do que quando requer atenção ao desconhecido.
Sabemos desde o século XX que a fisiologia oitocentista do esforço
era deficiente, supondo que se tratava de inervação, porém preservando-se
apenas a explicação factual da resistência, vemos que há uma explicação do
"eu" voltada à imanência.
Ao invés de ter atribuído o mérito da explicação pela resistência agora ética
em Levinas, Derrida procede como se houvesse aí lacuna, o outro
como evidência por explicar como se realiza, e louva Husserl por
ter tratado a evidência como transcendental - mas se é assim, como
Husserl espera discernir, se não já a ideia de outro-eu desse mesmo
outro enquanto não-eu, qualquer ideia verdadeira de uma
falsa?
E sobretudo, de que modo o transcendental é um "fato primitivo",
na reutilização por Husserl do conceito bironiano, ao invés
de condição de possibilidade puramente intelectiva e formal de
fatos dados quaisquer - se o elemento do pensamento de Husserl é o
transcendental?
Creio porém que a totalização do outro ocorre tanto em Husserl quanto em
Levinas por ter este extrapolado o outro na forma da soberania que a ele
atribui, e que assim nenhum deles escapa ao problema da realidade efetiva do
outro. Ao menos, Levinas manteve o outro nessa realidade efetiva como horizonte
do pensável, a base da imanência em que situa o encontro.
Derrida
exibe várias contradições notáveis nesse ponto que me parece ser o da tangência
de sua ignorância das relações de Levinas com a história das ideias, o
romanticismo desde a contraposição fichteana do moi e do não-moi, e o
anti-imperialismo de Shopenhauer.
Derrida aporta por meio das mencionadas contradições, desde o que detecta
como impossibilidade do percurso levinasiano à sua precedência como sua
verdade: "A metafísica de Levinas pressupõe num sentido -pelo
menos, foi o que tentamos demonstrar - a fenomenologia transcendental que
ela quer discutir." (p. 190)
Porém reconhece que tampouco a fenomenologia permite responder ao que
a impossibilidade constatada permitiu questionar: por que a história e a
finitude? Sobretudo porque questionamos a história como violência, e,
assim, à finitude?
As
contradições mais notáveis a propósito de Lévinas assim são rastreáveis.
Entre considera-lo não anárquico e a sua, uma ética sem lei;
entre a chave da obra levinasiana como a nudez do rosto (p.
151) e como, inversamente, essa questão da relação originária do
outro com a história (p. 134); sobretudo, entre a defesa do
teoretismo contra a imediatez do encontro em Levinas, e, depois, a
contrariedade de todo estatuto teorético ao pensamento do ser heideggeriano,
igualmente oposto, ainda ulteriormente, à imediatez dos sendos
levinasianos.
Pode-se argumentar quanto a isso que Derrida já operou no entretempo a
passagem de Husserl a Heidegger: "Ora, Husserl jamais
desenvolveu essa questão do ser" que, como tempo, permite entretanto
desenvolver o que ficou emperrado nas fenomenologias husserliana e
levinasiana. A questão mesma do porque da finitude em sua conexão com a
história e delas serem o veículo do pensamento da violência só
poderia até aí ser aberta pelos pressupostos formais-transcendentais dos discursos
que a impunham ou a censuravam. A pergunta era - levinasianamente
- conservada apenas no silêncio ou eliminada ao
ser silenciada na resposta circular do pressuposto. Agora
um pensamento novo como o do Ser esquiva o limite do transcendental, embora conservando-se
por enquanto independente da efetividade do sendo.
Porém a contradição se mantém se antes o que havia sido afirmado a
favor do teoretismo era que, se a fenomenologia o é, isso se mantem "na
medida em que todo pensamento e toda linguagem de fato e de direito
aliam-se com o teoretismo." (p. 174). Já quando se introduz o
pensamento do Ser, como o que Husserl nunca pensou, Derrida
cita Heidegger: "o fazer desse pensamento não é teórico nem
prático", e por isso ele é tão estranho. Por sua extrema
simplicidade (p. 193, 4). Mas Levinas também - para mais uma vez jogar com
ele contra ele - poderia ser um pensamento anterior à oposição, se ele instaura
uma transcendência metafísica como ética, portanto pré-prática, como sugere
Derrida: "lidamos com truísmos bem estranhos".
Mas é mesmo verdade que para Levinas exista algo que sem ser
quimera, esteja antes da efetividade, como da prática? Porém de fato aqui
a contradição derridiana é a maior, relativamente a todas as que enunciamos
antes. Tudo se desencadeia desse "truísmo" - porque é a
palavra que Levinas precisamente nega "ao primado da ontologia
heideggeriana" enunciada na prioridade do conhecimento do Ser do sendo
relativamente a todo conhecimento do sendo.
Ora, Levinas o faz para inserir o enunciado na história das ideias, admitindo
que com ele Heidegger está a "pronunciar-se sobre a essência
da filosofia", porém apenas como alguém que quer afastá-la de
toda imediatez do sendo. Esse elemento em que para Levinas nós deveríamos
constatar toda a estranheza da experiência da irredutibilidade
ao eu, o que o pensamento, tal como o ópio, sugeriríamos, faz
adormecer.
Derrida
comenta que "a frase de Lévinas é arrasadora para a 'ontologia'''.
Derrida começa a refutação da ética primordial por afirmar inversamente a
Lévinas, o "truísmo" como a verdade - "true",
"truth"; nesse caso, do enunciado heideggeriano do Ser em toda a
sua simplicidade. Mas por outro lado, procede como se Levinas houvesse
afirmado o truísmo para então Derrida negá-lo, a oposição a Levinas aqui
sendo feita por que a negação é por outra via, contrária a do próprio
Levinas. O percurso desse - deveras - estranho procedimento
derridiano excede os limites desse estudo examinar com a
minúcia que merece. Ele constitui a litania do "pensamento do
ser" que já visamos com algum detalhe até aqui, e suas aporias. O que
me parece oportuno é o que Derrida deixou intocado, a
saber, a relação entre Levinas e a história do pensamento
contemporâneo. Até aqui minha intenção foi recuperar as suas influências
como o seu intertexto. A partir daqui viso a sua recepção, mas já
extrapolando as remissões diretas, isto é, tangenciando o que
poderia ser um percurso temático em comum com Lévinas. A metafísica
do Rosto tem com efeito um futuro,
e importante, na teoria política do imperialismo.
A metafísica do Rosto
Derrida como vimos, alinha Levinas na longa lista do idealismo platônico
"logocêntrico". O todo do ocidente e a ocidentalidade em si,
explicando Derrida na Gramatologia, a "Als Struktur" heideggeriana pela
escrita que a constrói. Nessa "estrutura como", os sendos
parecem independentes, cada coisa é "como" isso que ela é, mas
assim, a dissimulação do ser, a totalidade do sentido de uma linguagem que está
por trás da possibilidade dos sendos serem atribuídos como são - uma possibilidade
entre outras - é necessária e não casual.
Do mesmo modo, na Gramatologia assim é a escritura na sua aparente repressão
fonologista do signo como possibilidade disposta pela escrita
fonética. O ocidente logocêntrico, essa repressão fonologista em
ato, é um todo de cultura desde a origem grega, um todo não apenas
para si, geo-ego-logicamente, a despeito das rupturas que podemos constatar a
partir do cristianismo, que já coloca a duplicidade do habraísmo, ou depois,
da mera possibilidade da ciência experimental - concomitante
à visibilidade indedutível das Américas. Não, ao invés, para Derrida o
todo é um todo transcendental, a ilusão transcendental, e este como
ilusão porém assim não casual e portanto, existindo realmente um transcendental
(significante) etc. - assim como para Heidegger, o ocidente é o
caminho que passa pela fantasia, mas é o único, do "pensamento".
O
alinhamento derridiano de Levinas na tradição logocêntrica porém, não
deixa de equacionar a inserção recente do corpo próprio. Com efeito, a
fenomenologia de Husserl a Merleau Ponty e Sartre enveredou pelos caminhos da
existência. Levinas com efeito exaltou Ponty como o movimento desmitificador da
fala eautós, que ele julga o contrário da carnalidade interlocutiva.
Essa carnalidade portanto, que serve para injuriar como
"desencarnado" aquele que só reconhece no que diz o
correlato de suas próprias impressões, o seu próprio pensamento, é
contraditória - não é sensível, é metafísica e mesmo que o seja como
desejo. Levinas aqui está certamente inscrito na terminologia de Seyla Benhabib
e da new left de intenções politicamente bastante duvidosas. Por aí a
contradição de Levinas entre o ético e o político, assim como entre um a priori
metafísico racionalista e não-teorético-transcendental.
Porém como vimos, o procedimento levinasiano não é fenomenológico, não parte da
intencionalidade do corpo próprio, e sim do outro como origem do
espaço. Para Derrida, Ponty já havia apreendido que o pensamento não é de
início linguagem sem ser assim relação com o outro. Mas onde vemos Levinas
ultrapassar Ponty na concepção derridiana, é nisso pelo que em Levinas
outrem é irredutível ao pensamento intencional, impensável na forma do conceito
- epekeinas tés ousias, como o bem platônico e o uno plotiniano, ao ver de
Derrida.
Ora, proibido o monólogo, estando na irredutível exterioridade em que
lança o mesmo, o outro dissocia pensamento e linguagem e subordina
esta àquele - na dedução derridiana. Longo hábito idealista, que agora
reúne o Descartes da terceira meditação, Merleau-Ponty, Heidegger e Husserl.
Aqui, ao que parece, Heidegger está visado apenas em sua defasagem à escritura,
não como o precursor dela, o pensador da Als-Struktur e da dissimulação, como
alhures. Em todo caso, o intervalo possível dessa direção idealista
única é mais pré-kantiano do que hegeliano, e assim muito clássico, não podendo
contornar as escolahs clássicas. Todos podendo assim ser reduzidos ao esquema
levinasiano do infinitismo - outro como alter huic, o altíssimo da Torá,
só pode ser o infinito, nem o eteron grego nem outrem
judaico-cristão.
Ora, o problema com o texto derridiano nesse ponto, é que como assinalei, ele
vinha defendendo a perspectiva de Husserl na quinta meditação, pela qual o
outro é alter ego cuja intenção na mente é produzida pela originareidade do
ego. A escritura é pois um conceito da materialidade do signo que ao inverso do
que Derrida pretende, subentende algo que ela explica, ao invés de ser um
fenômeno independente. Derrida não está assim de todo a salvo da escolha
clássica como, segundo ele, entre o que é de início e o que daí apenas se
deriva.
Assim, sendo duvidoso que exista uma predeterminação unívoca entre o mesmo e o
outro na origem, sendo antes o que está em questão, ao invés de só podermos
proceder pela opção entre um deles como primeiro. E sendo essa questão a da
variação na cultura, ao invés da determinação unívoca da psique, se só podemos
lidar com um prognóstico do que é normal a partir do conhecimento do que é
efetivo.
É como tenho repetido porém, a inserção contínua da informação empírica da
efetividade da variação na cultura, atingindo a inexauribilidade desde Murdock
e o limite na expectativa de constantes inter-sociais, que vem implicando na
sucessão dos paradigmas da alteridade contemporâneos, desde o Romantismo até
agora. Vimos que o equacionamento do empírico desde o existencialismo, ainda
que para transformar as próprias categorias da ideação, vem agora por inclusão
do rosto e do corpo, como em Levinas e Merleau-Ponty. Esse tema continuou
importante no rumo da idealidade, na imanência do pós-estruturalismo. A
depuração puramente significante do inconsciente freudiano, vinda do
racionalismo lacaniano, alcançou uma grande amplitude na semiótica
pós-estrutural, onde com Deleuze e Guattari o tema do rosto tornou a ser
investido.
A conexão com a história do pensamento obscuro e confuso pode ser rastreada em
Deleuze e Guattari, mas nesse novo novo kantismo, tratou-se de reverter
Descartes justamente pela ausência da confusão no seio da matéria - se ela é
agora, enquanto o automatismo instintivo endereçado à
trama pedagógico-social da formação infantil, reduzida à idealidade
do inconsciente. Em Diferença e Repetição (Rio de Janeiro, Graal, 1988),
trata-se do que Deleuze elaborou em termos do pensamento "obscuro e
distinto" (p. 241)
Aqui a memória transcendental é o esquecido, como o sublime kantiano, mas
enquanto o que sofre o encontro do signo que ela então deve compor em
"sistema", formar assim uma "ideia" em sentido não
inteiramente platônico. O sistema não é a organização da recognição como o que
esgota a significação do intelecto.
A idéia é antes a fórmula de um cálculo diferencial,
isto é, que deve regular as variações em devir - o fundo obscuro das
sensações - atinentes porém a uma faculdade determinada como o
possível desse devir, e por aí a "linha" de
variação é distinta. Trata-se da gênese das faculdades kantianas
- o que Kant porém não explicou. Aqui podemos reutilizar o diagrama
de Saussure que acima já referenciei, exemplificando a faculdade da
fala.
Os dois fluxos do pensamento puro e sonoridade vocal pura, são
conjugados, como vimos. Para Deleuze então essa conjugação é feita a partir da
coalescência da "ideia" como diferencial que calcula a dupla variação
como faculdade da fala. Porém o fundo obscuro vocal está ainda por se decidir
nesse cálculo - entre a fala e o canto como faculdades distintas.
A memória deve então estabelecer seu encontro do signo numa região
que é comum a ambas, o loquendo, assim como todas as faculdades estão
previamente unidas num "sentir" obscuro indiferenciado. Ora,
desde o sentir à qualificação de cada indecidível, como de cada fluxo
conjugável, opera-se o terceiro momento em que a faculdade é ideada -
é isso que a ideia ou cálculo como que "mede" pelo recorte das
unidades menores que compõe a faculdade, fonemas na fala ou emissões rítmicas
do canto.
Essa teoria complicada se torna mais esquemática do Anti-Édipo ao Mille
Plateaux já com Guattari. A fórmula diferencial ideal se desloca pelo regime de
signos, ou plano de consistência, que é investido conceitualmente a partir
de uma teoria da energia ou desejo - que não seria oportuno examinar
aqui.
O
que nos importa é notar que em Diferença e Repetição, outrem é tematizado como
ainda em A Lógica do Sentido - como estrutura a partir da qual todo o mundo é
organizado, não o contrário, havendo um mundo antes que possa haver nele a
habitação de outrem na nossa percepção. O que iremos examinar logo à
frente.
A temática do obscuro e distinto em Diferença e Repetição, ressoa com uma
disjunção em que por um lado está a forma distinta que só a organização das
faculdades como vimos, irá poder estabilizar funcionalmente. Por outro lado,
está o fundo obscuro em que até mesmo as formas, como a cabeça e as partes do
corpo na exemplificação deleuziana, são apenas traços fugazes,
desconexos. Inversamente, o Mille Plateaux irá tematizar o rosto em
profundidade, numa teoria que vem ressoar com a questão do imperialismo na
globalização, conforme o que examinaremos desde aqui, enquanto o parâmetro
geo-ego-lógico da idealidade que recalcou de fato o
equacionamento empírico da variação máxima na cultura.
Entre a rostidade ("visageité") desenvolvida em
Deleuze-Guattari e a polêmica atual de Hardt e Negri contra a
perpetuação do conceito de imperialismo no que eles consideram a realidade
do "império" na globalização, há um vínculo expresso
pela citação do texto daqueles autores sobre o tema em questão.
Aqui examinaremos a construção da rostidade em Deleuze e
Guattari enquanto uma teoria crítica do imperialismo, no texto
intitulado "Anné Zéro, visageité" desenvolvido em Mille
Plateaux (Paris, Les editions de minuit, 1980). A citação de Hardt se
encontra em seu artigo no volume dedicado a Deleuze (Alliez, org. Gilles
Deleuze: uma vida filosófica. "A sociedade mundial de controle".
São Paulo, ed, 34, 2000).
A citação de Hardt, que referencia sua parceria com Negri embora assine sozinho
o artigo, comporta um degrau crítico a Deleuze e Guattari, na medida em que a
citação visa definir a alteridade do outro como o liame da dominação
imperialista - que é porém colocada como mera ideologia, por
assim expressar. O outro é inapreensível de fato,
o imperialismo procede por anexação na mesmidade.
Conforme a citação do Mille Plateaux: "o racismo europeu [...] nunca
procedeu por exclusão nem por atribuição de alguém, designado como Outro [...]
O racismo procede por determinação das distâncias de desvio, em função do rosto
do homem branco, que pretende integrar, em ondas cada vez mais concêntricas e
retardadas, os traços que não lhe são conformes. [...] Do ponto de vista
do racismo não há exterior, não há pessoas do fora" (op. cit. p. 365).
Para Hardt isso é indiscutível: "De fato, Deleuze e Guattari
nos levam, portanto, a conceber a política racista não em termos de exclusão,
mas enquanto estratégia de inclusão diferencial".
Porém a seu ver apenas dever-se-ia ressalvar que é questionável a
posição deleuze-guattariana de que "esse foi sempre o
caso", ao invés de ser apenas "uma excelente descrição da condição da
sociedade de controle".
A própria expressão "sociedade de controle" é empresta por
Hardt a Deleuze, que a utilizou uma vez para caracterizar o que teria
sido a convicção de Foucault acerca do futuro daquilo que designou a
sociedade disciplinar oitocentista. Mas Hardt também questiona que Deleuze
tenha realmente haurido algo de Foucault nesse sentido, ou que tenham
ambos atingido o cerne da transformação em curso. Uma postura algo ambígua se,
por outro lado, a ruptura básica do conceito de império pretendida por Hardt e
Negri, se relacionam ao tema deleuze-guattariano do rosto. Assim o
propósito do nosso exame é o cotejo do que Hardt afirmou em termos da
rostidade em Deleuze, com os textos referenciais.
Aqui volto-me pois ao Mille Plateaux para um exame da sua
concepção do sistema do rosto todo-inclusivo, como uma instância
unicamente europeia e branca, e de modo nenhum originária - o primitivo
não tem rosto, seu sistema é outro. Questiono pois, se podemos realmente
aceitar a opinião de que o racismo é a inclusão diferencial como supõe
Hardt, de modo que a posição de exclusão do rosto ao primitivo seria
o contrário do racismo ou do "europeu". Podemos
realmente aceitar que totalizar o primitivo na anterioridade - a expressão
é citável - do rosto é o contrário de "racismo"? E que inexiste
ambiguidade na assunção da Europa como um racismo para o qual "não há
pessoas do fora"?
Uma indagação ulterior a estas importa ao tema deste nosso estudo. O
contrário da premissa levisiana do imperialismo como a negação do rosto/
do outro é realmente válida?
Mas como devemos compreender essa contrariedade, se o que
ela deduz é que o imperialismo é a rostidade - ao mesmo tempo
todo-inclusiva sem-outro; inclusiva de algo outro a incluir; e finalmente
de um outro que jamais foi ou poderia vir a ser rosto? E sobretudo, a que
política e/ou utopia pós-imperialista a rostidade remete, em paralelo ao
Absoluto levinasiano?
O sistema-rosto em Deleuze e Guattari marca suas distâncias do que poderíamos
colocar sob um esquema wittgensteiniano do rosto como a função do seu contorno.
Assim como o parágrafo 216 das "investigações
filosóficas" expressa para qualquer signo que poderíamos reconhecer
do mesmo modo se em vez do grafismo existisse um buraco que o reproduzisse.
Algo
do buraco do signo ressoa com o sistema-rosto em Deleuze e Guattari,
mas este articula ao invés da função de contorno, traços elementares: a
brancura como o muro, a escuridão como o(s) buraco(s). Os elementos
muro-branco buraco- negro se conjugam como a face e os olhos no
rosto, mas desde essa conjunção fundamental da rostidade eles comandam toda
economia pictórica na elementaridade do traço.
II) A cabeça e o Rosto
O estudo da concepção deleuze-guattariana do sistema-rosto apresenta duas
complexidades de sua mera tangência. Primeiro, a aporia de compreender a
vizinhança das teses da Logique du sens (Paris, Les editions de minuit, 1969) e
do Mille Plateaux (op. cit.). Lá, o artigo "Michel Tournier et le
monde sans autrui" ("Michel Tournier e o mundo sem outrem"),
trata o remake de Defoe feito por Tournier, em torno do tema de Robinson
Crusoé. Porém deslocando a figura do protagonista, que se torna ao invés do
nauta ocidental perdido, Sexta-Feira, o aborígine à
vontade. Em todo caso, este mundo é sem ninguém, uma ilha
perfeitamente deserta.
Ao tratar a bela ficção de Tornier em termos de "um romance
experimental indutivo" (p. 354), Deleuze desfaz na Logique du
sens a suposição de que a reescritura reapresenta na mesma ordem de
pressupostos, o que a escritura fez na origem. A intenção de Tournier
é contrária à de Defoe.
Defoe pode ter sido também uma "recherche" ao seu tempo,
como pesquisa que visaria ela mesma uma recriação, a da
ordem progressiva real da criação das técnicas e do progresso humano,
refeita por um homem só, tornado exemplar. Tournier reverte o pressuposto dessa
exemplaridade possível. Numa ilha deserta, para um homem só, as condições são
outras que as da sociedade ao longo da história.
Além disso, o Robinson de Defoe é um intelecto calculador, e ele é o
interrogado segundo o problema do desenvolvimento. O Robinson de Tournier é um
homem sexuado, então a "recherche" vai no sentido contrário ao
progressivo. A pesquisa é regressão até a libido originária, onde os
elementos livres de todo trabalho do negativo que resultou na sublimação e
no progresso, estariam finalmente visíveis.
Ora, o trabalho do negativo, que pelo que coloquei acima, aqui podemos
assimilar ao trompe l'oeil da história do desenvolvimento encetada
pelo Sujeito da história, é o ocidente conforme o meta-relato
geo-ego-lógico da modernidade. Repressão despótica
que permite definir a má situação presente em vias de
planetarizar-se, mas encetamento único do progresso que permitirá,
futuramente, eliminar a condição adversa - mas para uma saúde
que do originário só conserva o esquema do ultrapassamento, já que
como anterioridade ele não conjurava a distopia da ultrapassagem.
Acautelados estamos pois, contra a interpretação da regressão,
esse "reencontre de la libido avec les éléments libres, la
découverte d'une énergie cosmique ou d'une grande Santé élémentaire...",
como realmente uma utopia (p.352). Ele não reporá um estágio originário nem
garantirá um novo início. Ele não é político, é
"bastardo", e se para um Deleuze que ainda se dizia
reversão do platonismo, na ocasião mesma dessa reversão, esse epíteto
arcaico soaria estranho mesmo dito de um conceito, ele explica não
uma impossibilidade de ser pensado na simetria inversa do material
ao ideal. Não uma khora platônica nem um outro infinitizado, fora da
condição da carência, ele é bastardo na condição do excesso. Enquanto
enunciado da "perversão", para Deleuze, é a mistura de duas
coisas, conceito "meio jurídico, meio médico". (p.
353) Não é por isso algo positivo, pelo contrário. Para Deleuze, nem a
medicina nem o direito ganham com a mistura que define o
"perverso".
O alvo é Lacan, evidentemente, que não recusou a contribuição da medicina
na definição do problema jurídico da penalidade. Lacan a sancionou, definindo-a
como dever da sociedade para com o próprio criminoso, uma vez que seu crime
teria por causa a dúvida sobre se a sociedade existe, a perversão da
negação de que ela existe.
A meu ver a penalidade é bem inversamente, a profilaxia social, obrigação com
as vítimas e meio de evitar que se vitimize - mesmo que a observação de Lacan a
propósito não se invalide só por isso. Ou seja, a meu ver a punição do
criminoso é obrigação da sociedade consigo mesma, porém em âmbito público e não
ético, ou seja, obrigação do Estado.
A questão para este Deleuze ainda anti-platônico - ele não o será mais,
com Guattari, em O que é a filosofia? - é reconfigurar a perversão
como "o elementar" da neurose, aquilo de que a neurose é feita,
não obstante ela ser o negativo da perversão.
Mas qual a novidade nisso? Se psicose é o que grosso modo se
considera loucura, a neurose sendo apenas a perturbação da personalidade sem
delírio, a perversão é classicamente considerada na psicanálise e em toda
psicologia do século XX excetuando o behaviorismo, como fixação do
adulto numa fase elementar do desenvolvimento infantil, as fases
caracterizando o "pré-ego-lógico". A perversão - gênero e
grau da fixação - é pois o diagnóstico preciso tanto da neurose
quanto da psicose. Esta é apenas a fixação na fase mais longínqua, a inicial
(narcisismo primário).
Se não há novidade por aí, Deleuze tenciona não deixar ver. Trata a bastardia
da perversão no trânsito da ciência normal como o preconceito de se negar o
desejo do perverso: "le pont de départ est celui-ci: la perversion ne
se définit pas par la force d'un désir dans le système de pulsions; le pervers
n'est pas quelq'un qui désire, mais qui introduit le désir dans un tout autre
système et lui fait jouer, dans ce système, le rôle d'une limite intérieure,
d'um foyer virtuel ou d'un point zero (la fameuse apathie sadique)". O
perverso não é um eu que deseja, mas um Outro para o eu. A
perversão não é um objeto desejado dotado de existência real. (p. 354)
Deleuze parece ter esquecido nesse ponto o elementar da história, a
conexão do sistema com o desejo sexual que singulariza a definição
pré-ego-lógica psicanalítica, relativamente a outras definições como por
exemplo a gestaltista "psicomotriz" de Wallon ou as
"condutas" de Janet. A relação entre o eu são e o outro
perverso são em todo caso relativizadas, não é de negação, mas de
anterioridade. A criança, o perverso polimorfo conforme Freud, não é de fato
perversa ou neurótica, dado justamente seu polimorfismo, o estado
infantil, em crescimento. O contrário da fixidez da doença.
O
que interessa ao nosso tema é que Deleuze vai tratar nesse artigo sobre
Tournier, a ausência de outrem na ilha deserta como o outro lado da tela em que
se tece o desenvolvimento psíquico. Este teria por objetivo no
tratamento deleuziano, apenas formar outrem como o polo do ego cuja
normalidade é intersubjetividade. Mas assim para Deleuze a
normalidade é política - nesse sentido de ser "bastarda", embora
se não o diga. Inversamente, para Deleuze se os elementos o são de um
sistema, não se trata da perversão mas da infância, portanto o diagnóstico não
poderia integrar o político como nível público, este é reduzido a um
poder fantasmático, porém imperialista, sobre o privado que só ele existe.
Em Cinema 2, Deleuze defenderá a cisão público e privado, tal como Jameson,
como prerrogativa do mundo desenvolvido ocidental. Não há a cisão
público-privado no terceiro mundo, e, por outro lado, é assim também que
Deleuze trata o hebraísmo, exemplarmente a impossibilidade para a
"minoria" perseguida separar condição pessoal (racial/
religiosa) e luta política.
Podemos instalar nesse ponto a questão levinasiana como a dessa
impossibilidade, e por aí a limitação ética de sua utopia
a-política. Aqui, como acima, estou empregando a definição moderna
clássica do ético privado (costumes arbitrários) e do político público (leis
estatais), a qual considero politicamente indeslocável na
democracia assim como em Estados da legalidade constituída. Essa cisão é além
disso, hoje considerada universal, ao contrário da crença modernista da
coincidência total de lei e costume nas sociedades primitivas.
Mas Jameson e Deleuze parecem não entender o mesmo ao concordar sobre
essa ausência da legalidade pública no terceiro mundo. Para Jameson, na linha
lacaniana, trata-se do pré-ego-lógico; para Deleuze, do outro desejo. Contudo o
empreendimento deleuziano da alteridade é bastante ambígua - como se observa
por isso que em Cinema 2 a ausência de Split público-privado no terceiro mundo
já nem é outro desejo, é epifenômeno da violência capitalista, ainda atuando
diretamente sobre a sociedade, o que já não acontece em países desenvolvidos.
Mas
já há ambiguidade no tratamento deleuziano da alteridade, desde
que se inicia pela ausência de outrem, no estudo sobre Tournier, como
a condição e a visibilidade do seu reverso na construção de outrem. Aí,
outrem é estrutura a priori, o não-condicionado que condiciona desde a
percepção até as formalizações temporalizantes. A ausência de outrem nas
condições do naufrágio se libera, pois, do próprio a priori, e
conforme a consequência clássica a percepção se torna alucinatória, o
mundo um simulacro ou fantasma.
Porém numa ilha deserta, numa ausência do outro feita ideal - nesse
sentido do real de uma "recherche" - a alucinação deixa de
ser "perversa" para ser tão construtora do mundo quanto a
estrutura outrem nas condições do mundo histórico. Se essas condições
são sufocantes e distópicas, então segue-se o corolário do delírio como a
Grande Saúde.
Portanto,
como se poderia esperar pelo aporte kleiniano da Logique du sens,
aí Deleuze não reverte realmente a psicanálise. Outrem continua sendo a
estrutura geo-ego-lógica do processo normal.
Mas o procedimento aporta, no Mille Plateaux, ao contrário, no sistema do rosto
como normalidade definida como ausência e impossibilidade de
outrem. Mantem Deleuze ainda aqui, a equação da normalidade =
política = imperialismo. Porém para uma dedução inversa à primeira, tal que o
racismo do rosto é todo inclusivo. Não só de todo não-branco, mas também
de todo espaço-tempo. O sistema é rosto-paisagem, o espaço circundante é
rostificado na medida em que é construído como paisagem.
O racismo enquanto funcionamento do preconceito é então não a constatação de
alteridade, mas a inclusão diferencial de modo que o rosto é um juízo - a fonte
do julgamento - binário a propósito de sua adequação social.
O rosto é sempre "de", conforme o que poderíamos supor uma
interpretação subversiva da intencionalidade husserliana - a compulsão
inversamente à intenção, desde uma ideia originária que é produtora da própria
faculdade, ao invés de uma urdoxa originária como a harmonia pré-estabelecida
de todas as faculdades.
O "de" do rosto é binário: roto "de" um
belo ou "de" um feio, "de" um honesto ou "de"um
scarface, "de" um rico ou "de" um pobre,
"de" um homem ou "de" uma mulher, adulto ou criança, branco
ou preto, nós ou eles, etc. O racismo começa com o rosto de Cristo - por isso a
data referencial do artigo é o "ano zero", o virtual início do
calendário cristão. "A chaque instant, la machine rejette des
visages non conformes ou des airs louches". Ela produz sucessivamente
binareidades de desvio, marginalização. "Le mur blanc ne cesse de
croître, em même tempos que le trou noir fonctionne plusieurs fois."(op.
cit. p. 217, 8).
Ora, o problema aqui é que Deleuze mantem por outro lado, a
outra-estrutura do primitivo sem rosto, na positividade do que descreve
com o sistema cabeça-corpo, sem paisagem porque o meio ambiente primitivo
não é paisagificado pelo rosto. Assim vemos que a proximidade da cabeça e do
rosto, Feuerbach e Levinas, que Derrida postulara, se reverte em Deleuze. Então
eis o que a máquina-rosto, o sistema muro-branco buraco negro onde quer que se
encontre - na paisagem, nas naturezas mortas dos pintores, nos cenários do
cinema e na composição dos romances, por toda parte em que há
visualidade ou em que uma deve ser criada - realmente reprime. Nesse
sentido psicanalítico da repressão que é contrário à discriminação,
porque discriminamos o que vemos, mas se reprimimos então não podemos
ver, disso não temos consciência. O "inconsciente" é tudo o que
existe e ocupa lugar na mente, mas que não sobe à consciência. "Il faut
même qu'ill n'y ait plus d'extérieur: aucune machine nômade, aucune polyvocité
primitive ne doit surgir, avec leurs combinasions de substances
d'expression. hétérogènes", e "Plus généralement, aucune
polyvocité, aucun trait de rhizome ne peuvent être supportés.". (p.
219, 221)
Antes de desenvolver esse núcleo formativo - as substâncias de expressão e
conteúdo, mas também a própria natureza da semiótica que mudou de
consistência na formulação deleuze-guattariana do "regime de signo",
devemos localizar o segundo aspecto aporético que prenunciamos. Este abrange as
relações da rostidade com o rosto levinasiano.
É interessante que Derrida tenha situado o problema da exterioridade em
Levinas. Em Totalidade e infinito, o outro puramente efetivo devia ser
todo-exterior. O subtítulo da obra é "ensaio sobre a
exterioridade"; mas depois Lévinas descartou a noção de
exterioridade, e, como Derrida persevera em demonstrar, já antes a
exterioridade não devia ser espacial, "porque o espaço é o lugar do
Mesmo" (op. cit. p. 159). O outro é exterioridade do eu, mas essa
exterioridade não deve ser compreendida como o espaço pré-existente, ela é
antes a origem do espaço. Em Deleuze, o rosto que é todo inclusivo, estrutura
também a paisagem. Porém ele não pressiona o eu de fora, é o próprio situamento
do eu.
Para Derrida a hesitação levinasiana em torno da palavra
"exterioridade" é a princípio a condenação da própria
linguagem, como dissimulação indeslocável, por isso tanto mais insidiosa, o
mesmo para a filosofia ou linguagem filosófica. É preciso pronunciar o étimo
"exterioridade", instalar a metáfora do lugar, para descobrir a alteridade
do outro, inantecipável precisamente na estrutura da linguagem uma vez que o
outro não é metáfora. O diagnóstico, em Derrida, o desejo voltado contra si, a
linguagem, assim como o sujeito frente ao outro, não frente a frente, de fato
cara a cara, mas de olhos voltados para a altura.
Derrida sobre isso evoca o "problema do muro" entre a
"pertinência' somente intra-liguística, e a "brecha", o
para-além que realmente se deveria visar como o outro fora da fala. (p. 157) A
"brecha", devemos lembrar, foi o lema do existencialismo, de Arendt e
todos os críticos da filosofia como do Heidegger, o eterno menino de
calças curtas, pensador de gabinete no motejo de Arendt e esposo.
Mas Arendt não hesitava perante o estatuto político do engajamento -
ainda que ele devesse ser reconduzido ao existencial, não tanto pela crítica da
tradição do domínio ontológico, mas pela constatação - ainda - histórica,
a do fim da tradição a partir dos horrores insanáveis do nazismo e da
guerra. A brecha entre o passado e o futuro seria o único meio de
continuar uma tradição no paradoxo da ruptura.
Deleuze parece estar nos antípodas de Lévinas. Onde não há outro, é justamente
onde há rosto, para Deleuze. Porém quando Deleuze salta do conhecido para o que
a rigor ele mesmo estabeleceu como o desconhecido e o verdadeiramente outro, o
primitivo, a equação se torna levinasiana, ao contrário das aparências. Onde
não há outro, não há rosto, e a ausência da alteridade do primitivo no
dentro é também a ausência no fora, porque no sistema primitivo como esse
todo-exterior, segundo Deleuze não há a linguagem opositiva do
dentro e do fora.
A utopia não passará por recuperarmos a primitiva cabeça. "D'abord,
il ne s'agit d'um retour à...", e, "Jamais nous
ne pourrons nous refaire une tête et um corps primitives, une tête humaine,
spirituelle et sans visage". Tentar é apenas saltar sobre o mesmo
muro, se fazer fotografias, estereótipos: "Nous ne pouvons pas revenir
en arrière. Seuls les névrosés, ou, comme dit Lawrence les 'renégats', tentent
une regréssion".
A subjetividade, pois, consciência ou paixão, sensualidade e romance, é branca,
e a brancura é evolução irreversível: "C'est seulement à travers
le mur du signifiant qu'on fera passer les lignes d'asignificance qui annulent
tout souvenir, tout renvoi, tout signification possible et toute interprétation
donnable". (p. 331, 2)
Vemos
os elementos do sistema da rostidade, que ao contrário do primeiro na Logique
du sens, é o a priori da normalidade sem outrem.
Deleuze-Guattari o estipulam como semiótica ao tratar do significante. Porém de
um modo pós-saussuriano e já hjelmsleviano, referenciaram a substância de
expressão, que supõe a complementar, de conteúdo. Em Mille Plateaux esse vai
ser o esquema geral de qualquer "agenciamento' ou estrutura,
físico-química, biológico-evolutiva ou linguístico-social: forma e substância
de conteúdo e de expressão. Ora, também é contrário ao Saussure lacaniano, a
posição do significante na semiótica da rostidade, ou do Ocidente, na medida em
que previamente Deleuze e Guattari operaram uma versão diversa da lacaniana, da
história da psiquiatria.
Eles selecionaram, na história dos conceitos de delírios - de Clerambault,
Serieux e Capgras, Kraeplim - o que Lacan havia já descartado por ter
sido refutado na subsequência das pesquisas, e, por outro lado, compuseram
"regimes de signos" que compactariam alguns dos delírios antes
classificados e tal qual foram. Cada "regime de signo" corresponde
ainda a um horizonte antropológico (judeus, mongóis, ocidentais, etc).
As sociedades como formas delirantes, repõem esquemas de
passionalidade na definição dos delírios, e esses esquemas admitem ainda a
possibilidade de mistos.
As semióticas ou "regime de signos" não são todas
significantes, porém todas se definem por uma certa relação com o significante
("pré-", "pós-", "contra-", "a"-). Aqui
nos interessa a relação que o Mille Plateaux estabelece entre os regimes "pós-"
e "significante". O ocidente se entretece de ambos.
Ora, sabemos bem que na psicanálise freudo-lacaniana, a subjetividade e a
objetividade estão numa pressuposição recíproca. A objetividade científica é
função do sujeito epistêmico normal, ou seja, resultante ou maturação da
formação da subjetividade, e sua variação possível são os casos de
anterioridade como fases da formação.
Em Deleuze-Guattari, objetividade e subjetividade são regimes opostos, mas o
Ocidente os entrelaça. O regime subjetivante é autoritário
como povos minoritários ou rebelados e pós-significante;
regime da objetividade é paranoico e imperial, significante. Os judeus
aqui são tratados como caso exemplar da subjetivação, como do delírio
passional, o traçado da linha de fuga no deserto, destacando-se eles do tecido
irradiante típico dos círculos concêntricos do império,
é produzido como desejo contestatório da autoridade despótica, mas
desde o face a face originário de um eu que só se põe a si mesmo pelo
delírio de que um outro o deseja. Nessa caso, o outro sendo Deus. Os judeus e
sua história bíblica são exemplares desse regime tanto como Descartes e o
romance típico ocidental.
Ora, como Norbert Elias demonstrou, a cartografia da sociedade ocidental por
círculos concêntricos está invalidada pela concepção de um meio círculo
formado por elementos ligados como por valências com os que os ladeiam.
Por outro lado, a conexão do significante objetivo e a paranoia imperial não
foge realmente à homologia psicossocial geo-ego-lógica que norteia a
própria psicanálise. Porém o que aqui criticamos, já que a ciência experimental
não nos parece uma consequência evolutiva da metafísica idealista antiga e
feudal, bem inversamente, ela devém da ruptura do liberalismo na visibilidade
puramente empírica das Américas.
Entre as formas semióticas, retornando ao que vimos, Deleuze e Guattari
opõem cuidadosamente a "subjetivação autoritária" da
"significante paranoica", para depois, quando se trata da
"visageité" ou rostidade ocidental, trata-la como misto de ambas, o
muro branco da significação, o buraco negro da paixão. Assim a
subjetivação evolutiva não é caso do significante lacaniano, porém engendrada
numa conjunção com ele. Ora, o problema aqui é que a paixão subjetivante como
"regime de signo" se distinguia do significante por ser ela o caso
exemplar do eu/ele, eu/outro. A subjetivação é exemplarmente
"par", casal, ela começa não por um "eu o amo", mas por um
"ele me quer".
Mas
quando se trata da "rostidade", a aplicação da
cartografia ao horizonte antropológico de sua realização, nada
de outro: 'Il s'agit d'une abolition concertée du corps et des coordonnés
corporelles par lesquelles passaient les sémiotioques polyvoques ou
multidimensionelles". Os corpos disciplinados passam à
perseguição dos devires-animais espirituais, a desterritorialização do corpo
atinge um novo limiar como salto "dos estratos orgânicos aos de
significação e de subjetivação". (p. 221)
Ao que parece, o misto modifica as coordenadas do regime em estado puro. Mas
assim, o que se torna mais complicado, toda linguagem veio a se
interiorizar na semiótica única do misto branco. O significante como sistema da
linguagem não emite mensagens na binareirade (linearização) que lhe é característica,
e, então, o sistema passional do rosto se instala. Ao contrário, o
significante não produz mensagem antes que o sistema muro branco buraco-negro
tenha instalado um buraco central, um computador central sem o qual
nenhuma mensagem seria discernível.
A discernibilidade é arborescência anti-rizomática, dicotômica. Assim,
sem o olho central como buraco negro capturando todo excedente, não há trama de
subjetividades, mas, sem isso "bien plus, est absurde de croire
que le langage em tant que tel puisse véhiculer um message", pois,
"une langue é toujours prise dans des visages que em annoncent les
énoncés, que les lestent par rapport aux signifiants em cours et aux sujets
concérnés". (p. 219, 220).
Quanto mais se perde - o nome, a clareza e a distinção, a consciência nos
estados de sono e de fragmentação que povoam o romance e o anti-romance moderno
- mais se está no coração do sujeito, onde ao mesmo tempo "tout
reste sexual" sem sublimação, e se realiza a pedagogia cristã.
Amenésicos, ataráxicos, catatônicos, os heróis romanescos são porém também
erotômanos e fetichistas. De Mme. de La Fayette a Beckett não houve a derrocada
do gênero romanesco, mas sua realização sempre mais perfeita. O abstracionismo
e o impressionismo, é o rosto, a composição
das coordenadas, etc.
A meu ver, a contradição geo-ego-lógica permanece como o sintoma que instiga as
demais. Não há outro, mas há outro, o primitivo na anterioridade. Será que o
racismo nunca ouviu falar dele? Ademais o outro sem significação para si, está
do mesmo modo diagramatizado, totalizado no regime da cabeça, ainda que por
outro lado, ele é não é outro que universalmente diagramatizante,
"um" regime, sem paisagem, sem rosto e sem romance. Não-sensual, sem
consciência.
Contudo, há diagramas e diagramas. Entre os regimes, Deleuze e Guattari
"cartografaram" - não sabemos de que posição na linguagem - o
"a-significante", que seria a superação de todos os outros como
delirantes, na medida em que seria o da arte, da ciência e da filosofia,
onde não resta nada além do próprio cartografado, suas coordenadas e funções,
seu sistema. Mas se o a-significante é um regime também, como ele se
auto-apreende?
Em todo caso, dele, ainda que dizendo "nós" com o rosto, é que se possibilita
o domínio de todos mais na qualificação de delirantes - no limite, nenhuma
política. Por outro lado, a "micropolítica" como
"segmentaridade" opera o que poderíamos conservar da ética
levinasiana, uma vez que a segmentaridade não se esgota na origem
primitiva, na sociedade organizada de clãs que estariam sempre se dividindo.
A crítica antropológica a essa noção durkheiminiana já foi feita: se na origem
"primitiva" a sociedade é por si segmentar, de que é que ela primeiro
se dividiu? Não queremos dizer que Deleuze e Guattari ignoram essa
crítica, mas o problema é que a segmentaridade da sociedade primitiva
ainda é um "socius", ainda é uma marcação de poder sobre o
privado.
O
primitivo permite uma molecularidade, um devir-menor, etc., porém não chega à
a-significação. Como a rostidade chega? Independente da pergunta, aquilo a que
se chega é a heceidade, um conceito que Deleuze e Guattari emprestam a Duns
Scottus, para porém configurar o que seria a substância reduzida aos acidentes,
e, assim, não a subjetividade mas a confusão do sujeito com seus objetos, o
rosto com a paisagem, o cão que corre na rua com a rua - ele "é" essa
rua - na apropriação deleuze-guattariana de Virginia Wolf.
Assim a micropolítica, a utopia que pelo contrário se quer
realização do materialismo, é esse limite de grupos segmentando a
fictícia-delirada sociedade, onde a pertença não é de um eu entre
outros eus, mas onde se anulou toda individuação ou seu problema. O
"que" precisamente é, não parece muito fácil
realmente atingirmos, porém até agora não encontrei algo que refutasse a
dedução de que por esse viés a-político, limitado a uma ética do não-eu como do
Absoluto, nós não poderíamos ter uma avaliação objetiva de situação alguma, além
da identificação de nós mesmas com grupos e condições.
A aporia do "que" é reposta ainda por isso que no lugar da
individuação e seu problema, Deleuze e Guattari colocaram no Anti-Édipo e no
Mille Plateaux, justamente a síntese voluptuosa que é identificação total
com um "povo" - já vimos a coerência, dado que "povo"
é "regime de signo", formação do inconsciente sexual. A
heceidade não é portanto a confusão da substância com acidentes quaisquer.
Mas
se não podemos assim avaliar objetivamente, se não há sociedade além do
delírio e da identificação renomeada heceidade, Lawrence na Arábia não é o
agente inglês enganando os guerrilheiros ao omitir a ausência de qualquer
garantia da posse do território após a guerra. Ele está a proceder o seu devir-árabe.
Nós só podemos tomar partido, não fazer política de modo a definir o que é
justo ou não do ponto de vista de um direito internacional. Escolher
com qual dos dois lados nos identificamos é a que estaríamos
limitados, não julgar objetivamente o que ocorre.
A arbitrariedade desse limite seria evidentemente espantosa em qualquer
enunciado claro, porém o que estamos constatando não é alguma idiossincrasia de
ingênuo, mas uma das teorias integrantes da história das ideias recente e
influente ainda na atualidade, que portanto não aparece fora de uma tendência
de época. Como tenho ressaltado, só não podemos sancionar
as opiniões que a consideram "pós-moderno".
O Absoluto levinasiano é do mesmo modo que a síntese voluptuosa do
inconsciente deleuze-guattariano, ou sua micropolítica, um povo. Mas
como vimos, não na variação "esquizofrênica" dos povos, e sim
unicamente a Torá. Alguém versado deveria responder se a interdição do eu
até mesmo de seu direito à agir em legítima defesa como propõe Levinas que
é o caso na Torá é ou não coerente com ela, assim
como as tradições a entendem.
A meu ver, a interdição da legalidade como utopia ocidentalista não deve ser
considerado como algo mais que sintoma. E do "imperialismo" à
terminologia recente do "império", a
ordem anti-política como o limite ético-anárquico do Absoluto
permanece a mesma. Assim, do que seria a lista das características da mudança
"imperial" conforme Hardt, iremos agora examinar as constantes
geo-ego-lógicas.
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Entre o Absoluto e o
Império, o eixo da semelhança resta intacto. Mas a
complexidade aqui é notável. Temos que equacionar por um lado a
continuidade do processo da desvinculação do legalismo político por esquerdas
que grosso modo reúnem-se na tendência ética-ilegal na acepção
de anarquista. Esse processo começa como pós-positivismo na transição ao
século XX. Por esse viés, do romanticismo e Hegel ao positivismo
entre Comte e Marx temos os cenários em que os textos construtores da
nossa concepção "contemporânea" de legalidade, Estado
constituído, legitimidade e contestação teórico-política das esquerdas foram
produzidos.
Por outro lado, desde os anos oitenta até agora estamos lidando com o fim de
uma era e a emergência do que vem sendo designado pós-modernidade e pós-modernismo.
Respectivamente um cenário histórico e os contextos estético e teórico de
produção e crítica.
A imbricação dos dois aspectos pareceria inexequível, porém se
notarmos o hiato de significado entre as duas rubricas como
posições da posteridade, o aparente contrassenso se desfaz. O
pós-modernismo não é algo que ainda não foi plenamente obtido como se
estivéssemos ainda numa "transição". Como tenho salientado, ele
corresponde a um corte epistemológico definido como ultrapassagem da estrutura
dicotômica do primitivo e do civilizado que é a constante dos
sucessivos paradigmas da modernidade - romantismo, positivismo,
funcionalismo (fenomenologia e existencialismo), estruturalismo e
pós-estruturalismo.
Esses paradigmas foram regidos por uma estruturação complementar à
expansão do capitalismo como assimetria internacional do capital, o
processo imperialista de anexação das economias pela associação de
capital e Estados do que se designa hoje o "primeiro mundo"
e que com mais exatidão podemos designar o Centro da geo-ego-logia
estrutural. Os paradigmas foram por um lado efeitos de elaborações
teóricas do que o capitalismo permitiu à ciência empírica
pesquisar enquanto referencial das sociedades marginalizadas pela
anexação, por outro lado estruturais à anexação enquanto meio da
dominação cultural local, sem o que o capitalismo não seria uma assimetria
histórica, isto é, processo sócio-econômico e político como a
"modernidade".
As sucessões dos paradigmas integram o fenômeno histórico das mudanças no
funcionamento, geografia, e situacionalidade do capitalismo ao longo dos
duzentos anos recentes com toda coerência. Eles reconstroem a autoimagem
do Ocidente a cada vez que a concepção disponível da anterioridade primitiva tem
que mudar devido ao acúmulo de informação e transformação das formas
de contato e alienação econômico-política, restaurando a dicotomia
mas redefinindo a anterioridade e consequentemente o sentido da
agência racional-modernizante do ego da História, o ocidente ou Centro do
desenvolvimento.
Até aqui a dominação cultural produzia na margem o alter-ego que
importava o sentido da história por via do paradigma dominante,
porém apenas como a receita do desenvolvimento
local, apenas um meio de alijamento da heterogeneidade cultural
perigosa ao poder totalizante do paradigma.
Porém houve o fim dos metarrelatos da agência do Sujeito da história,
efeito indesejável da expansão liberal do pós-guerra que para haurir
lucros com a exportação de capitais precisou permitir a perpetuação
na margem do que a guerra havia permitido iniciar como a revolução industrial
nacional, uma vez que a produção central estava comprometida com o esforço
bélico.
Ou
seja, precisou permitir a concepção de sociedades em desenvolvimento com
um sentido novo de não apenas o racismo positivista, a
substituição progressiva das raças pelo branco
industrializante-industrializado.
Assim os modernismos e vanguardas do século passado tiveram aqui uma
função própria, como veículos da revolução burguesa. Emergiram produções
teóricas autônomas, relacionadas à heterogeneidade local. Coordenando
a partir dessa relação a interlocução com a cultura ocidental,
esta pôde afinal deixar de ser apenas importação cultural.
Os metarrelatos não puderam se perpetuar quando a produção já não estava
centrada no interesse de ciências humanas e campo estético monopolizados
pelo Centro, mas inversamente, estando em trânsito uma
ubiquidade dos interesses e descobertas que não prejudicava os
investimentos na expressão e descoberta da heterogeneidade. A simplicidade
necessária para o estereótipo totalizante do primitivo já não
era possibilitada. A constatação dessa impossibilidade corresponde ao fim
da modernidade, ou pós-modernismo teórico e estético.
Porém a estrutura imperialista só fez aumentar e planetarizar-se na assim
designada globalização, e ocorreu a transferência da tarefa da dominação
cultural da teoria para a indústria info-midiática enquanto business capitalista
em si mesma. Essa transformação inicia a era histórica designada
pós-modernidade, e como dominação info-midiática o que produz e circula são
estereótipos mítico-propagandísticos que reificam a dicotomia
primitivo-civilizado já inválida na teoria.
A dominação info-midiática abarca tudo o que desde Adorno vem se designando
"indústria cultural" no sentido mais pejorativo, ou seja, a
circulação editorial em massa, e, desde o personal computer, o
açambarcamento da produção escolar-universitária. O corredor único
mídia-educação veda onde quer a penetração do pós-modernismo cultural, de
modo a perpetuar os paradigmas obsoletos por meios para-legais ou de
monopólios dirigistas. Os paradigmas descontextualizados são eles
mesmos formatados como estereótipos, mas a fragmentação
assim operada na cultura vai se prolongar ao encontro dos
processos de contestação política que compreensivelmente estão sendo
impulsionados pela pressão do subdesenvolvimento planejado.
Quanto a este estado de coisas, devemos notar que a partir da
globalização ocorreu o fim da ideologia das nações em desenvolvimento no
terceiro mundo. O planisfério geopolítico exibe agora apenas dois
hemisférios economicamente distintos, o Sul subdesenvolvido e o Norte desenvolvido.
Essa é uma imagem não-decidível entre a apresentação de dois mundos
contextualmente diversos ou um mundo interligado pela dominação
conflituosa do Norte sobre o Sul.
Em todo caso, esse resultado histórico
não decorreu apenas do fato da dominação econômica do
capitalismo planetário a partir da emergência da CEI. Nem tampouco da
constatação do limite ecológico da expansão da tecnologia, desde os
pronunciamentos do Clube de Roma. Mas é correlato do pós-modernismo teórico.
Não só porque são as ciências humanas atuais que desenham o mapa para
expressar o caráter estrutural de um conflito que define toda a
geopolítica planetária mas que até aqui era sistematicamente
ignorado quando se tratava da teoria estrutural do capitalismo, de
Marx a Weber, o estruturalismo ou Deleuze-Guattari - quanto a estes,
ver a resposta no Anti-Édipo sobre o porque do "capitalismo" ser
atual e não antigo, a saber, não pela necessidade dos outros continentes
para a reativação do comércio, mas o mérito do ímpeto
aventureiro, desterriotorializante, isto é, na sua linguagem, o mesmo que
evolutivo.
Mas
porque se não há o paradigma da "evolução" psicossocial do
primitivo ao civilizado, já não há a receita do desenvolvimento que
repetiria a história do ego na margem e prescreveria a esta o seu
devir racional-modernizante.
Ora, há assim dois processos em curso. Por um lado o terceiro
saque colonial como globalização - após o colonialismo escravista e o
neocolonialismo afro-asiático - sobre o mundo não-ocidental. Por outro lado a
contestação generalizada contra a dominação
do capital-imperialismo info-midiático "global". Vemos
assim conjuntamente apresentarem-se os dois aspectos aparentemente
contrários que começamos por enunciar inerentes à atualidade.
O processo continuado da contra-legalidade pelas esquerdas anarquistas como
horizonte da contestação pós-positivista, tanto convém à conservação de teorias
obsoletas no corredor-único info-mídia-universidade, quanto realmente informam
o referencial da crítica pós-modernista que assim encontra meios de enunciar as
transformações necessárias no âmbito dos problemas e questões. Não há portanto
incompatibilidade dessa continuidade da crítica histórica das ideias com a
ruptura também história que demarca o início da era pós-moderna. Nem
isso deve ser rotulado no estatuto deficiente da transição.
O papel específico das esquerdas como referenciais da contestação ao poder
capital-imperialista info-midiático porém não totaliza a mencionada continuidade
crítica. Pelo contrário, a complexidade a ultrapassar aqui é o
obstáculo para tornar coerente a transformação das próprias esquerdas da
era pós-moderna, a partir de sua assimilação do limite ético-legal anarquista
em trânsito desde a modernidade. A complexidade deriva
do acoplamento da forma possível da contestação às
coordenadas programáticas do poder ora atuante. E também do fato
de que esse poder não subsiste sem ter vindo ele próprio moldando-se por
acoplamento às formas de contestação e produção epistêmica em
trânsito.
Além disso as transformações nas ciências biológicas também devem ser
equacionadas enquanto elementos que corroem a
continuidade enquanto aquilo que poderia ser pensado sem conservar a lembrança
da conjunção de si como aspecto alternativo ao da ruptura
pós-moderna.
Já vimos que a necessidade a que atendeu a teoria psicanalítica dos traços
mnésicos foi refutada pela pesquisa laboratorial da percepção.
Aqui seria importante observar que a redução da rostidade ao determinismo
étnico ou cultural é hoje algo se não já refutado, ao menos bastante
improvável.
A injunção deleuze-guattariana no sentido de "desfazer" a
rostidade, "destruir" o sistema rosto-paisagem, como
investimentos da vida privada, e se já não possível
restituir o sistema primitivo cabeça-corpo não passional, ao
menos obter um meio caminho a fim de formar para si uma
"cabeça que procura" (tête chercheuse), deve ser
considerada no mínimo com cautela.
A biologia do cérebro afirma desde há algumas décadas a maior
probabilidade da imagem do rosto ser correlato de recepção neural
específica. Ou seja, não é um composto de traços, mas o pico do estímulo de um
neurônio específico, uma característica de resposta neural. Se for assim, o
neurônio do rosto é a célula crítica a ser ativada para completar o
processo na percepção e identificação de interlocutores, por exemplo, da
nossa avó.
Não só é o caso na espécie humana sem qualquer divisão de primitivo ou
civilizado, como também dos primatas - assim como para estes já é certo que
ocorre com a imagem da sua pata erguida.
A conhecida crítica de Derrida à concepção do primitivo como estado de
inocência pré-escritural em Lévi-Strauss parece-me adequar-se também a Deleuze-Guattari.
Porém Derrida conserva a concepção da unidade intrínseca do Ocidente. Ora,
Deleuze-Guattari não apreenderam o fato de que o
"arborescente" linguista Chomsky, poderia vir a ter a
mesma concepção micropolítica ilegalista que eles mesmos, o que é fato -
Chomsky afirmando a típica posição anarquista das
esquerdas pós-positivistas com seu anarco-sindicalismo como
contestação do Estado e suposição da gemeinshaft generalizada no que
seriam os grupos sociais autonomizados.
Contudo devemos notar que o problema da legalidade - a partilha do
privilégio agora do originário - entre esses
grupos, fossem de sindicatos profissionais ou condições como gênero
sexual, religião ou etnia, apenas reproduziria a história da
dominação feudal-imperial do Ocidente. O que o modernismo não pode assimilar é
a legalidade e o Estado do assim designado primitivo, ou
seja, de sociedades tribais ou organizações urbanas pré-patriarcais
mesopotâmicas, o que a antropologia social tem,
inversamente, demonstrado ser fato sem muita razão para
dúvida.
Ao
invés da expressão do pós-modernismo na reformulação do conceito do
desenvolvimento, restrito aos índices da qualidade de vida
(saúde, letramento, moradia, acesso social, longevidade, etc.),
e, consequentemente, a ação política da conquista da
legalidade, a partilha do privilégio de grupos devido a expansão
das orientações anarquistas vindas das esquerdas modernistas é o que está
acontecendo agora como distopia no terceiro mundo.
Porém nem sempre explicável pela incompetência ou arraigamento da
oligarquia alter-ego-lógica local. O Irã é o exemplo notável assim como o
Oriente Médio. A intervenção para-legal dos USA solapou a democratização e
representação legal já efetivada nos anos cinquenta, e a partir da
redesnacionalização do petróleo via golpe ditatorial implementando
o regime formalmente nazista de Zahedi, o país logrou organizar
forças revolucionárias que expulsaram o imperialismo. Porém isso só foi obtido
a partir de uma capacidade de máxima cooptação popular, ou seja, pela política
religiosa carismática radical.
A trajetória prescrita da legalidade - como a Secessão nos USA ou a Revolução
na França - encontra-se assim vedada na margem pela ação para-legal do
imperialismo que pode resultar, fracassada a ditadura, na ameaça bélica
ou na guerra factual, como temos visto desde o Vietnã ao Iraque, e, na
atualidade, as ameaças à Coréia.
O terrorismo em expansão como nova política de resistência ao
imperialismo é o que temos visto ocorrer como fenômeno de
ortodoxias religiosas. Na modernidade a alternativa objetiva entre a
revolução e o reformismo político eram pois ações contestatórias de um tipo
irredutível à alternativa estereotipada entre o mito-propagandístico
da mídia e a radicalização do terrorismo religioso em que sem dificuldade
reconheceríamos a ética do Absoluto levinasiana.
Um esquema simplificado ilustra o que aqui estamos considerando a transformação
pós-moderna do imperialismo. O esquema resume o que vimos neste trecho.
Antes Depois
a)
Legalidade
Ética anarquista /ilegal
b)
ego relacional
outro = grupo / superego
c) Saber
objetivo
estereótipo mítico
(ação racional) (ação
passional)
d) Alternativa:
Alternativa:
-revolução
ou -
ideologias de mídia ou
processo político
religião/ condições
originárias
e)
cisão público-
- "desejo" (privado/
privado discurso)
f)
primitivo/
- pré-político/sádico
anárquico-comunitário
arcaico
As rubricas de antes e depois não recobrem exatamente a cisão epocal de
modernidade e pós-moderno, mas não a excluem. Rigorosamente deveria enfeixar a
oposição da mentalidade dos séculos XIX e XX, porém não ocorre que o horizonte
liberado da legalidade desde o oitoscentos não tenha se perpetuado no amálgama
dos ativismos e discursos em que participou também o crescendo da tendência
ilegalista. As duas rubricas não recobrem porém a cisão epocal para o
significado do depois como pós-modernismo estético e teórico.
A contradição oriunda da geo-ego-logia como da modernidade é nítida em
"f", na medida em que os estereótipos e transformações
pós-modernas dos anarquismos modernistas elidem o político pela limite ético da
ação contestatória, porém reintroduzem a categoria do político enquanto o
correlato de todas as instâncias recusadas da legalidade, quando se trata
apenas de manter a dicotomia do primitivo /originário e civilizado/evolução. Ou
seja, quando é preciso a condição de deficiência para a caracterização da
origem.
O estatuto sintomático da contradição é a própria neurose social geo-ego-lógica
em seu funcionamento. As teorias geradas pelos paradigmas sucessivos da
modernidade operam o cegamento da sua própria visibilidade. O racismo não
é apenas a ideologia ou o sistema criticado na teoria, mas
é sistêmico-teórico enquanto o enunciado da própria teoria
totalizada na oposição ao objeto disponibilizado como alteridade do
outro não-ocidental, não-civilizado.
O discurso de Strauss no Japão é um exemplo bem recente. Ao comentar
a condição de possibilidade das ciências humanas, a partir da existência
do objeto alterizado, Strauss o nega como tal para colocar num mesmo plano
de não-novidade as Américas do descobrimento e os mitos orientais
antigos acerca de ilhas ou terras desconhecidas com povos exóticos em
meios dos oceanos. Nada aduz sobre o fato de que a descoberta das Américas
implicou a revolução política, econômica e epistêmica da Europa, como até
mesmo a inteligibilidade geográfica da terra, algo de todo inviável para
qualquer mito.
Foucault negava formalmente que a etnologia - a ciência do conteúdo
e significado das culturas não-moderno ocidentais - fosse a
função do seu objeto em termos de informação cultural dos povos
não-ocidentais, para afirmar que era apenas a vacuidade da análise textual
visando o idealizado universal do Homem, na exterioridade do método estrutural
que enquanto realmente epistêmico revelaria porém apenas as
funções gerativas dos textos.
Esquecia que os textos, justamente, eram a cultura dos povos não-ocidentais.
Enfatizava apenas que o texto era o referencial da análise, e, assim,
a interpretação e crítica visaram primeiro o correlato da produção
romanesca ocidental, depois, para imitar a ciência do objeto na modernidade,
setorizou uma classe de textos como representação do Homem. Porém esquecia
novamente que a etnologia não existiu antes do imperialismo ter fornecido o
material de análise como atuações culturais. Assim ela não é apenas o correlato
daquilo que há muito existia até aí, a produção literária e sua crítica. O texto
no sentido atual não foi realmente um objeto teórico possível antes da etnologia.
A
interligação geo-alter-ego-lógica que implica desfazer a unidade
intrínseca do Ocidente na e como a modernidade, tem um primeiro
enunciado na obra de Eduardo Said, que visou porém apenas a questão da
formação discursiva da oposição ocidente-oriente, não chegando à estruturação
geo-ego-lógica dos paradigmas da modernidade.
Obviamente não concordo com a crítica de Bhabha a Said, com base em
que teria que haver uma modificação do inconsciente freudiano para dar
conta da percepção racista do outro como tal. O próprio inconsciente
freudiano, repetindo o que já estabelecemos, foi construído com base na
antropologia racista que coloca o despotismo patriarcal como parte da
trajetória do progresso psicossocial, a monogamia como condição da normalidade
por apaziguamento da suposta dúvida universal sobre a paternidade, etc.
A propósito, Deleuze conserva o esquema do pré-lógico freudiano na medida em
que a "cabeça que procura", isto é, cabeça mas com desejo, é o
enunciado do que não seria possível retroceder, ao aquém da "vontade de
saber". Se o índio e o negro não fazem ciência, mas por outro lado,
não poderiam ter complexo de castração porque sempre viram a mãe nua, e, assim,
do buraquinho da mamãe eles sempre souberam, não lhes causa angústia, a
explicação é justamente que por isso mesmo eles não precisaram querer
saber. O índio e o negro não fazem "recherche".
Porém que os índios desenvolviam meios para saber se os colonizadores
eram deuses ou não afogando-os a ver se sobreviviam ou não, como a etnologia
revelou, parece-me ser contrário a essa premissa.
A
concepção de Hardt a propósito da ultrapassagem do imperialismo pelo que
seria o estado atual de um "império" planetarizado da "sociedade
de controle" não chega a realizar a refutação do
paradigma weberiano do capitalismo como empresa
burocrático-racional-legal em total homologia com o Estado contemporâneo.
Ou seja, não o redefine como capital-imperialismo e assim,
intervencionista-passional-para-legal. Aqui a passionalidade sendo o correlato
da dominação info-midiática. Está centrada
na concepção de uma só sociedade planetariamente inclusiva,
ainda que assim o que funciona é o poder de situar os elementos
que integra. Porém Hardt conserva as oposições que considera ao
mesmo tempo ultrapassadas.
Ao supor que só há agora o artifício ou a história, não a natureza, de
fato está excluindo o que expressa ter sido interiorizado na ordem
civil - como as demais espécies vivas ou as paixões. Não observa ainda que
aquilo que teria sido esquecido ou eliminado é justamente o pivô do mais
importante conflito político da atualidade, a ecologia como o limite em
que o capitalismo afronta as possibilidades de sobrevivência
planetária.
Não creio que nós pensamos sobre o ecossistema da região mineira que a Samarco
destruiu há alguns meses como integrado à ordem civil. Nós pensamos
as espécies e o meio natural na sua independência vital interligada à
sustentação do ambiente planetário. Ao estarmos notificados de que a engenharia
genética pode alterar completamente a autonomia vital das espécies nós não
negamos essa autonomia, compreendemos estar diante da pior ameaça ao futuro do
ambiente planetário mas também da espécie humana enquanto capacitada a escolhas
conscientes, sem desigualdade geneticamente pré-determinada. Um futuro de
pseudo-homens-abelhas, com alguns destinados ao servilismo e outros ao desfrute
de máquinas internalizadas não é algo em que pensamos eliminando a interligação
da nossa liberdade e da autonomia da natureza.
O fim da história é uma impossibilidade lógica enquanto a humanidade como
espécie consciente existir - posto que o próprio acontecimento do fim seria
histórico. Hardt concorda porém com Fukuyama na tese de que a história já não
existe porque não resta o conflito Leste/Oeste: "ele quer dizer que a era
dos conflitos principais terminou", ou "o outro que poderia limitar o
Eu soberano se estilhaçou, tornou-se indistinto, de modo que não há mais um
fora para circunscrever o lugar da soberania... O fora era o que dava coerência
à crise do mundo moderno e imperialista. Atualmente é cada vez mais difícil
para o ideólogo dos Estados Unidos nomear o inimigo..." (op. c it. p. 360,
361).
Ora, o planisfério atual que se ensina nas escolas e rege a agenda da
geopolítica internacional se intitula a cartografia do "conflito
norte/sul". Ao invés de crises menores, e ao mesmo tempo como uma
"oni-crise" na "sociedade imperial de controle", o que
vemos é algo bem definido em termos da perpetuação do imperialismo
pelo novo meio da anexação empresarial dos setores estratégicos e
exportação da fábrica do primeiro mundo de modo que toda industrialização
local é alienada, estrangeira, e não há possibilidade de autonomia econômica na
margem. Para Hardt o Império é utopia porque não há um local designado do
poder. Porém nós sabemos qual é esse local.
A ramificação do primeiro mundo, entre as sedes das multinacionais, o
business de mídia e os organismos internacionais que agregam os compromissos
dos governos do primeiro mundo com a expansão do capitalismo central - isto é,
aquele que só existe em função do seu domínio sobre as economias
periféricas. Não creio que se possa afirmar que "os muros das instituições
desabaram." (p. 369) Aquilo de que temos informação é que as
barreiras da segregação institucional aumentaram, a partir do
incremento da desigualdade social a níveis nunca vistos antes, com
a globalização por um lado, e os ilegalismos do privilégio de condição -
especialmente religiosa, mais recentemente étnica (negros como primeira raça à
Diop, etc.).
A tese de que a subjetividade é produzida pelo capitalismo - " a
subjetividade continua a ser produzidas na fábrica social" (p.368) -
e por isso é mutante conforme a linha de
produção, é oposta à prudência pós-modernista quanto ao que
sabemos e não sabemos a propósito da subjetividade em suas relações com a
biologia e a personalidade. O que se pode afirmar é que há reprodução de
estereótipos midiáticos, severa censura do capital sobre produções
culturais fora da reprodução estereotípica. A aposta na aventura da produção
livre de "agenciamentos" psico-desejantes variáveis era
coerente com a redução discursiva do inconsciente, que hoje já não consideramos
compatível com o nível da informação.
A concepção foucaultiana do bio-poder por exemplo, era
inteiramente alinhada com o neoliberalismo econômico que hoje
sabemos, ao inverso de Foucault, ser o oposto do liberalismo político
ou ser desvinculado a ação repressiva dos governos articulados com agências de
mídia. Em estudo sobre o feminismo (blog "teoria moral na
geoegologia") observei como a evolução do movimento foi açambarcado por
teorias alinhada com o neoliberalismo econômico, assim também a de Habermas.
Assim a autonomia do processo de emancipação da subjetividade via legalidade,
como o que a modernidade iniciou a partir do ex-centramento da mentalidade
oligárquico-idealista, foi suprimida como algo real, e o Estado foi redefinido
como função do mercado capitalista. Uma das consequências, além da redução do
político à ética, pode ser vista quanto à Foucault. A assistência social, a
medicina e o saneamento básico como obrigação do Estado, deixaram de ter
prioridade no planejamento por parte de profissionais formados nesse tipo de
escola. A medicina tornou-se, pois, prerrogativa dos ricos ou chantagem social
por estar restrita a benesse da empresa aos funcionários. Os cidadãos estão
sendo cada vez mais reduzidos a função útil ao mercado, e na mídia não há qualquer
outra caracterização para os estereótipos.
As hipóteses que Hardt propôs como alternativas para pensar o que designou como
império do controle são todas três formulações de teorias pré-existentes, não
produzidas pelo equacionamento do estado de coisas atual e transformações
recentes na episteme, na cultura, na sociedade, no político, etc. Entre
Aristóteles (sociedade de corrupção), Deleuze-Guattari (transição ao futuro
capitalismo plenamente esquizofrênico), ou Marx (planetarização do mercado),
fenômenos histórico-efetivos ao invés de especulações sobre mudanças de
costumes não foram listados.
Quanto
à proposta da mudança conceitual do "império", a partir da
consideração de que já não há qualquer "fora" relativamente a um capitalismo
todo-inclusivo, parece-me bastante ambígua. Como ficou bem
ressaltado, a inclusão de que se trata não é determinada por Hardt em termos da
economia globalizada, a qual como sublinhei é apenas o novo
momento de uma dominação velha de quinhentos anos, e, assim, não poderia
merecer outro nome que o conhecido "imperialismo". Mas se a
proposta conceitua uma transformação cultural, obviamente está
relacionada ao neocapitalismo globalizado sem que a relação entre
economia, cultura, sociedade e geopolítica tenha sido explicitada.
Além disso, quanto à noção em si de "inclusão diferencial",
que Hardt utilizou como a referência cricual da
transformação histórica do "império", é inconsistente. Pois
"diferencial" se opõe a absoluto assim como o elemento à
classe. Nesse caso, a classe não foi determinada. A diferença
especificada é caso somente no interior de uma gama de variação que tem seu
limite definido pelo absoluto.
Por exemplo, em psicofísica as energias físicas precisam estar acima de um
limiar designado "absoluto", que estabelece um certo nível de
intensidade, para que provoquem um efeito psíquico, sensorial, designado
estímulo - definido como energia física apta a excitar um receptor. Já
a percepção de diferenças entre estímulos, na gama de intensidade
estabelecida pelo limiar, só ocorre em ordens definidas quantitativamente
como diferenças de intensidade suficientemente grandes, e então temos o limiar
"diferencial".
A noção de Hardt afirma somente o limiar diferencial da inclusão,
porém nada diz sobre o absoluto. É nessa base que ele considera o
imperialismo solvido num império amorfo, uma vez que já não haveria a
exterioridade a partir de uma marca definida pelo racismo como a prerrogativa
de cor, restando apenas o situamento de qualquer elemento que por
ser diferencial redistribuiria o racismo como hierarquia polimorfa de
status.
Porém o próprio situamento não é evidentemente amorfo, pelo contrário, ele
especifica o que Althusser designava a sobredeterminação das instâncias
sociais, os papeis e agências, a partir da hierarquia do capitalismo. Não
parece que Hardt e Negri tenham querido eliminar o próprio
"capitalismo". Ora, se este é o limiar absoluto implícito, então não
se superou de fato o imperialismo, uma vez que a definição do capitalismo é o
que está em jogo e pela própria natureza cartelizada ("empresa
multinacional") da dominação, a nossa concepção de assimetria
internacional do capital continua válida.
Assim a inconsistência do "império" de Negri e Hardt mostra-se
pela própria efetividade histórica, Antonio Negri tendo sido terrorista
italiano, preso pelo sequestro de Aldo Moro.
Na década que transcorreu desde sua publicação até agora, ficou
evidenciado ao mundo que o capitalismo não depende de um racismo
"branco" - assim como nunca foi "livre empresa". Mas sim
que, se o capitalismo é agora uma função dupla, por um lado a
cartelização mundial das multinacionais e por outro lado as instituições como
o FMI e ONU amparadas na superpotência bélica dos USA, esta última não foi
realmente compreendida por uma ciência social e história limitados
pela tradição europeia do capitalismo clássico. Por um lado, devemos
lembrar que não se aquilatou até agora as consequências
da geopolítica estadunidense ao longo do conflito leste-oeste -
que resultou na associação de mercado inter-racial entre os
USa, Alemanha, Japão e China.
Por outro lado, e sobretudo, até agora não há conhecimentos realmente
difundidos a propósito do processo cultural dos USA desde a
independência. Na década de setenta, por exemplo, havia maioria de negros
entre a população de Washington, a qual, protegida politicamente pela
plataforma Lyndon Johnson, protagonizava aquela altura praticamente uma guerra
civil com proporções assustadoras - a propósito, ver David Halberstam (The
powers that be). A integração política da negritude norte-americana
tem sido fato desde aquela época, e um imperialismo negro norte-americano não é
algo que se possa já descartar do horizonte de expectativas - algo que temos
sentido muito presente na mídia e políticas de dominação cultural
brasileira, paralelamente a outras formas intevencionistas por
"condição".
A época estudada por Halberstam justamente não cobre o fato que estamos agora
constatando, a penetração da negritude na dominação info-midiática
norte-americana a partir do controle sobre o capital produtor-investidor
e/ou patrocinador. Mas a sociologia da dominação que ele
informou com bastante acurácia é extremamente útil nesse caso, uma vez que o
suporte wasp dos clãs oligárquicos repousa menos no "white" e
"anglo-saxon" do que no "protestant". Um prerequisito
que o imperialismo negro preenche amplamente nos USA.
Entrementes, como Franz Fannon vinha denunciando na descolonização africana o
que resultou como ação imperialista não foram propriamente nações como
processos desenvolvimentistas próprios, não havendo burguesia, mas apenas
núcleos de castas testas-de-ferro do capitalismo local.
Ora, o problema aqui é como já designei, geo-ego-lógico. Enquanto os estudos de
negritude norte-americanos vem desdefinindo cabalmente a determinação
naturalista da raça, de modo a inviabilizar a sua ideologia, promovendo a
crítica do discurso e investindo na prospecção dos efeitos do signo,
o imperialismo só funciona a partir da paralogia de um Sujeito
da História - da razão ou da natureza - que o realiza como
agência ao mesmo tempo particular do sujeito mas sobre o
universal da humanidade.
Se o sujeito-estereótipo vai então se produzir na mídia, ele será função do
capital e não de qualquer determinismo psicossocial porventura coberto por um
metarrelato evolutivo que se ampare na ciência. Pelo contrário, se
demonstrará que o determinismo psicossocial evolutivo da antiga ciência da
modernidade corresponde a nada além de discurso da dominação capitalista,
que agora vemos servido pelos meios puramente ideológico-midiáticos. E enquanto
a crítica do discurso nos estudos culturais em geral é propulsionada pela
refutação da gemeinshaft funcionalista, vemos o sujeito da
técnica se desdobrar nessa impossibilidade para um Heidegger - na
"condição" da própria gemeinschaft
"originária".
Aqui referencio os estudos culturais conforme as minhas
referências norte-americanas e inglesas (Culler, Stuart Hall); o
contrário do que se tem praticado como tal no Brasil - que se limita a
monopolizar a universidade para o estereótipo de mídia operando o desletramento
radical que a dominação info-midiática está atuando por meios mecânicos e de
segregação sócio-econômica.
A integração bélica virtual dos grandes países do capitalismo central é
paralela à sua competição interna pela supremacia tecnológica e hoje pensamos
no sujeito competidor norte-americano - frente ao japonês por exemplo
- já por um perfil bem diverso do clássico wasp.
O imperialismo globalizado a partir dos países centrais como sedes das
multinacionais - "branco"/europeu, "amarelo"/oriental
e "negro"/norte-americano - é menos setorizado racialmente e
mais estereotipado conforme a estratégia do mercado ao mesmo tempo
bélico-cooperador e tecnológico-competidor. Pode ser que os Estados
Unidos não estejam realmente produzindo uma hegemonia interna da negritude, apenas uma
integração de sua heterogeneidade populacional, mas o presente estado de coisas
ainda prolonga por outros meios o cenário da guerra civil inter-racial recente
a julgar pelas prerrogativas raciais da negritude que vem se inscrevendo como
formas de dominação nova na info-midiática conforme temos visto, e como
vai se resolver o porvir é algo que só se pode testemunhar com o tempo.
Até que ponto se trata de algo dos próprios movimentos raciais ou
apenas o reflexo neles da mudança das esquerdas ilegalistas de condição que
referenciamos acima, é matéria que requer estudos especialmente
voltados.
Ao contrário de Stanely Aronowitz, não creio que se possa caracterizar essa
mudança como pós-moderna. Aqui salientei a sua raiz na transformação
antropológica pós-positivista, isto é, vindo desde os anos oitenta do século
XIX, entre Nietzsche e o anarquismo de Bakunin, mas com ênfase na
fenomenologia-hermenêutica existencial. Contudo seria preciso, ao menos
brevemente, referenciar o longo caminho do pensamento anti-democrático
pós-feudal, de Maquiavel aos libertinos e depois, em pleno capitalismo, o
protótipo dos regimes cartelizados desde a Prússia, o nazismo e as ditaduras
impostas ao terceiro mundo.
Especialmente o maquiavelismo como um movimento de ideias é referenciado em
Abbagnano (dicionario de filosofia), com um interesse especial para o
cenário atual brasileiro: convencionalismo de elites de espírito autoritário,
porém como apenas formas de comportamento exterior para ilusão das massas, bem
ao contrário de Nietzsche - por outro lado, gozo do desprezo total das leis com
dedicação sincera à devassidão.
=============
A
propósito de alguns elementos que poderíamos acrescentar sobre a questão
levinasiana
O movimento ético levinasiano não é uma novidade no cenário em que se
inscreve, porém revela uma força nada desprezível na composição da intervenção
de "condição" atual, que vem se revelando fenômeno dramático no
terceiro mundo. A confrontação da esquerda ilegalista chega a fatos tristes de
total desmoronamento da confiança das populações nas possibilidades da
contestação à dominação, na medida em que tais esquerdas se acoplam ao
capitalismo ilegalista corruptor, interessado na dominação cultural
via patrocínio do estereótipo obsoleto da hierarquia
tradicionalista-comunitária. O ilegalismo do capital acoplado a governos
corruptos está atuando contravenção empresarial conspícua na
margem - especialmente telecomunicações/ informática - enquanto a
aposta na legalidade é infiltrada pela problemática da dependência tecnológica
e dominação do mercado.
Porém seria insuficiente ater-se ao plano das consequências efetivas, e algo
deve ser acrescentado a propósito da tendência histórica do pensamento
levinasiano.
É interessante que enquanto relacionável à trajetória do hebraísmo, ele pode
ser colocado num paralelismo com Benjamin. Os escritos benjaminianos são
esclarecedores a propósito, pela oposição que neles é muito viva entre a filiação
surrealista e a contestação ao expressionismo. Ora, é pelo lado expressionista
que se pode constatar o que seria a vertente familiar a
Levinas.
É complicado conciliar em Benjamin, aspectos aparentemente contraditórios de
sua obra. A visão lyotardiana do judaísmo como pensamento do absoluto da lei
sem representação do Ser é bem conciliável com o estudo derridiano a propósito
de Benjamin. Por esse lado, ele e Levinas seriam expressões de uma mesma
tendência. Porém os escritos benjaminianos sobre os
surrealistas saúdam, como à revolução em estética, a descoberta de
que a perfeição da linguagem só existe quando já não resta nela espaço algum
para o sentido, de modo que se torna uma ponte para a verdade puramente imagística do
inconsciente. Além do qual nada pode se instalar como alguma fé nas coisas elas
mesmas - excetuando o trabalho conjunto dos braços e da inteligência
interessada, seja na dominação capitalista ou na libertação social.
Uma perspectiva bastante soreliana, pessimista, que exclui todo apelo ao
espírito assim como toda conciliação de classe ou social-democrata. Porém
abrigando um secreto amor pelo realmente rico se desobrigado como um
"senhor" nietzschiano - assim como Benjamin vê Proust, e se pode
atestar também pela influência de Sorel sobre o fascismo, não apenas o
comunismo neomarxista e o anarquismo.
O que Benjamin abomina no expressionismo, pelo que se pode ler em sua distribe
contra o poeta Kästner, é a ligação na cultura permitida por esse movimento
ou pela "nova objetividade", com o pequeno
burguês tipificado no desempenho de algumas profissões de atravessadores
como "os agentes, os jornalistas, os diretores de pessoal" (Walter
Benjamin; oras escolhidas, São Paulo, brasiliense, 1987, p.74) Transitando à
esquerda, tais elementos são "a mímica proletária da burguesia
decadente" e jamais o proletariado real. Em política geram cliques, não
partidos; na literatura, modas, não escolas; assim como sua função econômica de
intermediários se opões à dos produtores.
A palavra produtor aqui é uma chave soreliana indubitável, esclarecendo a
conexão com uma simpatia pelos extremos, o rico e o pobre, assim como
pelo que se pensa ser genuinamente o que é a partir do que realmente faz
na distribuição originária das funções.
E um contraste com nossa maneira de ver atual pode ser obtido, se lembrarmos
que já não nos parece que uma vez a política, a literatura e a economia estando
desambiguizados de modo a não confundirmos o que eles podem ser em si com o que
eles representam no sistema capitalista, na imanência deste restariam
incólumes de sua mitsura com o que Benjamin nos apresenta como o seu avesso.
Mas segundo a tendência soreliana que Benjamin segue ou com que tão bem
se coaduna a desambiguização não é possível. É só nessa imanência que podemos
situar a subida do inconsciente, para o bem ou para o mal, até o
espalhafato da cultura, assim como não podemos separar o homem de sua
profissão, burguês ou proletário.
O
que Benjamin tanto censura a Kästner como tipo na trajetória
do simbolismo ao expressionismo e à nova objetividade é ela, com
"sapiente ironia", vangloriar-se "tanto com os vestígios dos
antigos bens espirituais quanto o burguês com os vestígios dos seus bens materiais."
Segundo Benjamin, não é que não haja alguma novidade nisso:
"nunca ninguém se acomodou tão confortavelmente numa situação tão
inconfortável".
Porém o raciocínio de Benjamin nessa crítica não é tão fácil seguir. O
radicalismo desse movimento é apolítico já que nenhuma ação política
restara à sua medida àquela altura. Restrita a medida, a seu
ver, à inação, o protesto expressionista sendo contra todo
obstáculo à nada além de sua autofruição "num estado de
repouso negativista". Mas de fato o que ele estaria fruindo em si mesmo? O
que o atrai ao âmago do ego?
Primeiro, para Benjamion ele visa reconciliar-se consigo mesmo.
A humanidade como identidade entre a personalidade e a profissão é porém
para Benjamin alienação, uma vez que a tensão entre ambos deveria ser o caminho
revolucionário da politização de ambos, ao invés da conciliação produzir a
identidade do sujeito numa ordem suposta eterna e natural das coisas. A
humanidade portanto não está do lado em que o expressionismo se alinha,
onde pretenderia que ela estivesse. A polaridade na imanência de onde não se
pode fugur e que é assim como em Levinas o contrário da autonomia do ego, se
localizam a reflexão e a ação.
Mas, segundo, o ego é em que para os expressionistas residem os
sentimentos, o espírito intocado pela matéria do cérebro: "a natureza, o
amor, o entusiasmo e a humanidade". É isso o que Benjamin soberbamente
invectiva. Esses sentimentos, a seu ver, são chavões, formas ocas, e se a
trajetória da cultura burguesa que conduz ao expressionismo não deixou de
apresentar-se como literatura de denúncio e protesto à exemplo de Heym e
Lichtenstein, uma vez refeita em nome do sentimento Benjamin a condena
como apenas a formulação do desespero burguês, "para tombetear sua
aflição" mantendo-se ao largo da ação política.
Benjamin não deixa de registrar que dessa literatura à Kästner houve
decadência, porém como alguma "última metamorfose da melancolia, em
sua história de dois mil anos" - e bem como Nietzche, para Benjamin a
depressão é um problema de vísceras, a expressão psíquica da
obstrução intestinal.
Na verdade, a trilha do sentimento na trajetória do "pré-" ao
"expressionismo" conduziria a algo bem mais vasto do que
Benjamin deixa entrever. Conforme Carpeaux, esse movimento conteve um
elemento da religiosoidade germânica que se comunicou, como a um
ramo específico, à religiosidade judaica. Conforme Carpeaux (história da
literatura, Rio de janeiro, alhambra, 1984, v. 8), esse elemento é
gótico, Ernst Barlach tendo-o misturado ao misticismo russo. A influência
do pensamento judeu é forte na Alemanha segundo Carpeaux, como em Amor Dei,
de Kolbenheyer (1908), embora mais tarde tenha ele se convertido ao nazismo
renegando a obra. A influência do judeu Bergson foi atambém importante na
Alemanha. O conflito interno a esse misticismo é o de
sionistas apolíticos, espiritualistas, que se colocavam contra o
sionismo políticao de Herzl. A conexão desse espiritualismo
com o espírito tradicionalista do nazismo é
aqui nítida, a irredutibilidade sendo apenas prática, pelo
racismo ariano. A ilustração da corrente em Carpeaux, nesse trecho,
é referência a Weininger e Rathenau, um anti-semita e um
budista perseguido pelo nazismo. Jitzchok Peretz (, grande influência do
famoso Martin Buber, sintetiza a vertente hebraísta, e Carpeauz o
caracteriza de um modo que aqui soa muito familiar a Levinas. O situamento
apolítico vai desaguar num sistema filosófico-religioso em que Peretz chama o
homem pra completar pela ação ética a obra inacabada da Criação. O caminho
correto depende de se ouvir a palavra de Deus, o "grande Outro", o
"Tu" do "eu" humano (p. 2040/3).
Buber e Gustav Meyrinck desenvolvem a tendência e o
vocabulário vindos de Peretz. Franz Werfel é um adepto importante dessa
"filosofia religiosa do Tu", que desde Levinas podemos
designar a "do Outro". Em Werfel (O amigo do mundo; Somos)
catolicizando-se. A primeira peça do expressionismo é O Mendigo, de
Sorge, (1912) ilustrando a influência já bem espalhada desse misticismo
entre os católicos. Kafka emerge nesse ambiente, porém para inaugurar uma
tendência autônoma como literatura fantástica ou realismo mágico.
A antítese do político e do ético já está portanto bem designada no interior da
Vanguarda, como entre impressionismo materialista e o expressionismo
espiritualista que embasa muito do que mais tarde tornou-se consolidado na
produção de Levinas. Porém algo em comum é a raiz anarquista, antilegalista, de
ambos. Ora, o problema torna-se a relação da práxis - ética ou política -
com o pensamento em prosa que a embasa, uma vez que a práxis não é
redutível ao conceito, e o que o pensamento tem a denunciar é justamente o
equívoco dessa redução. O sentido aqui é o que está deslocado, em todo caso,
pelo engajamento.
Derrida quis infirmar o empreendimento levinasiano nesse ponto, e é possível
que sua insistente defesa do pensamento do Ser heideggeriano tenha tido essa
função. Porém as raízes de Heidegger são demasiado comuns a Levinas
para resultar coerrente um contraste demasiado
severo. Repetindo, a meu ver Derrida refutou Levinas
ao situar sua contradição entre o outro infinito e o outro real,
mas não o superou por não ter realmente tangenciado a aporia do
outro como interrupção do pensar na experiência. Não creio que
Derrida tenha se pronunciado sobre isso, seja enquanto possibilidade
ou problema. A experiência em Derrida parece inteiramente conciliada
com seus pressupostos semiotizantes, porém não creio que o real seja
adequado a uma hierarquia assim.
Entre as contradições que detectamos no discurso derridiano a propósito do Ser,
uma curiosa decalagem também pode constar a propósito da metafísica
levinasiana. Por um lado, Derrida constata que em seu edifício "nem mesmo
pode penetrar" a questão do ser, dado que invertendo a hierarquia de
ontologia e metafísica, como do ser e do sendo, deixa aquele "para sempre
fora de alcance."(p. 206) Por outro lado, a metafísica do rosto
"encerra" em si o pensamento do ser, por pressupor a diferença entre
o ser e o sendo, e esta é a maior crítica de Derrida a Levinas. Todo o discurso
do sendo já é comandado pela predisposição do Ser, mas como Levinas não o
compreende, performatiza o comando sobre que ao mesmo tempo se cala (p. 207).
Porém a aporia da escritura não parece ser tão grande do lado do sendo quanto o
deveria do lado so Ser. Sobre essa aporia que em todo caso também deveria ser a
de Levinas ao circunscrever o sendo na irredutibilidade do real como da
experiência que como tal se opõe ao real ordenado de um ego, isto é, como
todo e inteiramente Outro, Derrida pronunciou apenas o veredito do idealismo
além da letra. Porém ela é inerente ao ser do significado - e sobre isso, não
encontrei o pronunciamento de Derrida.
A aporia do discurso significado em Benjamin é constatável de um
modo mais simples. Como vimos, o elogio do surrealismo em Benjamin
principia do ponto em que por hipótese podemos pensar, ao contrário do
ordinário, que linguagem e sentido são inteiramente independentes, tanto
que a perfeição da linguagem só existe quando já não resta nela espaço algum
para o sentido. Benjamin assim o expressou com a finalidade de louvar o
surrealismo em seu momento triunfal, quando apenas som e imagem se ligavam automaticamente
na linguagem desse modo autonomizada - ou despida de tudo o
que alienava sua originária autonomia. Do que se depreende que o próprio texto
bejaminiano prosaico não era o instante dessa realização.
Que não o era, atesta o próprio texto, antedatando o momento; ele visa louvar
uma fase em que o surrealismo já não estava, Benjamin escrevendo em 1929 sobre
a produção do grupo em 1924. Porém ele não depreciava a obra´própria se fazia o
elogio portar sobre um movimento que lograra extravasar toda categoria
do "artístico" e do "poético'", lembrando o modo pelo
qual Breton pretendera romper uma prática da literatura sobre a existência,
para ao invés fazer a vida literária; acabando com a fronteira entre a vigília
e o sonho, era então a linguagem desligada do sentido.
Assim a prosa podia não ser também retórica, mas, ao invés, conquistar seu
caminho para a imagem, a onda onírica que seria revolucionária quando já
pudesse ser vista na cotidianeidade. A revolução que Benjamin tem em mente, ele
a saúda no surrealismo não apenas porque este nascera da revolta anti-católica
na França - como Carpeaux o atesta. Mas porque a positividade de sua
transformação prática revolucionária teria superado as fraquezas decorrentes de
atitudes ditadas apenas pela revolta. Eis ao ver de Benjamin o surrealismo
lierto de suas ligações suspeitas, com o espiritualismo por
exemplo. Mas esse esoterismo
não-contemplável, porque seria parte da vida das massas e já não acessível à
intelectualidade burguesa, é efetivamente o que? Nem o sentido, nem a egoidade,
mas tampouco qualquer ideal. O pessimismo soreliano de Benjamin se anuncia bem
ortodoxo, como crença no sentido restrita ao fazer do homem, e, por isso, ele é
amoralidade.
Encontramos aqui, portanto, a mesma equação de Levinas: a moralidade só pode
ser transcendente. Se a antítese recobre o surrealismo pelo lado
benjaminiano, ou pelo contrário havia nele, pela extravasão
modernista dos limites da tradição europeia dos valores e de sua criação,
o questionamento dela, não cabe aqui responder. Para Benjamin, a amoralidade do
fazer consiste em que este é tanto bem quanto mal, só não se concretiza na
solidão, ou, mesmo, é preciso denunciar que no fundo desta não há um
"eu" mas um mundo, isto é, uma "recherche" como em
Proust.
O mundo, pois, está novamente transfigurado pela imagem onírica, e esta é
fabricação da semelhança, razão angustiosa ou extática das coisas. Aquilo
que vemos apenas tem o dom da evocação do que lembramos, como do
que queríamos ver. Entre a profusão do trânsito na cidade grande a vista
não distingue o númem das pessoas reais. Como Benjamin comunica em seu
artigo sobre Proust. O mundo deformado por essa semelhança que a mente
constitutiva das coiss nela projeta na noite do sonho, só vê em si irromper a
luz da manhã como "o verdadeiro rosto da existência, o surrealista".
Mas como Benjamin, ou sua dialética, perseguiram a síntese do fazer coletivo
com a imagem do mundo onírico, se entre ambos às coisas não é devolvida a divisão
perfeitamente assegurada da noite e do dia? Essa pergunta ressoa com a que se
fez à ética de Levinas, quando este a instrui no respeito ao outro mas
não o divisa além da remissão ao texto, como à Torá.
Minha perspectiva não é de que o futuro que sorriu a estes pensadores, na forma
do presente da ética apolítica - isto é, ilegalista - em que se pode constar
tão palpavelmente sua influência independente de convir ou não ao que eles
desejaram, anuncia alguma passagem para o além - da letra ou da pergunta.
Espero ter ficado bem expresso que não creio num futuro da humanidade
conservada que seja ao mesmo tempo a alienação do político, este o campo da
heterogeneidade social em que entretecemos objetivamente a decisão comum sobre
a coexistência. Ressalvo, devido à circunstância infeliz de estar escrevendo no
Brasil, que por "político" entendemos o campo da intersubjetividade
em seu aspecto público-legal, e não qualquer cargo detido por canalhas
apesar da terminologia corrente neste país.
Na imanência do sentido teórico corrente do termo, contudo, minha defesa do
estabelecimento do nível público ou político, garantindo a
liberdade de consciência e crença em nível privado, não é redutível a
qualquer dos dois lados da oposição entre Benjamin e Levinas, uma vez que em
qualquer deles não deparamos com a coincidência, estrita quanto ao
possível, da coexistência com a legalidade. Por onde o comum já não
significa o domínio de alguns.
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As aporias que constatamos nas teses que pudemos algo sumariamente examinar
conduz a uma interrogação mais ampla a propósito de alguma limitação
que lhes seria comum. A geo-ego-logia colhe o seu sintoma, não
sem restituir a elas o referencial antropológico de sua crença
variável. Mas por que seria o sintoma, além da contradição, tão
conveniente à inefabilidade do verdadeiro?
Na lacuna escavada entre ciência e ideologia, a partir da
autonomia conquistada da experiência relativamente ao incondicionado, o
pensamento recuou à consciência e à linguagem. Ora para celebrar a
autonomia da experiência, ora para protestar que não era legítima, o
pensamento reservava de algum modo a sua razão de ser, acantonando-se
primeiro na consciência depois na linguagem para dali refazer o
criticismo e indagar sobre si mesmo. Por mais que se defendesse da história,
era porém a ela que sempre restaurava, mas sobre o porque disso
jamais se indagou.
Só recentemente houve um historicismo estético - quando a arte se
solveu na sua história, como no manancial dos seus motivos e realizações.
Ainda não se assumiu o historicismo
filosófico. Notável nesse percurso do pensamento, em
se fazendo sempre a voltar sobre seu percurso
próprio, é a posição das categorias como ao que poderíamos designar o
verdadeiro início de algo como "um percurso" - algo
que tanto pode realmente ser quanto pôde ter sido fabricado assim.
Não ignoramos a sua crítica, porém a pretensão inquestionável com que se a fez.
As categorias desde Aristóteles instituiram a partilha insanável do ser e dos
sendos, e desse modo não ocultou a variação do ser inerente ao sendo, mas
sim a antilogiké do devir em que os contrários se jogam juntos
num verdadeiro movimento do pensar não fixável na forma singular da
predicação - que ademais não necessariamente esgota o
possível na linguagem. Na partilha categorial instituiu-se, pois, a
segregação fundamental em que jaz ainda a cultura supostamente
pós-categorial do signo. Entre o referente e o
referenciado, o sujeito e o predicado, a substância e a relação.
Desde Kant a partilha se reenunciou como pós-ontologia, e a partir de
Heidegger, assim como do entorno em que seu pensamento ganhou
consistência, foi ela própria posta em causa. A linguagem das categorias cedeu
ao existencial. Entre Heidegger e a linguística
estrutural do inconsciente, vimos que o passo não foi muito grande, apesar das
aparências. De permeio, o marxismo. Althusser também se expressa sobre o que se
deve rejeitar em termos de "mera
categoria".
Mas a conserva? A ambiguidade da rejeição ao categorial na filosofia recente é
tão notável quanto o estatuto ambíguo da experiência. É para
manter-se sem a alienação dela que se fazem todas as ultrapassagens que se
julgaram pendentes na história da modernidade enquanto a soleira desse
"para além", no entanto, jamais se conseguiu até agora o feito
definitivo, e, curiosamente, sempre se o tentou pelo lado oposto - o pensamento,
a língua e o sistema. Creio estar sendo extremamente necessário
interrogar o a priori, na fonte kantiana de sua constituição, se o
que precisamos é apreender a auto-posição da
modernidade enquanto uma ruptura fundamental da
psique. ///// blog em elaboração
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blog em elaboração...
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(...) Blog em elaboração ... /////
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